Black friday, Giving Tuesday, ideologia… atenção por onde está navegando

Recebi dias desses, entre quase milhares de mensagens semanais que lotam a memória de meu smathphone três que me chamaram a atenção por dialogarem entre si: Che Guevara sendo convertido ao Capitalismo, uma falsa história sobre a origem do nome Black Friday e um movimento mundial de combate ao acúmulo e de doação.

A primeira mensagem era um pequeno filme: Che Guevara, através de uma máquina do tempo, desembarca numa famosa avenida de Nova York com a missão de converter e libertar o cidadão do mau, que é o consumismo desenfreado, e leva-lo às maravilhas do socialismo. Ele começa falando com alguns jovens e um deles o reconhece: Você não aquele da camisete? Sim é ele, responde um colega. É do boné, da caneta, do tênis, da bala, da camisinha e etc etc etc. E Che descobre que uma camiseta custa 40 dólares e que vendem mil, não milhões, e que ele tem direito a royalites… enfim, Che termina o filme numa sala envidraçada numa cobertura desfrutando do seu dinheiro. Che que foi converter acabou convertido.

A segunda mensagem, que reproduzo acima ilustrando essa publicação, também refere-se a essa questão do consumismo, em particular à Black Friday. Mostra uma foto de negros e dizia: Por trás das grandes e enganosas facilidades, há sempre algo obscuro. E revela que a origem da Black Friday é de 1904 com a “liquidação” de escravos. Na versão oficial, porém, Black Friday (em português, sexta-feira negra) é o dia que inaugura a temporada de compras natalícias com significativas promoções em muitas lojas retalhistas e grandes armazéns nos Estados Unidos.

Fake News

A agência de Notícias AFP – uma das mais conceituadas do mundo – publicou em novembro de 2018, por ocasião da Black Friday daquele ano, extensa reportagem sobre essa foto, mostrando que se trata de Fake News:

“Em meio ao hype em torno da ‘Black Friday’ na África do Sul, uma imagem foi amplamente compartilhada, alegando que o termo foi usado para se referir ao comércio de escravos. O termo está associado a diferentes momentos da história, no entanto, não há evidências para sustentar a alegação de que ele foi usado para se referir às vendas de escravos.

A imagem mostra dezenas de homens negros em fila única, amarrados um ao outro pelo pescoço. Um texto foi editado na imagem com a imagem “Black Friday 1904”. Uma página do Facebook com mais de 100.000 seguidores compartilhou a imagem em 23 de novembro de 2018, com uma legenda semelhante.

Os resultados da pesquisa de imagens reversas do Google mostram que a imagem está vinculada a uma capa de livro de Every Mother Son is Guilty, de Chris Owen.

Owen disse à AFP que a imagem é de prisioneiros aborígines na cidade de Wyndham, na Austrália Ocidental. Ele fornece uma descrição detalhada da capa do livro na introdução de seu livro e afirma que, quando encontrou a foto na Biblioteca Estadual de Victoria (Melbourne), teve que obter permissão dos proprietários tradicionais para usá-la. “A foto que é um ‘slide de lanterna’ foi posteriormente colorida (e revertida). Foi publicado originalmente em 18 de fevereiro de 1905, p.24 no jornal semanal da Austrália Ocidental , Western Mail . Os homens foram presos (por 2/3 anos) por suposta matança de gado ”, disse Owen. “Não faço menção à Black Friday em nenhum lugar e nunca a vi relacionada a aborígines. No entanto, falo extensivamente sobre Blackbirding, que era o nome que eles davam aos homens que sequestrariam homens aborígines e os usariam para mergulhar em conchas de pérolas. Isso foi escravidão.

O autor e historiador diz que seu entendimento da Black Friday se refere às tradições americanas do Dia de Ação de Graças e ao capitalismo de varejo. No contexto australiano, “refere-se a alguns infames incêndios em Bush em 1939 (e mais tarde em incêndios) que mataram muitas pessoas”.

O autor disse que o vínculo da sexta-feira negra com a escravidão africana parecia ser um “mito urbano”, pois o termo surgiu muito depois da abolição da escravidão. O Holocausto Australiano, um grupo ativista,  postou  a foto em abril de 2016 (mais tarde creditando o livro), e desde então foi compartilhada 57.652 vezes com 3.285 comentários.

O historiador sul-africano Professor Albert Grundlingh, da Universidade Stellenbosch, também afirma que a América do Norte é originária da Black Friday. “Basicamente, a Black Friday foi uma tentativa dos americanos, depois do Dia de Ação de Graças, de aumentar seus lucros logo após o feriado, colocá-los ‘no preto’ em vez de ‘ficar no vermelho’, de modo que se relaciona com suas contas bancárias e não com qualquer coisa outro.”

Grundlingh disse que a fotografia “nos diz mais sobre atitudes e equívocos do público do que qualquer coisa no mundo real”. Outra teoria para a origem do termo é encontrada por Snopes, datada de 1951, para descrever o dia seguinte ao Dia de Ação de Graças, um dia aparentemente conhecido por “ absenteísmo do trabalhador ”.

Muitos funcionários dos EUA tiveram o dia de folga e os varejistas queriam iniciar a temporada de férias, tentando-os a entrar nas lojas. Este anúncio fornecido pela American Dialect Society sugere que o nome Black Friday foi inventado pela polícia na Filadélfia em 1966 para desencorajar grandes multidões – sem sucesso.

Dia de Doar

A terceira mensagem, um convite a me engajar no Dia de Doar. Um projeto do qual Sorocaba cada vez mais se destaca. O consumo é fundamental no modo como a sociedade está organizada, do contrário não há emprego, trabalho, renda.

Mas se o consumo desenfreado, incentivado por campanhas que ganharam nível mundial, como a Black Friday, também te incomoda, saiba que uma organização dos Estados Unidos vem há 7 anos incentivando pessoas a doar aquilo que têm em excesso, ou o suficiente para oferecer ao outro num gesto de alento, carinho, atenção, disposição e dedicação. É o movimento “Giving Tuesday”, criado pelo britânico Henry Timms, em 2012, em Nova York, pensando no desenvolvimento de uma consciência voltada à inovação e à criatividade tanto de empresas, quanto de pessoas físicas, na construção de uma sociedade mais justa e mais humanizada. No Brasil, a ideia ganhou corpo em 2013 e há dois anos Sorocaba passou a figurar como participante da atividade com o Doa Sorocaba.

Encampado pelo Instituto Alexandre e Heloísa Beldi (IAHB), o movimento acabou ganhando mais legitimidade com a Lei 11.637, do vereador Péricles Régis, que criou o Dia de Doar em Sorocaba, em 2017. Assim, se oficializou a terça-feira posterior ao Dia de Ação de Graças e à Black Friday (3 de dezembro, neste ano) como a data em que os sorocabanos podem participar desta rede de solidariedade. Na verdade, o dia segue o calendário desenvolvido originalmente nos Estados Unidos e que é seguido por outras cidades brasileiras, além de cerca de 80 países.

Representante de Sorocaba na Assembleia Legislativa de São Paulo, a deputada Maria Lúcia Amary também tornou oficial o Dia de Doar em todo o Estado. Foi o Doa Sorocaba, inclusive, que norteou a ação da parlamentar fazendo com que São Paulo seja o primeiro estado a celebrar a data.

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