É preciso reflexão e empatia

Perdi a paciência com um negacionista, num dos grupos do qual faço parte, quando ele expôs um diálogo que teve com uma terceira pessoa em comum a nós dois, pedindo que essa pessoa não lhe enviasse mais mensagens com o teor que estava mandando, relacionada ao governador do Estado de São Paulo. E o argumento dele para estar brigado com o governo tucano, do qual ele sempre foi aliado até se descobrir completamente identificado com Bolsonaro, é de que sofreu muito prejuízo.

Estava implícito que ele falava de prejuízo financeiro.

Nesse mais de um ano de pandemia, muita gente tem lutado (até desenhado) para mostrar que o caminho escolhido por Bolsonaro para combater o coronavírus, caso tivesse dado certo, teria sido genial. Mas não deu. Seguir negando a Ciência é inadmissível. A lição de casa hoje é a mesma de um ano atrás: identificar os doentes e isolá-los (para isso deve haver testagem em massa), vacinar em massa a população (o exemplo da experiência da cidade de Serrana comprova isso), evitar aglomeração (fechamento, portanto, de onde se forma multidão, mesmo que pequena), uso contínuo de máscara e álcool em gel.

Enfim, perdi a paciência, como dizia, escrevendo-lhe esta pequena mensagem: Se nem as 4200 mortes de hoje no Brasil, se nem o fato de 1% delas terem sido em Sorocaba, faz você pensar em algo que não seja seu “prejuízo”, o que fará? Você não consegue um mínimo de empatia pela dor dos outros? Já foi desenhado aqui onde e em que o Bolsonaro errou. O que você quer, de verdade, para não ter mais prejuízo? Qual a sua crença religiosa? Culpar o Dória pela vacina e fechamentos é não enxergar o seu irmão. Há outros motivos para dizer que o governador é imbecil: aumentar impostos, não saber ser gestor, ser falso… Mas prejuízo? Com exceção de planos de saúde e laboratórios todos os demais setores estão sendo sacrificados. Há algo mais importante do que prejuízo financeiro.

Ele me respondeu assim:

Deda não sei onde você quer chegar. Sou religioso sim e não comunista. Está provado que quanto mais fazem fechamento mais aumentam os casos de coronavírus, e esse governo paulista só faz isso. Por que não fez hospitais com o recurso que o governo federal remeteu para São Paulo? Prefiro não ter prejuízos pois assim posso ajudar as entidades e as pessoas que por alguma necessidade em algum momento precise de recursos (…). Não sou um grande empresário, mas pago muitos impostos e também emprego até um número bom de pessoas e os comunas o que fazem? Nada.

Paramos a conversa. Evidentemente ficou um clima ruim no grupo.

Entendo que essa rusga é didática na medida em que ela explica o pensamento de pessoas em diferentes posições na sociedade e o modo de cada uma se indignar, se comportar e enxergar o outro e a si próprio neste momento.

Eu tenho minha conclusão, mas é minha. O importante é que você, que leu este texto até aqui, tire as suas e, se possível, compartilhe. Entendo que apenas o diálogo, por mais dolorido que possa ser, é o caminho para que em breve, quem sabe, exista um sentimento de acolhimento, e não de distanciamento, entre nós.

CHARGE – A charge que ilustra essa publicação saiu na revista inglesa The Economist, considerada a publicação sobre economia mais influente do mundo. Ela ilustra uma matéria em que o presidente Jair Bolsonaro é retratado como ignorante e arrogante.

A charge mostra caveiras que lembram a representação do coronavírus sob o seguinte diálogo: “Engana-se quem pensa que a resposta de Bolsonaro à pandemia no Brasil foi de um cabeça oca”, enquanto uma terceira caveira enche a cabeça de Bolsonaro com “ignorância”, “arrogância” e “teimosia”. O desenho é assinado pelo cartunista Kevin Kallaugher, conhecido como KAL. A revista, também considerada a bíblia do Liberais, já havia dito em análise recente que a má gestão do combate ao coronavírus no Brasil é uma ameaça ao mundo.

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