O livro “Alexis ou o Tratado do Vão Combate” está perto de seu centenário dependendo da escolha que se faça: Em 1927 ele começou a ser escrito; em 1928, concluído e, em 1929, teve sua primeira edição publicada.
Mas não é por isso que eu o li nesta primeira semana do ano. A verdadeira razão é o acaso, pois quem me acompanha aqui sabe que meu critério de escolha é livro de sebo. “Alexis” é um desses. Eu nem mesmo sabia qual era sua temática quando o tomei em mãos.
A autora, Marguerite Yourcenar, tinha apenas 24 anos quando começou a escrever e a pouca idade não a impediu de escrever um dos grandes clássicos da literatura francesa do século 20.
Há algumas razões para o livro assim ser interpretado e a temática, sem dúvida, é uma delas. O livro é de uma única voz, a de Alexis, que dá título à obra, dizendo em uma carta escrita à Mônica, sua esposa, quem ele é.
Daí o subtítulo do livro “O Tratado do Vão Combate”, ou seja, Alexis passou a infância e adolescência combatendo, em vão, sua condição de homossexual. Não é uma escolha a homossexualidade. Não é uma doença. Não é uma aberração. Mas assim, no começo do século 20, a homossexualidade era encarada pela igreja, pelo Estado, pela sociedade, pela família, enfim. Família! A base do capitalismo. Os carnês de aluguel, da loja, do açougue, da padaria, da luz, água, internet… são o que sustentam o sistema.
Por isso Alexis se casou e gerou Daniel, seu único filho. Mas a mentira de seu sentimento se torna sufocante e ele resolve ir embora de casa, pondo fim à família, e explicar por carta (o livro) essa decisão. Ele pede perdão a Mônica não por abandonar o casamento, mas por demorar a fazê-lo.
Alexis sente alívio por assumir quem ele é. Por parar de se culpar por quem é. Por deixar de viver na mentira. Não sabemos o preço que ele vai pagar por isso, mas imaginamos. Será alto.
O livro não se aprofunda no tema, mas permite a compreensão de que o gênero humano é uma construção cultural e social a partir de algo natural, as diferenças biológicas do nascimento.
“Alexis” tem uma temática absolutamente atual, mesmo cem anos depois de ser escrito. Mesmo com todos os avanços registrados e relatados sobre a realidade de quem não é heterossexual ao longo deste tempo. Inclusive a de que a dor de Alexis, que é a dor de um homem, se dá nas mesmas condições e igualdade numa mulher.
Impressiona a lucidez de Alexis sobre si e o que o deixa triste e o que deve fazer para ter um pouco de felicidade. É de uma maturidade rara nos dias de hoje e a quantidade de homens matando mulheres é sintoma do quanto estão perdidos neste século 21. Rejeitam o fim do relacionamento e chegam até extremos para manter o controle sobre “algum segredo”, matando, materializando o ódio pelas mulheres como se o problema fosse dela e não deles.
O Papa Francisco, quando assumiu o comando da Igreja Católica há pouco mais de uma década, surpreendeu o mundo com sua postura de acolhimento e respeito para com as pessoas homossexuais (sentimento humano tão complexo representado na sigla LGBTQIA+), afirmando que Deus as ama.
Sua postura nutriu a impressão de que a Igreja Católica mudaria sua doutrina diante dos gays, mas ele morreu e o Papa Leão há um ano no comando da Igreja simplesmente se silenciou diante do tema. Quando se olha para as igrejas evangélicas, a situação é ainda pior, pois algumas insistem em tratar o homossexual como doente.
Gostei de ter lido “Alexis”. Apenas reforçou as convicções que tenho sobre o tema. A de que somos iguais independentemente da condição, gênero ou raça. É um livro didático que deveria ser lido por quem vê o tema com ressalva, preconceito ou ignorância.

