O método de Bolsonaro

John Reed, na exemplar reportagem que se transformou no clássico livro “Os dez dias que abalaram o mundo”, narra que a sociedade soviética vivia em sua normalidade com as pessoas trabalhando, o teatro, ópera e balé com apresentações a todo vapor, o comércio e indústria funcionando… ou seja, nada indicava o que estava por vir.

Os bolcheviques, conta Reed, eram vistos como fanáticos religiosos da política, ou seja, um grupo minoritário que não merecia atenção e nem significava ameaça ao sistema. O que se viu foi justamente o contrário, eles ganharam o poder a fizeram a grande revolução proletária que custou mais vidas humanas do que qualquer episódio, incluindo a 2º Guerra Mundial.

Os dez dias que abalaram foi o tempo necessário para que os revolucionários fizessem algo.

Me lembrei disso tudo no feriado do dia 7, e fui reler o primeiro capítulo do livro, onde o autor localiza o leitor sobre o ambiente dos acontecimentos daquela época, pois é impressionante a similaridade da expectativa criada em torno do que os bolsonaristas (também vistos como fanáticos religiosos na política) poderiam fazer. Afinal, Bolsonaro nunca governou (a prova é a gasolina a R$ 7, o dólar a R$ 6, o gás a R$ 110, o quilo da carne de segunda a R$ 50…; é a desastrosa forma de não lidar com a pandemia causando a morte de 580 mil brasileiros) mas usa do seu cargo para “fazer a revolução” e se você duvida disso, leia o que estava estampado na camiseta de seu filho ontem na avenida Paulista: Viemos para mudar o Brasil. Mudar algo à força é o espírito de uma revolução, seja ela de esquerda ou de direita.

A narrativa de Bolsonaro, no palanque da avenida Paulista, não deixou margem à dúvida de que ele se sente um revolucionário quando afirmou se dirigindo a Alexandre de Moares, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal): o ministro Alexandre teve todas as chances de nos tratar bem, mas preferiu… É uma sandice sem tamanho o sentimento de Bolsonaro expresso nessa frase, pois ele culpa o ministro de tratar bem a Constituição, fazendo cumprir o que está nela cravado, ao invés de agradar ele seus séquitos. Como se ele fosse maior do que a Constituição.

Suspeito que neste dia 8 de setembro, você, caro leitor, ainda tenha apreensão do que ainda poderá acontecer, afinal, como frisou John Reed, a sociedade estava em sua normalidade, alheia a qualquer movimento que mudaria o rumo da história.

O que me faz crer que seguiremos a normalidade de cumprir a regra jurídica seja o fato de ser esmagadora a parcela de brasileiros que deseja Jair Bolsonaro fora do Planalto o que pode ser aferido por diversas as pesquisas demonstrando a desaprovação da maioria ao governo que ela vê como responsável pelo aumento do número de pessoas que estão vivendo com fome, pela volta da inflação (derrubada do poder de compra de casa cidadão), pelo crescente desemprego, pela má gestão pandemia.

O que me faz crer que seguiremos a normalidade de cumprir a regra jurídica é que o bolsonarismo está baseado em 20% de lunáticos (que outro nome dar aos seus séquitos?) que estão incondicionalmente apoiando Jair em “sua” revolução. Ele já havia tentado isso quando capitão do exército e foi expulso.

O 7 de setembro está bem vivo em nós e é longa a corrida até que haja um desfecho nas urnas. Enquanto escrevo essa coluna aqui em Sorocaba, em Brasília o presidente da Câmara, Arthur Lira, se posiciona sobre a abertura de um processo de impeachment de Bolsonaro: É hora de dar fim a esse eterno palanque.

Há quem defenda derrubar e prender Bolsonaro dando ao vice, General Mourão, a presidência até a eleição de 2022; há quem defenda cassar a chapa que ele e Mourão foram eleitos; há quem defenda ter paciência com Bolsonaro e deixa-lo ser humilhado nas urnas.

E você, defende o que neste momento?

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