A guerra estética e consequentemente ética

A música “Terra” de Caetano Veloso é um divisor de minha história. Eu tinha 17 anos quando a ouvi pela primeira vez, morava em Campinas onde havia me mudado para estudar na faculdade de jornalismo, e me foi apresentada por Carlos Magno (que morreu tão jovem) assim como Stravinsky, Edgar Alan Põe, Franz Kafka, Kandinky, Paul Klee e um mundo que me completou, acalmou e deu sentido.

Dias atrás, uma amiga da vida, amiga do passado e futuro, me contou ter lido uma postagem de um psicanalista cujo o paciente, esquizofrênico, se acalmava ao ouvir  “Terra”. A letra é importante, obviamente, mas a melodia, o ritmo e estrutura da canção é o que me toca.

Me lembro disso tudo ao ver a capa da Veja Rio com os oitentões que tanto amo: Milton Nascimento é um capítulo à parte em minha vida, uma fonte de energia, de que existir faz sentido.  Paulinho da Viola me mostrou que o samba é um requinte sedutor como um fim de tarde vendo o Sol se deitar atrás da montanha. Gil, frenético, numa entrevista coletiva no ginásio do Guarani, onde ele se apresentaria à noite, pegou minha coxa com energia e perante todos me inquiriu: você não acha? Eu fiquei aturdido. Não prestava atenção. Apenas desfrutava estar tão perto de quem eu tanto admirava. Caetano, que veio a Sorocaba pela última vez em 1989 ou 1990, e fui lá eu entrevistá-lo sozinho no camarim do Recreativo, tirei foto dele apenas de cueca, deu liga nossa conversa até que chegou Zé Desidério e Kiko Pagliato para conversarem com ele e me retirei. Daquele dia em diante, toda vez que Caetano se apresentava em Campinas ou São Paulo, eu ia lhe dar um oi e ele mandava eu entrar. Numa dessas topei com Paulo Leminsky que andava atrás de Caetano insistentemente. Caetano tentava evitar. Não sei o que ele quer, disse Caetano. Eu também não sabia naquele momento. Depois vi que queria o impossível, que é ver a obra na pessoa. O artista é uma pessoa “normal” que faz coisas geniais, sua obra. 

E lembrando deles todos e da qualidade do que fizeram me pergunto o que aconteceu com as novas gerações que se distanciaram da qualidade dessa música. No começo da noite de sexta-feira passada, voltando de Itapetininga, no pedágio de Araçoiaba, a moça que cobrava o bilhete ouvia num volume exagerado uma dessas porcarias feitas por Gustavo Lima, Marília Mendonça ou qualquer um que o valha.

O momento que o Brasil vive, essa foi minha conclusão passando o pedágio, é fruto dessa estética. O primeiro golpe é sempre o estético, pois na sua esteira vem o ético. Ambos são indissociáveis. E a prova de que o Brasil perdeu essa guerra não é só a existência de Bolsonaro (e seu Ryder, calça de ginástica e pote de margarina…), mas a força do agronegócio que aniquila o meio ambiente (e patrocina essa música), a maioria de jovens corrompidos esteticamente (pelo sertanejo universitário) e o cansaço (de tudo) da minha geração.

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