Eu já era adolescente, tinha uns 15 ou 16 anos, era o ano de 1982, 83, quando vi um homem, também jovem, com brincos, uma pequena pedra no lóbulo de apenas uma das orelhas, e aquilo significou muito pra mim, pois interpretei como atitude, me pareceu um adereço abrindo caminho para seduzir alguém e era novidade, pois eu nunca tinha visto homem com brinco nem em filme, talvez apenas o pirata do gibi Capitão Gancho tinha uma argola na orelha, mas ele também tinha bandana, tapa olho e espada e era mais fantasia que alguém do mundo real e aquela argola não significava nada para mim.
Depois, em 1986, eu já estava na faculdade, vi Jefrei, o jovem protagonista de “Veludo Azul”, de David Lynch, com duas finas e discretas argolinhas na orelha esquerda e fiquei admirado. Achava bonito.
Eu nunca achei que usar brinco fosse pra mim, pois sou alguém que não consegue usar nem anel ou correntinha, pois eles me incomodam.
De repente, como numa epidemia, homem com brinco se tornou uma banalidade e rapidamente aquele adereço, para mim, deixou de ser um diferencial e aquela mensagem de atitude que transmitia um homem com brinco se transformou em um homem sem personalidade, apenas um cara envolto no modismo o que, para mim, é a pior, ou uma das piores, qualidades de uma pessoa.
Na sala de espera de uma clínica cardiológica, enquanto não chegava minha vez de ser atendido, semana passada, essa lembrança de adolescente veio à minha memória assim que vi, no lado oposto da cadeiras onde eu estava, um senhor com o rosto bastante enrugado, apesar de sua barba branca era perceptível ver suas rugas, o que não escondia os seus 70 e tantos anos e não digo 80 porque ele se mostrava bastante ágil e ativo com seus gestos expansivos enquanto falava com a mulher e um casal, o que me fez pensar: Quem é que leva amigos numa consulta médica? Mas é o que aquele homem ali fez e antes que me pergunte como sei, digo que sei que ele estava com a esposa e amigos com idade regulando com a dele pela conversa que eles tinham que variou desde o que esperava que o médico iria lhe dizer até como seria a viagem de janeiro, e aquele velho, sim, é isso que aquele cara era, um velho, usava em apenas uma de suas orelhas, a esquerda para ser específico, um brinco de argola.
Ao contrário do menino que fui e vi atitude do outro menino que vi de brinco na década de 80 do século passado, agora que sou um velho sem cabelo e vejo outro velho diante de mim de brinco, passado o primeiro quarto do século 21, meu sentimento não é nenhum pouco de admiração, mas, surpreendentemente de desprezo e irritação e minha vontade foi de me levantar e ir até aquele cara e dizer para ele deixar de ser babaca e tirar de seu lóbulo aquela merda de argola pois estava feio, transformando não apenas ele, mas a categoria velho, na qual estou incluído, em pessoas ridículas, que são aquelas que não se aceitam ou não aceitam o corpo que têm e usam apetrechos, como um brinco, para comunicar ao outro uma mensagem do tipo olha, estou com muitas rugas, mas é só na minha cara porque aqui dentro deste peito bate um coração (que precisa de cuidados médicos porque está velho e bastante usado e por isso ele estava no cardiologista) jovem que é o que sou. Tenho raiva de quem nega o que se é ou não é bem raiva, mas irritação e isso vale para homens que pintam o cabelo e não só os que usam brinco, como ficam ridículos, pois não pintam o cabelo de azul, vermelho, verde, amarelo, branco, roxo, mas de castanho, de acaju, de preto pois querem que “pareça natural”, não que está pintado, e você deve estar pensando o que eu tenho com isso pois o cabelo e orelha não são meus e digo que você tem razão, não é da minha conta, cada um faz o que quer, mas me irrita na medida que exige de mim que “faça de conta” que eu não sei que ele, que nem conheço, é tão velho quanto é por mais brinco que bote na orelha e tinta no cabelo.
Por motivos que não consigo saber, tudo isso me faz lembrar do seo Urds. Sim esse era o nome de um senhor que morava perto da casa dos meus pais na Vila Santana e ia no bar que meus pais tinham no cômodo da frente e bebia um copo de vinho tinto seco, num copo americano, o que fazia dele um freguês único, pois os outros pediam pinga em suas variações como “rabo de galo”, “bomberinho”, com limão, e não sei mais que misturas. Ele, fosse vivo, estaria com uns 123 anos hoje. Ele era careca e tinha poucos dentes. E tinha no seu braço, entre o punho e cotovelo, uns números tatuados, acho. Pode ser que não tinha. Seo Urds bebia e ia embora, não era o tipo que ficava de conversa no bar, até porque os que ficavam no bar eram pessoas que trabalhavam na estamparia (fábrica de tecelagem) ou sorocabana (ferrovia) e parar no bar era um modo de chegar em casa menos nervoso (hoje se diria estressado) e seo Urds já era velho e não trabalhava mais e penso nele como o escritor Eduardo Halfon, da Guatemala, pensa no avô dele, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, no conto “O boxeador polaco” e, então, me dou conta que seo Urds não era italiano, o que eu achava que era porque tomava vinho, como se só os italianos gostassem de vinho, quando ele podia ser judeu por causa de sua tatuagem no braço, quem nem estou certo que as tinha, que na época eu nem imaginava o que podia ser, mas hoje eu sei que os judeus eram assim marcados com aquele tipo de tatuagem pelos nazistas e também por que ele nunca ia na missa e todos ali na vila Santana iam na missa senão uma das de domingo, no sábado, mas seo Urds nunca foi nem em um dia e nem no outro.
Não, seo Urds não usava brinco, e não sei ainda o que naquele velho de brinco na sala de espera do cardiologista me vez lembrar dele. Mas vou seguir tentando achar a ligação que certamente existe, mas não me ocorre qual seja. O que me deixa intrigado, pois quem se lembrar de brincos com tanta distância de tempo e tatuagem de vítimas do nazismo e não sabe a conexão que existe entre tais fatos? Talvez o velho com brinco de argola tivesse um sotaque. Talvez. Se tivesse isso ajudaria como a decifrar essa ligação de fatos? Acho que pode ser a irritação. Seo Urds era irritado com as pessoas, acho, e acho que brincos na orelha de um homem velho também irritariam a ele. É. Talvez seja isso que me fez lembrar dele. Mas não sei o motivo. Só sei que gostei de me lembrar do seo Urds porque por algum motivo eu gostava dele embora não me lembre de ter conversado com ele um dia sequer. Aliás, acho que ele nunca notou minha existência.


