Muitas pessoas conhecem a minha persona de jornalista, professor, professor universitário, mestre em semiótica, apresentador de programa de rádio e podcast, blogueiro, autor de três livros, assessor.
Muitas são pessoas que eu não conheço e elas falam, no geral, que me ouviam, o que é bastante compreensível numa cidade onde a oralidade predomina, e muito, sobre a leitura. E esse encontro ao acaso e casual resulta, quase sempre, na pergunta: O que você anda fazendo agora (já que você não está mais no rádio)?
Eu falo, sem dar detalhes, o que eu estou fazendo e concluo dizendo que sou aluno da Faculdade de Letras. É visível que essas pessoas não entendem porque tomei essa decisão e as mais atrevidas questionam: Mas por que você foi fazer outra faculdade?
Pois bem, foram três as motivações que me levaram a esta decisão.
A primeira delas diz respeito a um desejo, sempre latente em mim, de voltar às aulas do hoje chamado Ensino Fundamental 2, o antigo ginásio, período da 5° à 8° série do 1° grau. Quando eu estava na graduação, cursando a faculdade de jornalismo, em Campinas, havia falta de professor e como estudante, tendo carga horária no currículo, eu fui designado para lecionar em Sumarezinho, na periferia de Sumaré, cidade próxima a Campinas. E foi uma das melhores e mais importantes experiências da minha vida o convívio com aqueles alunos. Havia uma vitalidade neles, uma vontade de melhorar de vida, uma curiosidade que eu considerava incrível. Eu tinha 18 anos e eles 11 ou 12 anos. Uma diferença de idade muito pequena. Também fui professor no colégio Uirapuru em Sorocaba, outra experiência magnífica, que me marcou demais e também marcou alguns alunos daquela época que sempre lembram daquelas aulas quando me encontram. Eu tinha 22 anos e eles 11 ou 12 anos. Uma diferença de idade pequena também e ambos (eles e eu) estávamos no mesmo patamar tecnológico.
A segunda motivação, não menos importante que a primeira, foi me aproximar da teoria literária tendo em vista meu intenso interesse pela leitura de romances e contos desde a pandemia de coronavírus. Mas o curso de Letras está formatado para o professor completo e não apenas de Literatura ou Língua Portuguesa. O que está fora destes temas, por não ser de meu interesse direto, é desestimulante para mim, mas não para os jovens que querem ser professor.
Por fim, o motivo mais real de minha decisão pela Faculdade de Letras, foi minha busca por se aproximar da geração de pessoas que hoje está na faixa etária de 18 a 23 anos, eu estou com 59, portanto uma boa diferença de idade, algo em torno de 40 anos, e entender os códigos de linguagem que eles usam e, por consequência, moldam a forma deles pensarem. Eu queria, nessa aproximação, estar melhor preparado para interagir com minhas netas, a mais velha das três, já completou 12 anos.
Confesso que levei um susto ao constatar a defasagem que existe entre eu e esses jovens. Esses 40 anos são absolutamente diferentes do que 6 ou 10 anos. A diferença começa pelo aspecto estético e não quero dizer com isso a forma como eles se vestem, se penteiam, se maquiam…, mas o quanto a aparência, cores, comportamentos que agridem a eles próprios, do meu ponto de vista, soa como algo natural.
