Mulher tinha “certeza” que homem abandonou cachorro. Mas…

Nessa onda de dizer O Brasil que eu quero, volto ao tema pelo viés do Brasil que eu não quero, a partir de uma postagem feita no Facebook no domingo e que foi compartilhada a milhares de outras pessoas pelo whattapp em Sorocaba.

Num vídeo, feito na região do Campolim, uma mulher de dentro de um carro, no banco do passageiro, sendo filmado por um homem que estava no banco do motorista do mesmo carro, se dirige a um outro homem, esse dentro de um Fuscão cinza, e lhe dirige ameaças e xingamentos: Vou chamar a polícia. É crime. Seo cafajeste. O cachorro é do senhor.

Esse vídeo veio acompanhado do seguinte texto: Boa tarde rapaziada, estava agora pela Barão de Tatuí, próximo ao restaurante Naomi, esse lixo humano, esse desgraçado, abandonou esse cachorro, e ainda teve a cara-de-pau de dizer que o cachorro não era dele, mas olha a reação do cachorro, olha o desespero (de fato o cachorro demonstra afeição pelo motorista do Fuscão). Compartilhem por favor até que chegue nas autoridades e alguém tome uma providência!!!!!!!

Horas depois, uma pessoa diferente daquela que havia me compartilhado o vídeo, trouxe a informação de uma outra pessoa dizendo que trabalhou por uma ano e meio num local de onde ele via esse homem (acusado de ter abandonado o cachorro) dando comida a esse cachorro. E alertava: antes de falar mal desse homem, pense que ele alimenta e fez bem a esse cachorro (portanto, não o abandonou).

Analisando a “certeza” da mulher de acusar o dono do Fuscão de ter abandonado o cachorro e “ter cometido um crime” e que merece “a polícia” – em que pese o homem negar ser o dono do cachorro – me vi diante do Brasil que não quero, aquele do período da Ditadura Militar, onde diante de “qualquer denúncia anônima, agentes do Dops invadiam residências, vasculhavam tudo, e bastava encontrarem um livro de economia de Celso Furtado para a família inteira ser presa como agitadora. E as consequências, imprevisíveis. Não se sabe se sairiam vivos. Quem duvidar que duvide, mas era assim. (…) Todos tinham medo de todos. (…) Este era o Brasil. Sobreviviam os que baixassem a cabeça, não vissem, não escutassem, não comentassem, num perpétuo “jogo do contente” (…) ‘Dedurava-se’, delatava-se, caluniava-se a três por dois, qualquer desafeto que atravessasse o caminho. O marido ciumento entregava como ‘subversivo’o vizinho, de quem desconfiava estar cortejando sua mulher. Sei de um caso em que o vizinho foi levado para averiguação e nunca retornou. Este era o cotidiano brasileiro. (…) Ser covarde era um mérito. (…) – trechos de Hildergard Angel, usado neste blog por mim em postagem do dia 4 de setembro passado”.

Nem tudo o que parece é. Chega de “certezas” e sentenças. Vamos dar direito ao contraditório antes de difamar, ofender e injuriar alguém em rede social. Vamos respeitar o outro.

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