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Eu olho para minhas filhas, que são mães, e para as mães de minhas filhas e para algumas amigas que são mães e sinto vontade de agradecer cada uma delas pelo que cada uma faz por suas filhas, pois elas estão ajudando na construção de seres humanos de generosidade e empatia e esses dois elementos senão forem capazes de mudar o mundo são capazes de tornar melhor quem está envolvido nele e, só isso, faz uma diferença grande e abre a possibilidade de um cotidiano mais suave. Assim espero e desejo. 

Não me lembro de ter tido essa vontade, de agradecimento, com minha mãe e, menos ainda, de ter lhe dito o quanto ela havia sido boa no seu papel de mãe e isso não vale só para mim, aliás, pouco vale para mim, pois acho que meus dois irmãos e duas irmãs foram muito melhores filhos do que eu fui, estando sempre presentes na vida de minha mãe, seja lhe telefonando todos os dias, passando para vê-la, ficando com ela, mesmo que para não fazer nada.

Eu marcava presença dominical, mas não a acompanhava na missa e nem a levava a lugar algum, coisa que ela fazia sozinha ou com uma amiga, de ônibus pois ela nunca dirigiu, nunca teve carro, e achava um luxo andar de táxi e ela nunca foi dada a luxos.

Tinha um monte de agradecimentos à minha mãe, todo filho tem, pois é a mãe quem aponta o que é preciso fazer e isso, só isso, facilita demais a vida, pois sem isso cada bebê, desde o nascer, teria de inventar a roda. Mas de todo agradecimento que não fiz a minha mãe, pois não tive sensibilidade para perceber tudo que ela havia feito, um gostaria de ter percebido em tempo de ter dito a ela: Seu amor pela leitura. Ela, quando eu tinha 9 anos, participava de um clube de leitura, o nome não era esse, era Grupo de Estudos da Bíblia, com o frei Vicente, um alemão de dois metros de altura, que falava um português cheio de sotaque e não permitia que eu entrasse na sala onde acontecia a reunião, num prédio anexo à Igreja Santa Rita, porque a conversa ali era séria e de adultos.

Hoje eu sei que essa foi uma estratégia do frei Vicente pois aguçou a curiosidade daquele menino de 9 anos, que do lado de fora da porta fechada, tinha toda a atenção voltada para o que era dito dentro. Eu mal me mexia para não fazer barulho e correr o risco de não ouvir o que estava sendo lido e falado. Quando eu já era adulto, minha mãe me pedia livros, na verdade, não era algo genérico ou qualquer livro, ela sabia o que queria, me dava nome e autor e eu nunca lhe agradeci por isso, pois com seus pedidos ela apenas reforçava em mim o que ela havia plantado e que é a qualidade que reconheço em mim hoje, um quase sexagenário, de ser um bom leitor. Não é pouco isso. Aliás, é muito. Mas nunca disse: Obrigado, mãe!

Como nunca disse obrigado por me ensinar a fazer Arroz com Frango e nessa semana eu fiz um igualzinho ao dela, sem nenhuma especiaria sofisticada, apenas com sal, vinagre e folha de louro. Foi um modo de materializar a memória de momentos que vivemos juntos, em especial nos seus últimos anos de vida, quando ela usava a comida para me atrair para perto dela.

Uma pena eu nunca ter dito todos os obrigados que minha mãe merecia ter ouvido de mim. Em agosto próximo, completará 12 anos de sua morte, tão precoce embora ela tivesse 85 anos quando morreu. O fato é que ela vive em meus irmãos e em muito dos seus netos, em especial os que tiveram bem próximo dela. Em mim, espero, que ela também viva embora não esteja certo disso. Estou muito longe de ser a pessoa que minha mãe foi.