Eu não me lembro de manias coletivas de minha infância/adolescência como o bordão/dança do Six Seven de hoje em dia.
Casemiro e Vini Jr. comemoraram o gol, no amistoso entre Brasil e Panamá, fazendo o gesto do six seven: As mãos balançando alternadamente com as palmas para cima.
E eu sabia do que se tratava porque dias antes minha neta de 12 anos havia me dito. Ela foi em excursão com a escola ao Instituto Butantã e o “almoço” foi numa lanchonete fast food onde aconteceu o ponto alto da viagem, na visão dela. Os alunos, cerca de 100 deles, ocuparam a parte de cima da lanchonete, e apareceu entres eles cinco garotos com, aparentemente, a mesma idade. Eles subiram em uma mesa e gritaram Six e os alunos da excursão responderam bem alto: Seven. E ficaram nesse grito six seven com as mãos se alternando pelo tempo de se cansarem.
É difícil para mim achar uma brecha de conversa com minha neta. Ela logo se cansa de mim e isso acontece porque eu não entendo algumas coisas, tipo o que significa six seven, e quero que ela me explique e ela não tem explicação e eu fui um criança/adolescente que precisava, sempre, de explicação, compreensão, ou seja, que algo fizesse sentido. E sigo assim. Mas para ela, não. Para a geração dela, não. Six Seven é algo que aconteceu na Internet, contagiou os usuários da rede e não significa nada. Talvez algo de euforia, tipo a celebração do gol.
A expressão, pelo que apurei, teria surgido do refrão da música “Doot Doot (6 7)”, do rapper Skrilla, que eu nunca ouvi nada e nem sabia da existência até pesquisar o 6-7, e fez sucesso quando o jogador de NBA LaMelo Ball começou a usá-la como referência à própria altura (6 pés e 7 polegadas).
Reportagem do Wall Street Journal mostra que quando uma professora pede para os alunos fazerem as questões seis e sete, eles gritam “Six Seven!”. Isso acontece também na sala de aula da minha neta, segundo ela própria me disse. É divertido, nonno, ela me diz.
Não importa, portanto, saber se significa algo pois a significância é o divertimento coletivo da expressão uma espécie de cola que aglutina em grupo as individualidades. Se une, não importa o motivo.
Six Seven é uma espécie, neste sentido, da antiideologia. Ele aproxima as pessoas pelo som, gesto e ritual da sua manifestação e não pela visão de mundo que a ideologia carrega.
O Dictionary.com elegeu “6-7” como palavra do ano em 2025 e justificou assim sua decisão: “É parte piada interna, parte sinal social e parte performance. Quando as pessoas dizem isso, não estão apenas repetindo um meme, estão gritando um sentimento”, explicou o diretor de lexicografia da instituição. O diretor do Dictionary.com, foi além: O 6-7 mostra “como o humor digital, a cultura esportiva e a criatividade geracional se misturam perfeitamente no vocabulário atual. É a primeira ‘palavra do ano’ da história que é um número, que não significa nada e que todo mundo usa”.
Todo mundo adolescente, eu faria a ressalva. Todos adolescentes no Brasil e Estados Unidos usam. Em minha pesquisa não vi referência ao 6-7 em outros países. Mas isso pode ser fruto de minha falha em pesquisar.
A verdade é que tenho muita dificuldade em compreender que esse nada tenha essa força extraordinária de aglutinar os jovens. Cada vez mais entendo menos a cultura da minha neta e nem mesmo meu mestrado em Semiótica da Cultura tem sido útil o suficiente para isso. O que não mudou é que a cultura segue sendo não-hereditária, mas uma construção coletiva. O que mudou é a inclusão de novas ferramentas nesta obra, no caso as redes sociais e os games cada vez mais distantes do mundo real. Embora minha sensação seja de que a Internet, ao contrário do que pensa minha geração, não é um lugar, um lugar virtual similar ao real, onde o avatar habita, mas uma linguagem. E se for isso mesmo, quando eu acho que estou entendendo o nada que aglutina a geração da minha neta eu, na verdade, não estou entendendo é nada. Mas ainda tenho interesse na vida de minha neta e isso é suficiente para seguir buscando a compreensão.


