Morre mulher a frente do seu tempo: a que esculpia aliança dos elos da história e lágrimas da memória

Elisa Christina Gomes morreu sábado passado em Sorocaba aos 83 anos de idade e foi sepultada no Cemitério Saudade.

Funcionária pública aposentada da rede estadual, Elisa teve atuação de destaque na Secretaria da Saúde, quando, segundo explicou uma vez, teve contato com “a dura realidade da época da ditadura e passou a fazer contatos com militantes”. Ela participou do PCB e do MDB em Sorocaba.

Mas se destacou por sua luta pelos mais necessitados, levantando a bandeira das mulheres em uma época em que o preconceito era muito mais abundante do que hoje. Sua luta foi reconhecida pela Câmara de Vereadores, pelo Instituto Plena Cidadania, pelo Conselho Municipal de Defesa das Mulheres.

 

Últimas palavras

As últimas palavras públicas de Elisa Gomes foram proferidas na aula inaugural do curso de Promotoras Legais Populares (coordenado pelo Instituto Plena Cidadania) no último dia 9 de março, ocasião em que foi homenageada.

Essas foram suas palavras ao celebrar o que chamou de verdadeira aliança entre as mulheres: “É uma aliança fraterna, esculpida com os elos das nossas histórias, com as lágrimas e dores de nossa memória. Viemos porque é urgente, imperiosa, a construção de um novo palco, onde nunca estivemos, pois não nos contemplaram. Agora, nós somos protagonistas de um novo espetáculo, onde nossa energia psíquica é onda alta, é luz, consciência viva iluminando um chão sagrado, que se abre aos nossos passos, fecundando novas sementes, florescidas, amadurecendo as raízes das nossas escolhas, por uma vida sem máscaras. Vida de coragem, de novas descobertas, sem fronteiras. Vida liberta. Vida liberta de preconceitos”.

Pressão psicológica

Em 2014, como depoente na Comissão Municipal da Verdade da Câmara de Sorocaba, Elisa Gomes, então com 78 anos, falou sobre sua participação política e social durante a Ditadura Militar.

Militante do MDB, foi convidada a participar do Partido Comunista sem, porém, envolvimento em sua liderança ou práticas revolucionárias. Elisa relatou que sofreu pressão psicológica por sua posição ideológica, mas não foi torturada. Citou ainda passagens que a marcaram como a morte do jovem sorocabano Alexandre Vannucchi e sua participação em uma rádio comunista, quando seu carro foi levado do estacionamento e encontrado em seguida, como uma forma de intimidação. Lembrou ainda sua participação na construção do monumento em homenagem a Vannucchi e que esteve presente no Congresso da Anistia em São Paulo.

Elisa, presente!

Uma das pessoas que mais sentiu a morte de Elisa foi a vereadora Iara Bernardi. Ela fez uma linda homenagem a Elisa, dizendo que se tratou de uma pessoa que sempre a inspirou em suas lutas ao longo de sua vida como vereadora e deputada.

Por Iara Bernardi: “Grande Elisa Gomes! Sempre que estou em palestras, debates e encontros sobre a causa feminista, destaco a importância, respeito e reconhecimento por aquelas mulheres que vieram antes de nós, lutando, abrindo portas e caminhos novos para as mulheres. Reconhecidas muitas vezes muito tarde, que sofreram discriminações, mas não recuaram. Elisa foi uma dessas mulheres a frente de seu tempo nesta conservadora Sorocaba. Sempre alegre, sorridente, linda, inteligente, culta e companheira. Foi para mim um exemplo, me incentivando na luta pelos direitos humanos, contra os preconceitos, em defesa das mulheres. Nossa tristeza e carinho pela perda desta grande mulher”.

Primeira presidente

A advogada Emanuela Barros, quando divulgou Notar de Pesar pela morte de Elisa, no sábado passado, lembrou que Elisa Gomes foi a primeira presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Sorocaba, “foi uma mulher que viveu para apoiar outras  mulheres e fez isso numa época que a palavra sororidade ainda nem  existia. Ela é o Conselho Municipal de Defesa da Mulher e vai estar sempre presente em nossos corações”.

Irmã do Sabugo

Elisa era a irmã mais velha de José Antônio Monteiro Gomes, mais conhecido como Sabugo, morto precocemente há três anos. Sabugo, um dos reis da noite sorocabana, fez dos seus bares (na comendador Pereiras Inácio ou na rua Padre Madureira, onde está até hoje) o ponto de encontro de boêmios, personalidades da cena política (ele era militante do PMDB) e artistas.

O apelido Sabugo foi dado a ele em razão dele usar, quando jovem, uma espécie de colar no qual ficava pendurada uma espiga de milho. Ficou sendo, desde então, Sabugo. Quase ninguém o chamava pelo nome de batismo.

E, diz a lenda, esse colar foi um presente de Elisa.

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