Fichamento n°12

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Murilo é um jovem de 28 anos que mora sozinho e  trabalha como tradutor. No momento ele se dedica a trazer aos leitores de Língua Portuguesa um clássico da literatura russa, Gustav Traub, tema de seu doutorado (Nunca existiu este autor, é parre da ficção da história). Murilo é neto de russo e foi seu avô quem lhe ensinou o idioma. Ele tem uma irmã, sobrinha, cunhado e a mãe que mora numa fazenda em Diamantina-MG, herdada. Ele convive com seu primo (que vive de aplicações financeiras) semanalmente onde frequentam o Jóquei Club do Rio de Janeiro e fazem apostas nos páreos.

Murilo não tem carro (pode ser que tenha, mas o leitor fica sem saber disso), não se sabe se usa transporte público ou de aplicativos. A vida de Murilo é feita a pé pelo Leblon, Leme, Laranjeiras, Copacabana. A Zona Sul mais famosa da América Latina é o seu universo. Ele frequenta festas chiques com comida e bebida à vontade, em algum apartamento de alto padrão. 

Murilo tem uma vida boa, mas nunca deixa de reclamar do calor. O leitor sabe disso pelas frequentes vezes em que Murilo fica feliz quando há uma brisa ou um vento refrescante.

Murilo tem uma namorada que se mudou à Espanha e que parece satisfeita em não conviver mais com ele. Ele transa com uma morena de beleza estonteante que é lésbica, mas queria experimentar um homem. Ele descobre interesse por uma jovem, recém-casada com seu amigo, que havia sido apaixonada por ele há uma década quando eram adolescentes. 

Relatado assim, “Triz” de Pedro Süssekind parece apenas um romance sobre este icônico personagem brasileiro chamado de carioca. Um ser popularizado pela televisão como “Dancing Days” nos anos 70 ou qualquer outra da série de novelas de Manoel Carlos. O livro é um pouco mais do que as novelas. É um romance que expõe as dores das escolhas juvenis e sua ilusória tentativa de reverter as consequências dessas escolhas. A possibilidade de se pensar na passagem do tempo como um portal dá um senso filosófico à narrativa. A fidelidade, outro ponto característico de estereótipo chamado carioca, é outro ponto do livro e aparece como dúvida: Se trata de compromisso consigo e seus sentimentos ou com o fato de honrar a amizade, respeitando-a? 

Um outro mérito do livro é emaranhar o hábito das apostas nos páreos do Jóquei com o vício dos jogadores, tema habitual na literatura russa (lembrando que a personagem é tradutor de um romancista que aborda este tema).

“Triz” é um livro fininho, de leitura rápida e que ajuda na construção dessa temática de família da literatura nacional. O viés filosófico presente na história depende mais do leitor do que do romance em si. Gostei de ler. Recomendo. “Triz” foi editado pelo Editora 34″ há treze anos, mas manteve o vigor com a passagem desses anos.

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