A vida reduzida numa dúzia de citações

Quando vi na prateleira o livro com a história do Jornal da Tarde (“Uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira”, de Ferdinando Casagrande) me deu uma nostalgia de um tempo que não existe mais.

Meu primeiro impulso foi: O que fala de Ulysses Alves de Souza? 

Assim como outras publicações do gênero, esta também tem um índice remissivo e com os nomes de seus personagens citados nas páginas onde eles aparecem. E meu deu orgulho danado em ver o Ulysses em quase uma dúzia de citações. 

Fui em uma a uma.

Na primeira, seu apelido, Uru. Em outra, secretário de redação. Numa a mais, sargentão; exímio treinador de focas (jovem que está entrando na profissão); parceiro que decidiu se demitir quando o chefe (no caso Mino Carta) foi tirado do comando do jornal…

Ulysses, por esses acasos da vida, aterrissou em Sorocaba. Sim, este é o termo, pois como o seu apelido, ele era um pássaro raro que soube voar como poucos. Ele veio dirigir a redação do extinto jornal Cruzeiro do Sul (o que existe hoje, infelizmente, o centenário matutino, não passa de uma caricatura do grande jornal que já foi).

Ulysses era amigo de Luthero Maynard (hoje octogenário e bastante ativo no Facebook) cujo a esposa é irmã da então esposa (hoje viúva) do então presidente da fundação mantenedora do jornal. O presidente queria um novo editor e comentou com a esposa que comentou com a irmã que comentou com o marido que indicou o amigo… e aqui Ulysses chegou. 

Era um espírito livre, um sujeito além do seu tempo e lugar. Chegou aqui quando tinha 62 anos de idade. Ele ficou impressionado com a ignorância que encontrou. Ninguém fazia ideia de quem ele era e do que havia feito. Sua contribuição para a cultura do jornal impresso e pela busca constante pela qualidade de um texto são feitos raros.

Eu tive sorte, não consigo pensar em outro fator, de ser a pessoa na redação a recepcioná-lo e a ajudar a traduzir a maçonaria, o sorocabano e seus dirigentes, pois conhecer a localidade são elementos essenciais para se fazer um jornal.

Dono de um humor refinado, Ulysses não escondia as dores das consequências de suas decisões e ações ao longo de sua vida pessoal e profissional.  Ver o gigante Ulysses resumido à dúzia de citações de um livro, citações incapazes de ao menos ser o indício de quem ele foi, me soaram ingratas e ofensivas. Ulysses merecia uma biografia só dele para que as novas gerações soubessem mais sobre a sua contribuição na construção da identidade de um profissional hoje em extinção: o jornalista.

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