Folhas de louro

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Na banca de tempero da Raquel, eu ouço a pergunta: E espanta marido, tem?

A Raquel, há dois anos, deixou sua banca, embora o nome tenha ficado, para sua nora. Foram mais de trinta anos acordando de madrugada tivesse chovendo, fazendo frio, feriado… 

Essa é a rotina de qualquer feirante, essa instituição milenar cujo o primeiro registro se dá antes de Cristo na região do Egito.

Eu nasci indo à feira, claro que essa é uma expressão, mas significa que em muitas de minhas primeiras memórias de criança eu acompanho minha mãe na feira toda quarta-feira e sábado. Nas feiras de sábado, nesta época do ano, ela comprava rosas vermelhas, um adorno para a casa onde morávamos. Nesta época a cada dois anos, as paredes eram pintadas. Era o modo dela esperar pelo Natal. Nas feiras de sábado, também, a vizinhança comprava frango. Mas vivo. Sim, algo inimaginável hoje em dia. E não raro alguma vizinha pedia e minha mãe matava o frango. Ela segurava os pés do bicho com sua mão esquerda e dava um puxão violento no pescoço com a mão direita. Violento, mas com força suficiente para destroncar o pescoço sem arrancá-lo do corpo. E então o bicho dava umas estrebuchadas e então parava, morto. O frango tinha que ficar de ponta-cabeça por algumas horas, ou minutos, não lembro, para o sangue não voltar, ficar todo na cabeça, e a carne ficar branquinha depois de assada ou frita.

Minha mãe também comprava na feira, mas sempre de quarta-feira, o óleo usado por ela na cozinha. Hoje qualquer um compra óleo no mercado em pets de 900ml. Quando eu era criança, nos idos de 1970, não. O óleo vinha em tambor gigante e o vendedor, usando uma alavanca, tirava o óleo de dentro e punha na garrafa de vidro que cada freguesa levava. Algo absolutamente ecológico. Neste século 21, nunca se produziu tanto lixo de embalagem. Embalamos tudo. Haja lixo!

E tudo isso me passa pela cabeça ali na banca da Raquel, onde sua nora, tímida, ainda inábil para atrair freguês, tenta anunciar: Olha o tempero caça-marido… Olha o tempero Edu Guedes… Olha o tempero da carne macia… Eu sou freguês do tempero sírio que é uma mistura de pimenta síria, noz-moscada, cravo, canela… tudo moído na hora. Uso para temperar o charuto. A mão da Raquel para essa mistura não tem igual. Sua nora diz que segue a receita da sogra, mas não dá tão certo. Ou ao menos, não igual ao da Raquel, ou do meu gosto. Mesmo assim, insisto. 

Então a senhora pergunta: Não tem tempero espanta marido? E a nora da Raquel responde: Não dê comida, ele vai embora rapidinho. Eu, então, entro na conversa: Mas porque espantar seu homem. Ao que a mulher, sem vergonha alguma, me diz: São 58 anos de casamento e ultimamente ele deu para querer. Convenhamos, essa é uma frase sem sentido sem o objeto direto, afinal quem quer, quer alguma coisa. E eu busquei dar sentido a ela. Querer o que? O que ele quer? E ela: Ele quer, me atazana, vem em cima querendo. Eu com cara de ué e ela, quase me chamando de burro, disse: Querendo… Eu só entendi dessa vez por que ela falou e simultaneamente fez um gesto com os dois braços indicando sexo. Eu caí na gargalhada e ela falou, espantada: Você acha, 58 anos depois e eu tenho que aguentar isso? Não quero mais saber dessas coisas… Então a nora da Raquel também entendeu do que se tratava e mudou seu diagnóstico e recomendou que ela ponha folhas de louro não só no feijão, mas no arroz, refogado, carne… e desafiou: Você vai ver, acalma o véio.  Fiquei pensando qual véio, se o marido ou o meninão do marido. Enfim, nunca tinha ouvido falar dessa propriedade da folha de louro. Minha mãe, talvez, sim, pois ela botava em tudo o que cozinhava…

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