Vou tentar me explicar através de um exemplo, fato ocorrido na primeira terça-feira deste mês de maio. Eu cheguei no pátio da faculdade quando a primeira aula se encaminhava ao final e um grupo de colegas de sala de aula estava amontoado numa mesa. O professor havia liberada a formação de grupos para a elaboração de questões em torno do tema “O processo de rotulação na dinâmica argumentativa do texto: Uma análise sociocognitiva”. Um tema complexo, embora acessível ao estudante universitário que já teve um ano de aulas de Linguística, como é o nosso caso. Porém, esse grupo estava com seus celulares e tabletes plugados num evento ao vivo envolvendo uma mulher trans, Malévola, e a ultradireitista Jojô Toddynho. Eu não sabia quem era Malévola, personalidade famosa na Internet da qual todos meus colegas ali, meninas e meninos, sabiam quem era. A Jojô havia sido homofóbica com a Malévola e marcou um encontro para “catar” a Malévola. Mas ela não foi a esse encontro e então a Malévola contratou o comandante Hamilton, esse eu conhecia, pois foi um dos primeiros pilotos de helicópteros a ficar conhecido nos programas jornalísticos da TV, para sobrevoar a casa da Toddynho desafiando ela a aparecer e então se “catarem”. Tudo ao vivo. Um dos tabletes de meus colegas acompanhava a Malévola ao vivo e outro a Toddynho também ao vivo. Duas narrativas, dois ambientes e dupla transmissão simultânea. A unidade desse discurso, isso é uma necessidade minha, não existe. E se existir é um exercício de cada um ali que dividia a atenção entre as duas transmissões e não era oferecida pela realidade das duas transmissões, ou seja, não havia a unidade presente em qualquer produto midiático tradicional. Havia, entre meus colegas, apenas quem torcesse para a Malévola pois de antemão eles são contra a Toddynho por seu posicionamento de extrema direita nas aparições que a tornaram “celebridade”.
Não julgo, mas não consigo deixar de abominar esse interesse por duas “celebridades” do mundo virtual. Eles também não me julgam, isso me parece claro, apenas abominam minha ignorância para com este mundo deles. É uma dupla desconexão a minha para com eles, a do conteúdo, e a tecnológica.
Eu também me senti completamente desconectado quando ouvi um colega dizendo de sua decepção ao ler “Memórias de um Sargento de Milícia”, “O Padre Amaro”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Niketche: Uma História de Poligamia” (todos livros obrigatórios do curso) que, segundo ele, são todos livros de gente falando de gente, de seus problemas, suas malandragens, das coisas da vida e ele prefere livros das coleções “Senhor dos Anéis” e “Harry Potter” que é cheio de fantasia e aventura e combate e ação. E ele concluiu: Se eu quisesse saber das coisas comuns, da vida, eu lia um jornal. Livros devem ter histórias inventadas para a gente viajar e sair da realidade. Mas parece que literatura é um local de debate sobre a exploração dos mais pobres, opressão das mulheres, mazelas da dominação e ficamos, leitores e autores, lamentando. Não há reação. Os fudidos (sic) nunca vencem. Parece que não merecem nada além de serem fudidos. Na fantasia há reviravolta e se não há parece que será possível que tudo mude.
Não há como dizer que eles estão errados e eu certo. A tecnologia do mundo virtual permite a simultaneidade de pontos de vista, algo inalcansável no mundo real onde só é possível um ponto de vista de cada vez. Meus colegas estavam ao mesmo tempo com Malévola e Toddynho e isso é, sim, algo novo. E totalmente diferente para mim.
Quanto à literatura, digo que na idade deles eu já tinha lido sobre a vida de Churchill, Gue Guevara, Alexandre, O Grande e me interessava por Baudelaire, Walter Benjamin, a indústria cultural… As fantasias, como de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilha) e Herman Melville (Moby Dick), só me interessaram quando as estudei nas aulas de Filosofia e alcancei as metáforas ali contidas. Então começaram a chegar a mim autores que me transformaram: Bukowsky, Jack Kerouac, Herman Hesse, Kafka… Não sei dizer se é possível comparar essas obras com Harry Potter e Senhor dos Anéis. Mas desejo que eles, logo, descubram o prazer da literatura contemporânea em especial as que vem sendo produzidas no Brasil, Argentina, Colômbia, Guatemala, Chile onde é grande a efervescência de novas obras. Mas estou em dúvida se isso vai acontecer. Mas sei que se acontecer, vai demorar.
O fato é que os meus três motivos para eu fazer a Faculdade de Letras aos 59 anos estão diluídos e não vejo motivo de levar este projeto adiante. De qualquer modo, só foi possível entender o abismo existente entre minha geração e a desses jovens convivendo com eles, fato do qual sou muito grato por ter ocorrido comigo.


