Morre um líder sorocabano verdadeiramente notável

A morte de Milton Muraro foi a marca mais triste do feriado de Páscoa. Ele teve um mal-súbito na Sexta-feira da Paixão em Campos do Jordão, onde descansava, e não resistiu.

E com sua partida, Sorocaba perde uma de suas principais lideranças. Não liderança política partidária (seara onde ele nunca quis se meter), não apenas liderança empresarial e comercial (o que de fato ele era), mas liderança de inteligência, capaz de levar os mais diferentes grupos do qual participava a pensar sobre onde estamos e para onde desejamos caminhar.

Ele iria fazer 80 anos e, sem medo algum de errar, afirmo que Milton Murado foi o sorocabano mais real e verdadeiro da expressão Self-made Man: termo usado para descrever pessoas que se tornaram bem sucedidas e ricas através de seus próprios esforços, especialmente se eles começaram a vida sem dinheiro, educação ou status social, como era o caso dele.

Milton é o verdadeiro sorocabano que se fez. Ele nunca parou de trabalhar e de aprender.

Tudo começou, como nos revelou o publicitário Vanderlei Testa, em um açougue como entregador de carnes em uma bicicleta; depois como vendedor de relógio; em seguida, aos 17 anos de idade, comprou de um carro do saudoso empresário Arnaldo Silvestrini, embelezou o veículo e o passou à frente com um bom lucro. Com o dinheiro, foi a São Paulo e transformou suas economias em relógios e alianças. Alugou um salão na rua Álvaro Soares e virou dono de uma relojoaria. Depois, na mesma rua, criou a loja Eletrolar e transformou esse negócio nas Lojas Wanel. Na área imobiliária, é dele o Wanel-Ville; o edifício Torre Branca, na Afonso Vergueiro; o condomínio Millenium ao lado da pista de caminhada do Campolim…entre tantos outros.

Minha relação com Milton Muraro começou no silogismo fonte-jornalista. Sempre crítico, ele não se furtava em me chamar a atenção “…o menino…” (expressão que costumava se referir a mim de modo mais do que carinhoso) quando algo publicado colocava em risco o boom de desenvolvimento da cidade.

Mais tarde, na chamada Turma do Café, onde cheguei quase que por acaso pelas mãos do saudoso José Hatem e Alexandre Latuf, tive a chance em mais de uma oportunidade de conversar com Milton e entender melhor os meandros dos negócios e das relações dos mais bem-sucedidos sorocabanos dos últimos 50 anos. De um modo ou outro, todos tiveram algum tipo de relação com Milton.

Quando ele e a família estavam na gestão do Lar Educandário Santo Agostinho, que cuida de crianças carentes, fiquei ainda mais perto de Milton Muraro porque ele fez questão de me explicar os trâmites dessa passagem de comando da entidade. Sempre justo, ele não se furtava em reconhecer as qualidades daquelas pessoas que, num momento, poderiam estar em posição antagônica a dele.

Orgulhoso dos filhos, Milton valorizava o sucesso de cada um deles: Miltinho Muraro teve por mais de 20 anos a Anzu, referência nacional em termos de casa noturna; das meninas Salete e Telma (que herdaram o dom de lidar com jóias) e de Tânia, morta no dia 3 de abril de 2013. Uma perda que lhe provocou uma dor que ele não viu motivo para esconder durante esses seis anos entre a morte dela e agora dele.

Minha última imagem de Milton é dele, nos finais da tarde de domingo, num dos seus carrões (uma paixão que ele tinha e nutria desde a infância), dirigindo bem devagar, com seus cachorrinhos no colo, olhando a cidade que tanto lhe dava orgulho. E ainda bem, pois se Sorocaba cresceu e é o que é hoje deve, e muito, a visão do líder Milton Muraro. Um sorocabano verdadeiramente notável.

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