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Uma das mais tristes notícias, vejam que frisei das mais pois eu bem sei que não existe notícia alegre ou equivalente à alegria quando se fala de um produto nascido da realidade de alguém, ou seja, ninguém está, como nunca esteve e acho que nunca estará, disposto a pagar, ou consumir, para saber algo que não seja a desgraça de alguém. 

E assim eu soube da desgraça de Gérson de Melo Machado, de 19 anos, atacado por uma leoa dentro do recinto do animal no Parque Zoobotânico Arruda Almeida, em João Pessoa (PB) há alguns dias.

Claro que ser atacado por uma leoa é uma desgraça, mas havia em Gérson desgraças bem anteriores a essa, aliás essa é só o desfecho da série de desgraças anteriores, que nunca sairiam no jornal e, portanto, nunca saberíamos delas não fosse a leoa ter-lhe mordido o pescoço dando fim à sua vida jovem.

Gérson escalou um muro de seis metros para entrar na jaula, ou recinto, da leoa e estava descendo a parede quando a leoa, assustada com a presença de um estranho, deu um urro de alerta que qualquer pessoa em sã consciência teria entendido o perigo que corria e interromperia a descida e voltaria a subir para ficar em segurança. Mas Gérson não tinha essa noção de realidade, pois apesar de 19 anos de idade sua mentalidade era de uma criança de 5 anos o que significa dizer que sua noção de perigo era quase nula. Gérson queria ser domador de leões, diz a reportagem a partir do que disseram seus vizinhos, e sem saber o que fazer para realizar seu sonho decidiu apenas colocá-lo em prática. 

Fico pensando se esse sonho era um modo dele lhe agradar ou agradar a sua mãe.

A partir dessa desgraça, soubemos das demais desgraças de Gérson: Sua avó é esquizofrênica, sua mãe é esquizofrênica e ele também seria. Por conta da doença, sua mãe foi afastada de todos os filhos e três deles foram adotados, menos Gérson que nunca achou uma família interessada nele e ele ficou orbitando em torno da mãe, mas sem nunca acessá-la, pois ela não saiu de seu mundo esquizofrênico.

Essa realidade de Gérson me levou a lembrar da minha quando eu tinha uns 5 anos de idade e não desgrudava da minha mãe, literalmente. Ficava agarrado a uma das pernas dela e onde ela ia, eu ia junto. Me lembro de estar agarrado à perna dela enquanto ela estava lavando roupa no tanque, no quintal; cozinhando no fogão, na cozinha; eu parado na porta do banheiro, esperando para agarrar sua perna…E minha mãe teve toda a paciência necessária para eu me controlar e desgrudar dela. Eu não era e não sou esquizofrênico. Nem minha mãe. 

Um filho, com ou sem problemas, quer acessar a mãe no literal sentido de se conectar a ela. Seja esse filho são ou doente; famoso ou anônimo; triste ou alegre… Um filho, até os 5 meses de idade, não distingue-se como indivíduo. Ele, a partir da 23° semana de vida começa a entender que ele é um e a mãe outro indivíduo. E passa a vida tendo a mãe como referência. 

Um caso curioso que ajuda a entender o que quis dizer: Stalin, que se tornou o principal homem público da Rússia logo após a revolução de 1917 e por consequência um dos mais importantes do mundo, buscou até o fim a aprovação da sua mãe. Sim, sempre a mãe. 

Em uma de suas biografias, aparece este diálogo de filho e mãe:

“Stalin visitava sua mãe muito raramente após a Revolução. Um médico que tratou de sua mãe em sua velhice, lembrou que Stalin perguntou à sua mãe em um destes encontros: “Por que você me batia tão duramente?”, “É por isso que você saiu tão bem”, respondeu ela. Em retorno, sua mãe perguntou-lhe: “Josef, o que exatamente você é agora?” “Você se lembra do czar? Bem, eu sou como um czar”, respondeu Stalin. “Você teria feito melhor se tivesse se tornado um padre.” foi a réplica de sua mãe.” Nem quando se é o maior, ou um dos maiores, homem do mundo se é capaz de obter a aprovação da mãe. Se Gérson tivesse tido uma mãe que ele pudesse ter acesso a “ela”, como eu tive com a minha, como tantos e tantos outros tiveram com as suas, como seus irmãos tiveram com seus pais adotivos, seria bastante possível que o fim de sua vida não teria sido na jaula da leoa. Todo filho merece se conectar à sua mãe saudavelmente. Sem isso, tudo se complica para esse ser.

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