Padre recebe Bolsonaro no mesmo dia da comenda Alexandre Vannucchi

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O padre Flávio Jorge Miguel Júnior, diretor-presidente do Conselho de Administração da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, foi homenageado com duas comendas pela Câmara Municipal de Sorocaba: a Comenda Referencial de Ética e Cidadania, por iniciativa do vereador Engenheiro Martinez (PSDB), e a Comenda “Alexandre Vannucchi Leme” de Direitos Humanos e Defesa da Liberdade e da Democracia, por iniciativa do vereador Fausto Peres (Podemos). As honrarias lhe foram entregues em sessão solene presidida por Martinez e realizada no plenário da Casa na noite de quinta-feira, 20.

O curioso é que na tarde dessa festa, ocorrida à noite, o padre recebeu em sua casa a visita de Eduardo Bolsonaro que tem percorrido as cidades do Brasil fazendo campanha para o pai, o presidenciável Jair Bolsonaro, que segue internado após ter sido vítima de uma facada que quase lhe tirou a vida, duas semanas atrás.

Ironia do destino os dois fatos na mesma data. Alexandre Vannucchi Leme nasceu em Sorocaba e foi morto pela Ditadura Militar em 1973, a mesma Ditadura Militar enaltecida por Jair Bolsonaro. Quem não se lembra da fala dele quando do impeachment de Dilma? Na oportunidade cada parlamentar dizia uma frase para justificar o seu voto pela cassação de Dilma e Bolsonaro quis homenagear Carlos Brilhante Ustra, o único brasileiro declarado pela Justiça torturador na ditadura que ajudou a institucionalizar a prática no Brasil.

Quem foi Alexandre

Alexandre Vannucchi Leme, nascido em Sorocaba em 5 de outubro de 1950, havia sido preso pela Operação Bandeirantes pela sua participação ativa no grupo armado Ação Libertadora Nacional (ALN), que combatia a ditadura militar de então. De acordo com documentos da Comissão da Verdade, Alexandre foi visto pela última vez na USP, em 15 de março de 1973, quando assistia às aulas. Foi preso pelos agentes do DOI-CODI/SP em 16 de março de 1973, por volta das 11 horas. A morte de Alexandre foi justificada pelos torturadores, diante da acusação dos demais presos políticos, como tendo sido provocada por suicídio com auxílio de uma lâmina de barbear. Tal versão foi desmentida nos depoimentos prestados na 1ª Auditoria Militar, em julho de 1973, por outros presos políticos.Em 23 de março de 1973, quando os órgãos de segurança divulgaram sua morte, a versão apresentada era a de que Alexandre fora atropelado ao tentar fugir da prisão na rua Bresser, em São Paulo, quando era levado ao Hospital das Clínicas. conforme as notícias publicadas nos jornais A Gazeta e Jornal da Tarde.

Voto em homenagem a torturador

O deputado federal Jair Bolsonaro, ao votar pelo encaminhamento do impeachment da presidenta Dilma Rousseff para o Senado, dedicou seu posicionamento aos “militares de 64”. O parlamentar citou ainda o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna  (DOI-Codi), responsável por torturas durante o período da ditadura civil-militar (1964-1985). Sua atitude gerou revolta, indignação e deu início a trajetória que hoje lhe coloca como líder em todas as pesquisas na corrida eleitoral do mês que vem.

Padre poderia se poupar

Um leitor deste blog, que pede anonimato, não escondeu sua decepção com a atitude do padre Flávio: Veja que curiosidade. Justo hoje que ele foi homenageado com a comenda Alexandre Vanucci de Direitos Humanos, ele recebe um Bolsonaro? O padre Flávio poderia se poupar. E preservar-se disso. É muito delicada essa realidade, mas alguém tem que falar isso ao padre. Ele até pode receber o título, mas no mesmo dia receber aqueles que negam que houve a ditadura! Que tempos estranhos! O padre, o missionário e os reacionários.

Padre diz se espelhar em Jesus

Enviei ao padre Flávio a foto acima, postada em rede social por partidários de Bolsonaro em Sorocaba. Nela estão o padre, Eduardo Bolsonaro e outros membros de seu partido, além do vereador Rodrigo Manga, presidente da Câmara, que articulou a ida de Bolsonaro até o padre.

Perguntei ao padre se ele estava levando muita bordoada por ter recebido o Bolsonaro e ele disse: “Não, suave”.

E justificou: “Não serei arbitrário e intolerante com ninguém. Como Jesus acolho com amor! O que você nunca ouvirá será eu falando: vote neste ou naquele”.

Na homenagem, fala de fraquezas humanas

Na solenidade da Câmara, quando recebeu as duas comendas, ao agradecer as homenagens recebidas, o Padre Flávio afirmou: “O país, a igreja e todas as instituições que se encontram em crise, inclusive a instituição familiar, já passaram ao longo da história por momentos difíceis, mas todas as crises foram passageiras”. E acrescentou: “O pessimismo é bom para derrubar o excesso de otimismo. Toda família, igreja, empresa, estado, sempre deve ter um pessimista, mas apenas um. O pessimista nos coloca com o pé no chão, mas não faz nada para resolver o problema. A sociedade para existir precisa ser otimista e para continuar existindo precisa também do pessimista”.

Padre Flávio também fez um chamamento à responsabilidade individual: “Na cultura atual, as pessoas tendem a fugir de suas responsabilidades, como se não fizessem parte do problema. É o que se observa em frases hoje tão presentes: ‘brasileiro não sabe votar’ ou ‘brasileiro é atrasado’. Há nesse caso duas hipóteses: ou não sou brasileiro ou não sei votar. As coisas começam a mudar, quando começamos a dizer ‘eu’, quando as pessoas, num comportamento ético, passam a entender que também fazem parte do problema”.

Para Padre Flávio, “ninguém pode se considerar vacinado contra as fraquezas humanas” e defendeu a mudança de comportamento de cada um: “A verdade sobre nós mesmos é a grande questão que devemos ter coragem de levantar. Com certeza, esse é o grande drama do Brasil: nesses 30 anos da nossa Constituição, falou-se, e ainda se fala muito, dos direitos, mas pouca ênfase é dada aos deveres do cidadão. O desequilíbrio num desses pontos coloca em risco a harmonia social”.

Padre Flávio disse, ainda, que não tem formação como gestor hospitalar, uma vez que sempre atuou como professor, e considera que seu trabalho à frente da Santa Casa é uma missão divina. E pedindo a seus pais, presentes à solenidade, que ficassem de pé, afirmou: “Aprendi direitos humanos com meus pais. É com a família, a primeira escola, que a gente aprende a respeitar o próximo”. E lembrou que seus pais sempre acolheram todas as pessoas, sem discriminar ninguém. Por fim, sempre acompanhado pelo violão de Nenê Barbosa, Padre Flávio concluiu: “Não nos esqueçamos que somos também cidadãos do Céu e tal cidadania recebemos no batismo, chamados a construir a civilização do amor”.

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