Pedi um carro por aplicativo na região da Pompéia, em São Paulo, com destino a Barra Funda, trajeto curto, custo de 11,00, e, talvez por isso, a demora para que um motorista aceitasse a corrida.
Depois de 9 minutos, Luma aceitou me pegar com seu JAC 2, branco. Eu acompanhava no mapa do aplicativo o seu trajeto: Seu veículo está a 1 minuto, compareça ao local de embarque, dizia o robô. E eu esperando. Olho, e Luma e seu JAC 2 estão a 12 minutos. Depois 5 minutos. Depois 3. E ela chega 20 minutos depois.
É meu primeiro dia aqui no aplicativo, ela me disse, antes de qualquer cumprimento. Eu estava com tempo e então apenas lhe desejei boa sorte.
Quando Luma passou a avenida Pompéia, onde ela deveria ter virado à esquerda, entendi que ela não via e nem obedecia ao que lhe dizia o GPS. Então resolvi lhe auxiliar. Luma, na próxima você vai virar a direita e Luma simplesmente puxou seu carro, sem dar seta, de supetão, e não causou um acidente por que o motorista que foi fechado por ela evitou o choque, mas deu uma buzinada que entrou em nossas almas, minha e de Luma. Ela estava apavorada.
A viagem no trajeto de 9 minutos, levou 17. Luma deixou o carro morrer cinco vezes. Ela confundia a terceira com a primeira marcha. Eu não consegui ter raiva de Luma, apenas dó.
Eu, então, disse: Vire aqui e pare no fim da rua. É o meu destino. Ela argumentou: Mas o GPS está dizendo… Sim, Luma, é porque ele quer que você me deixe diante do número exato, mas eu descendo aqui dou dez passos e chego. Se seguir o GPS vai levar mais tempo.
Luma você gera o QR Code para eu pagar com Pix? Como faz isso doutor? No seu aplicativo, digo. E Luma aperta botão daqui e de lá e nada. Eu então digo: Me passa sua chave pix pessoal. Ela me passa o CPF. Quanto? 11,00. Eu falei, acho que é mais, você consegue ver. Me dá onze que está bom. Concluí: Você quem sabe e, então, ela conseguiu gerar o QR Code: 21,00, doutor.
Paguei. Mas antes que eu saísse Luma, ainda tensa, me falou: Meu corpo tá aqui, mas meu coração tá na creche. Meus gêmeos de 2 meses estão lá desde 7h. É a primeira vez que eles vão. Eu não consigo pensar em outra coisa, só neles. Eu disse que as creches são boas e tem funcionárias que tratam bem as crianças e ela não precisava se preocupar. Seus olhos estavam cheio de lágrimas e ela disse que precisa pagar as contas e por isso virou motorista do 99, mas ela sente culpa por ter deixado os filhos lá. São tão pequenininhos!, exclama. Eu digo que ela não precisa sentir culpa. E ela responde que sente e que sentimento e pensamento ela não controla. Eu, que seguia sentado no banco traseiro do JAC 2 lhe estendi a mão e ela pegou-a e apertou. Então ela pediu desculpas. Eu disse que não precisava. Ela disse: Precisa, sim, eu dirijo muito mal. Vai ficar tudo bem, você vai ver, eu disse. E saí e ao chegar ao meu destino olhei para trás e Luma ainda estava dentro do carro. No trajeto ela havia me dito que mora em Cidade Tiradentes, na Zona Leste, e ia tentar corridas para levar de volta para casa. Às 16h ela tem de pegar os gêmeos. Eu, sem educação, nem perguntei o nome deles. Luma era cobradora de ônibus antes de engravidar e seu marido é do IFood. Não sei a idade da Luma, mas chutaria uns 15. Eu sei que não pode ser, mas é o que parece. Ela é mirradinha.
Não pensei, enquanto estava com Luma, que escreveria sobre esta corrida. Mas agora que escrevi penso que uma fotografia legitimaria essa história. Também penso que não preciso legitimar nada e também por isso é que gosto de escrever no meu blog.
Luma não lembra em nada a Luma, a única Luma. Eu nem sabia que esse era um nome. Só conhecia a famosa. Nem me lembro também pelo que ela era famosa, só me lembro que era bonita e seu marido colocou nela uma coleira como os donos colocam nos seus cachorros e isso foi um escândalo e a Luma ficou ainda mais famosa porque gente tosca e desinformada como eu passou a saber que ela existia.
Gostei mais de conhecer a Luma do aplicativo e sua fibra, coragem e dignidade para criar os gêmeos do que a outra, a famosa.


