A minha história preferida de Natal é “Kafka e a boneca viajante”, que virou livro com o talento do espanhol Jordi Sierra i Fabra, uma versão fiel a uma história do chescolovaco Franz Kafka que teria encontrado uma menina num banco de uma praça, em Praga, chorando, em razão dela ter perdido sua boneca e para consolar a pobre criatura inventou que a boneca havia viajado e que ele era um “carteiro de bonecas”, passando a entregar cartas com as aventuras dela, toda semana. Com suas xartas, Kafka deixou um legado à imaginação que nenhum outro autor deixou. Nem os velhinhos malvados de Charles Dickens, com sua resolução positiva da tristeza, fazem frente a essa história de Natal de Kafka.
“A Missa do Galo”, de Machado de Assis, não é conto de Natal, mas com esse nome bem que poderia ser. Ou talvez seja, certamente algum letrado deve ter defendido uma tese neste sentido. Eu o li pela primeira vez numa semana como essa, a alguns dias do Natal, esperando uma estória de bondade, esperança e superação, (como me culpar de minha expectativa com um título desses?) mas não há nada disso, é uma estória que poderia ser lida em qualquer época, pois a missa não passa de um pretexto para o personagem sair de casa tarde da noite.
Paul Auster, o escritor do Brooklyn, fez um conto de Natal sob encomenda ao New York Times onde é uma estória dentro da estória, muito bacana, sobre o balconista da loja onde ele comprava seu cigarro holandês que decidiu lhe mostrar seu trabalho fotográfico e, por fim, onde arrumou a máquina para capturar suas imagens. É uma estória tão inusitada que Auster e nós, leitores, ficamos na dúvida se o que ouvimos é verdade ou invenção do balconista. Pouco importa, no final. Essa estória virou filme, se não estou enganado, com o ator de “O Beijo da Mulher Aranha”, William Hurt.
Eu logo vou fazer 60 anos e não sou capaz de contar uma história de Natal sem que ela (a estória), e eu, sejamos piegas. Talvez nem assim eu consiga escrever um conto de Natal. Prometo não tentar te encher, leitor, com isso. Aliás, ninguém mais deveria pensar em escrever conto de Natal depois da estória de Kafka.
Mas foi nessa época, há cinco anos, na pandemia de coronavírus, que eu fui pagar os morangos que comprei na rua de um Papai Noel, todo esfarrapado, que usava nos pés, aliás pés vermelho de terra, Havaianas azuis claro, certamente a primeira da fábrica. Eram pés de pessoas do campo, humildes, pobres… e aquilo me comoveu (fantasia, semana do Natal, pés vermelhos…) e mesmo sem dinheiro comprei o morango pagando com meu cartão de crédito. Era um cartão novo, chamado Black, havia chegado há poucos dias, com um crédito que não era compatível com minha renda, mas o banco o enfiou em mim e, vaidoso, aceitei. Para resumir, o casal “humilde” (o Papai Noel estava com uma mulher igualmente pés vermelhos como ele em chinelos surrados) me devolveu um cartão de crédito, após eu pagar, que não era meu. Mas claro que só fui descobrir isso depois. E viram minha senha. E gastaram mais de 30 mil reais comprando 60 sacos de cimento, 100 metros de areia, tijolo, barra de ferro e também roupas, fizeram um saque de 3 mil reais e pagaram pelo BigMc… até que o banco “desconfiou” e impediu novas transações. E eu tive de pagar por isso tudo, e as parcelas feitas, pois foram compras realizadas com cartão e senha e a responsabilidade era minha de proteger cartão e senha. Até hoje estou devedor e quebrado porque dever é uma bola de neve… Me sinto imbecil. Nem a alegria dos “humildes” pés vermelhos enfiados nas havaianas azuis me alegram, embora eu não sinta raiva deles, apenas de mim. Uma raiva que não passa.
É aquela história de que todo dia um esperto e um otário saem de casa e quando se encontram “saí negócio”.
Só minha arrogância por ter tido dó dos pés vermelhos daquele Papai Noel explica o buraco financeiro em que me meti…


