E se eu tivesse uma arma 

Um trabalho em São Luís do Maranhão me tirou da rotina de academia e hidroginástica na ACM, mas não do hábito diário de fazer exercícios. 

Eu chegava cansado no hotel e não raro dormia às 19h, 20h. Com isso, no máximo às 5h já estava acordado. Em São Luís o Sol nasce 6h03, mas 5h30 a alvorada anuncia o dia. Então, por uma hora, desde 5h45 eu andava descalço na areia. No primeiro dia fui à direita e um amigo, local, me chamou de louco. Disse que a região é um perigo, pois há assaltos e outros crimes. Nos dias seguintes, fui à esquerda. Uma vez andei absolutamente sozinho, fui e voltei sem me encontrar com ninguém. Nos outros dias encontrei outras pessoas, todas caminhando em duplas ou trios. Nunca sozinhas. 

Terminado o trabalho, o avião de volta me deixou às 22h em Viracopos em Campinas. A Azul desativou o ônibus para Sorocaba, o táxi cobrava o absurdo de 400,00 e usei o aplicativo 99. Um, dois, três motoristas cancelaram a viagem até que um aceitou. Entrei e ele perguntou quanto estava dando (não sabia que o motorista não tinha essa informação). Eu disse 155,00 e antes que ele desistisse eu lhe falei: te dou uma gorjeta. Ele topou, mas pediu pra eu cancelar a viagem pelo aplicativo e fosse no particular. Eu havia feito o check-out há dez horas, cansado, imprudente, topei. Vim atento ao motorista, que escutava uma pregação e hinos evangélicos no seu rádio, e ele a mim. Eu tive medo dele desviar o carro do trajeto, que é uma linha reta, e ele deu atacá-lo. 

Foi só tensão.

Na caminhada na praia, corria riscos de ser atacado. Na viagem de 99, o mesmo. Então me ocorreu: E se eu tivesse uma arma! 

Antes mesmo que me encantasse com essa ideia imbecil e idiota, já havia desistido dela. Entre os motivos: Não sou assassino. Ter uma arma é admitir tirar a vida de alguém. É achar possível ser assim.

Na praia ou no 99, o medo era só meu e causado pelas circunstâncias da cultura do medo na qual estamos mergulhados. Idealizar que um revólver me protegeria, não passa de idealização corroborada pela propaganda massiva da retórica do presidente. Alguém sem capacidade de entender o estrangeiro que habita cada um de nós se rende e repete como um papagaio a retórica do discurso dominante.  Essa cultura do medo explica a explosão no número de clubes de tiro e de bibliotecas fechadas nos últimos três anos no Brasil. Explica a cultura da insegurança que gera ansiedade, que gera infelicidade e que gera consumo seja de remédios, de drogas ilícitas, de bebidas alcoólicas, de excesso de comida, de um vestido novo, de uma camiseta ou tênis da moda…enfim, de um consumo desenfreado do que não é necessidade.

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