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A virada do ano, todo ano, não é oportunidade de nada, nem de renovação de votos, nem para abandonar o que já não serve, nem para mudar hábitos, nem para colocar foco naquilo que realmente importa (ai, ai que idiotice este clichê, não que outros não sejam, mas este me irrita um pouco mais), não é rito de passagem alguma e não há finalização do “velho” para o acolhimento do novo. Ahhh não ser na fantasia da publicidade, essa entidade que norteia a existência humana com sua comunicação simples, persuasiva e instantânea (que até uma anta com baixo nível cognitivo entende). Como gado, o humano segue o que ela manda. Sim! A publicidade dá ordens e quem estiver desatento obedece a ela sem perceber.

A prova disso vi hoje num bairro periférico num menino magro, diria esquelético de tão magro, cor da pele nacional (mistura de raças) cabelos alisados e descoloridos (num tom entre o prateado e amarelo) penteado com alguma brilhantina, repartido de lado, vestindo chinelos, tipo rider, mais precisamente um clould foam, calção e camiseta preta com a marca Dior escrita em letras reluzentes em seu peito. Pobre, como bem observou Joãozinho Trinta (lembram dele?) gosta de luxo, de moda, de estar na onda, mesmo que seja usando réplica. Me lembrei do filme “O Diabo Veste Prada” quando a poderosa editora da revista (a Bíblia da moda) explica que as pessoas estão usando um determinado tipo de azul porque no ano anterior assim sua revista estipulou.

Podem virar quantos anos forem e pular sete ondinhas infinitamente e fazer quantas resoluções quiserem e nada vai mudar. Talvez, se a resolução fosse “deixarei de ser imbecil” alguma coisa mudasse. Mas como fazer a pessoa aceitar que ela é absolutamente idiota e imbecil? Ao contrário, ela está convencida que já sabe tudo. Que livro “não serve” pra nada. Que ódio desses tolos que vivem em torno da utilidade ou função das coisas e pessoas!

Enfim, 2026 será igual. Já está sendo. Um ano moldado por tragédias em seu início (veja as mortes na boate Kiss da Suíça, que já ficou “notícia velha”, e o ataque à bomba dos Estados Unidos na Venezuela na mais vil agressão imperialista recente). Agora é aguardar pelas enchentes sazonais nas cidades, todas estão pavimentadas, pelas viroses (Carnaval) e depois Copa do Mundo e eleições. Então será hora novamente da correria às lojas, pois já será Natal e tudo seguindo igual com as pessoas entorpecidas em comprar, comer e beber demais e falar em emagrecer. Assim até que se dão conta que estão para morrer. Quando percebem a morte, pois tenho a impressão que são pegas, sempre, de surpresa. 

Mas eu convivo bem com todos que não pensem assim e celebrem a data. Até Virginia Woolf, em 1931, fez resoluções de Ano Novo: “Não ter ninguém. Ser livre. Ser livre e gentil comigo mesma. Às vezes ler, às vezes não. Sair, sim, mas ficar em casa mesmo se for convidada. Quanto às roupas, acho que vou comprar algumas boas.”

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