Passeando pela cabeça de um bolsonarista

Há um ano o pedreiro que contratei terminou de fazer dois muros no quintal de casa, um fazendo divisa com um vizinho e outro muro com a casa do outro vizinho. Agora vejo os pisos estufados numa parte, trincados em outra e o muro sobrecarregado com a água das chuvas que começam a voltar.

Depois de passar raiva e pensar em processar o pedreiro, resolvi antes cuidar do problema, ou seja, contratei outro pedreiro. Ele quebrou todo piso e contrapiso e o entulho empilhou dentro de uma dessas caçambas apropriadas. Para ele dar seqüência no trabalho, comprei meia tonelada de cimento, 2 metros de pedrisco e 3 metros de areia grossa. E esse material chegou hoje cedo. Logo 8h a funcionária da portaria do condomínio onde moro avisou da chegada do caminhão da empresa que comprei esses três itens.

Depois de manobrar de um lado para o outro na rua, o motorista conseguiu colocar o caminhão num ângulo possível da pedra e areia caírem da caçamba. Estacionado, o ajudante do motorista descarregou os dez sacos de 50kg cada um.

Quando achei que eles iriam embora, o ajudante me perguntou há quanto tempo eu morava na minha casa. Eu disse e ele veio com outra pergunta: Fulana mora aqui? Eu disse que sim. Ele perguntou então: mas ela é do PT… O mas usado por ele e a reticências de sua afirmação esperavam um complemento meu à sua afirmação. E eu dei seqüência com uma pergunta: O que o fato dela ser do PT e morar aqui tem em comum? E ele disse: Ah, o senhor sabe, o PT roubou tudo. Eu, firme, fui direto ao ponto que ele queria, e estava claro que não era discutir o PT de quem ele tem ódio, e disse: o senhor está me dizendo que prefere o Bolsonaro, gasolina a R$ 6,20 o litro, a energia elétrica com o preço nas alturas, a carne de boi impagável? Aquele homem, carregando um saco de 50kg após o outro, me disse: Cada um tem um gosto. Eu, já sem paciência, repeti: o senhor gosta então de pagar tudo caro, entendi. E ele, firme, me disse: Mas a culpa não é do nosso (sic) presidente. Eu repliquei, com uma ironia que ele não percebeu: Não, claro. A culpa é do Michel Temer, da Dilma, do Lula, do FHC, do Sarney… O Jair é um coitado. O que ele me devolveu: isso mesmo, os caras lá de Brasília não deixam o nosso (sic) presidente trabalhar. Deixa ele trabalhar pra ver como coloca em ordem isso aqui. Eu já aos berros ainda disse: pára com isso… ele teve as mesmas condições de todos os outros. Não fez porque não tem competência. Ele, calmo, me devolveu: cada um tem um gosto!

O motorista, que só acompanhou esse diálogo sem dizer nada, vendo que ele havia descarregado todos os 500kg de cimento, falou: vamô embora, você já acabou aqui. Falta ele assinar, pega a caneta no quebra-sol. O ajudante na cabine do caminhão não achava a caneta e o motorista insistiu: tá no quebra-sol. E nada dele achar. Aí o motorista foi orientando ele: ali em cima, no outro, abaixa… e o ajudante falou: ah, isso aqui é que é quebra-sol!

PS – a foto é ilustrativa, ou seja, não corresponde ao sujeito da história aqui narrada.

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