São Paulo e eu

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Não há alguém no Brasil sem alguma história, memória ou ligação, mesmo que distante, com a cidade de São Paulo, que acaba de fazer aniversário.

A minha começa ainda criança, naquela história “o que você vai ser quando crescer” e meu amigo Denílson José de Melo, que morreu tão precocemente, aos 18 ou 19 anos, um craque de bola que iria jogar no São Paulo, mas não teve tempo. Denílson disse que queria ser motorista da Cometa quando crescesse. Cometa era o ônibus que levava meu pai e minha irmã a São Paulo ao menos uma segunda-feira por mês porque ela fazia tratamento médico, desde que ela nasceu. 

Não me lembro de ter ido a São Paulo até ser adolescente quando aos 16 anos, já formado no hoje chamado Ensino Médio, fui fazer vestibular para a faculdade de Jornalismo. Escolhi estudar na PUC de Campinas, mas poderia ter escolhido a Casper Líbero, a mais antiga e tradicional escola de jornalismo do Brasil. Mas não escolhi. Tive medo de São Paulo. Era tudo grande demais pra mim. A cidade não foi hospitaleira com o adolescente da Vila Santana. Coisa que Campinas foi. Abundantemente!

Nem quando eu fiz o curso Abril de jornalismo, que me abriu a porta para trabalhar na revista Veja, então a mais importante publicação do país, a cidade me acolheu. Mas eu disse não à Veja e Abril e me casei. E fui morar na Holanda e quando voltei, prestes a virar pai, preferi pedir emprego no Cruzeiro do Sul e me infurnei em Sorocaba desde então, desde 1989.

São Paulo, o umbigo do Brasil, e eu só me atrevia a ir até lá para estudar e voltar pra casa (me diplomei no mestrado em São Paulo, fiz especializações em São Paulo, ia ao cinema, teatro, exposição, mostras, ia a jogos do Palmeiras, megashow no Allianz…).

Há dez anos vou semanalmente a São Paulo, mas volto correndo. Sei os horários piores e os menos ruins para enfrentar a rodovia Castello Branco, e dirijo com desenvoltura pelas Vilas Mariana, Leopoldina, Paulista, Centro, Pompeia, Perdizes, Barra Funda, mas volto pra casa, sempre. Ainda tenho medo de São Paulo. Mais, muito mais medo do que sinto em Buenos Aires, por exemplo.

Meu medo é porqu em São Paulo eu me sinto mais insignificante do que sou, embora me sinta em casa comendo no Sujinho da Consolação, sentido marginal. Gosto da familiaridade de como os garçons de lá me tratam mesmo que eu apareça por lá raramente, como é o que tem ocorrido desde a pandemia.

Das minhas três netas, duas nasceram em São Paulo. Uma de minhas filhas, mora em São Paulo. Tenho amigos queridos na cidade. Frequento o Belas Artes, Sesc, a Sala São Paulo, mas volto correndo pra minha casa, que recentemente virou apartamento, em Sorocaba, e deitado em minha cama, em minha rede, ou sentado em minha poltrona deixo meu coração desacelerar.

Amo São Paulo como raramente amo alguma outra cidade, mas desde que ela esteja lá e eu aqui.

Tenho um amigo querido que se chama Paulo porque ele nasceu em 25 de janeiro, o dia do aniversário de São Paulo. Tenho primos, e um tio porque minhas tias todas já morreram, em São Paulo. É uma cidade que faz parte de mim, mas ainda assim ela me assusta e por isso estou sempre saindo dela, deixando-a em seu canto com seus encantos. São Paulo é múltipla, não uma só e falar isso é um clichê. Um dia, no metrô lotado, eu estava me equilibrando e um baixinho meteu a mão dele no meu pau e olhou fundo nos meus olhos e falou, sibilando: Gossstooosssooo. Antes que eu reagisse ele saiu no vagão, que estava parado neste momento, e quando a porta fechou, antes do trem partir, ele botou a língua dele pra fora da boca e ficou mexendo-a enquanto me olhava. Fiquei atônito e algumas pessoas riam e outras viravam a cara e uma senhora cedeu o banco dela, reservado a idosos, para eu me sentar por instantes. Logo desci. 

Viva São Paulo e seus 472 anos!

PS – A Foto que acompanha este texto, de São Paulo noturna, é de Esdras Barbosa e eu peguei de sua página da internet.

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