“Eu ouvi dizer que você pinta paredes”

“Honra Teu Pai” é uma reportagem documental – portanto não é ficção – sobre a ascensão e queda da família Bonanno em Nova York, na década e 60.

A partir da história do rapto do filho de Joe Bonanno, um dos grandes patrões da Máfia de então, que esteve misteriosamente desaparecido durante 18 meses, se conhece a estrutura financeira do crime organizado nos Estados Unidos, os feudos, a tomada de decisões e acordos.

Neste clássico do jornalismo literário, Gay Talese narra a origem histórica da Máfia, lembrando o seu início como uma associação dos sicilianos que migraram aos Estados Unidos contra os opressores, nativos, que exploravam e extorquiam quem ali chegava.

Na televisão, por 11 temporadas, a série “A Família Soprano” revelou em mais de 200 episódios os costumes, hábitos e comportamentos do cidadão comum, os melodramas, enfim, “humanizou” o gangster.

No cinema, sem dúvida, com o filme “Os Bons Companheiros”, mas especialmente a saga de “O Poderoso Chefão”, esse universo da máfia e do submundo no qual ela está envolvida despertou curiosidades, paixões, enfim, um interesse genuinamente particular sobre este tipo de pessoa.

Agora chegou a vez de Martin Scorsese, o mesmo de “Os Bons Companheiros” contar a história de “O Irlandês”, baseado no livro de 2003 I Heard You Paint Houses(em tradução livre “Eu ouvi dizer que você pinta casas”), de Charles Brandt, que relata a história do maior assassino da história da máfia.

No filme, exclusivo da Netflix que passou em apenas 12 salas de cinemas em 11 capitais do Brasil e em Santos, de imediato se entende o que significa a expressão pintar salas.

Do livro “Honra Teu Pai” a “O Irlandês”, passando pelo “O Poderoso Chefão”, que vi e revia tantas vezes, e pela “Família Soprano” – que igualmente assisti dezenas de vezes, inclusive cheguei a ter a coleção em DVD – o que mais me interessa na organização Máfia é o que se chama lealdade.

Isso fica claro em todas estas obras, mas fica explícita em “O Irlandês”. O personagem central, quando podia contar ‘a verdade’, pois todos estavam mortos e não sofreria nenhuma represália, ainda assim se mantém leal e não abre a boca.

Essa lealdade faz com que se aja contra os próprios instintos, mesmo que isso lhe cause a dor própria de fazer algo que pessoalmente não queria, ou a dor de ter a rejeição de uma filha que desde criança vinha tolerando tudo de seu pai, mas viu como inadmissível que sua lealdade à organização pudesse ser maior do que o amor que possa sentir.

Quando se é leal a um grupo, se obtém a proteção dos membros desse grupo. As religiões, clubes, institutos, partidos… enfim, têm o mesmo princípio. No caso da máfia, o que se vê em todas essas obras que citei é que elas estão diretamente ligadas ao “mundo real”. Ou seja, ao mundo das estruturas de poder seja no Judiciário, Legislativo ou Executivo.

Em “O Irlandês” fica evidente que a história recente dos Estados Unidos, dos últimos 100 anos, passa pelo crime organizado. A morte do presidente Keneddy, a ascensão e queda do sindicalista Hoffa, a escolha de juízes e procuradores… tudo tem o dedo de um mundo paralelo.

Se a lealdade, que as história da máfia nos contam, choca por um lado. Choca mais ainda por outro o preço de ser desleal: paga-se com a vida. Se alguém coloca em risco o “negócio”, se alguém pensa em si além da organização, se alguém quer furar a fila… morre. Se alguém não respeita, toma “uma lição”.

Ao contrário do “mundo real”, onde há todo um processo de acusação, julgamento e sentença, neste “mundo paralelo”, que as obras sobre a máfia mostram, tudo é imediato. Corre-se o risco de ser injusto, de matar inocente, mas nunca o de permitir que o sistema demonstre falha. Ele funciona como um relógio.

Esse universo totalitário é deliciosamente apresentado em “O Irlandês”. Ao contrário do que li em várias postagens e reportagens, de que o filme é longo, lento, chato, tenha certeza, ele é didático.

Fora isso, “O Irlandês” é um primor do ponto de visa técnico. É a primeira vez onde a tecnologia é usada para rejuvenescer os atores. É um prazer ver Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci (todos na faixa dos 80 anos, fazendo papel na casa dos 30, 40, 50 anos). São atores brilhantes. De Niro e Al, obviamente, os mais assediados. Joe Pesci, o meu preferido.

Os livros, seriados e filmes sobre a máfia seguem sendo uma lição sobre a complexidade da alma. A opressão do universo totalitário e hierárquico de um império, onde os filhos herdam os reinos e os “bons”, para subir um pouquinho na cadeia social, precisam entender o seu lugar e o seu limite. Os “maus” são eliminados de imediato para depurar a espécie. É um mundo darwiniano, onde sobrevive o que se adapta melhor, não o mais forte. Ou, como diz a personagem de Pesci para o de De Niro no filme: “se podemos matar um presidente que está nos atrapalhando, imagina um sindicalista…”

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