Prefeito sabe citar na ponta da língua, e não se cansa de falar detalhes, do rombo financeiro que encontrou na prefeitura quando assumiu, mas precisou de “cola” do seu assessor para citar o que seu governo já fez nos seus 73 dias de mandato

CrespoColinha

No rodízio que faz semanalmente nas entrevistas que concede às emissoras de rádio de Sorocaba, o prefeito Crespo esteve na manhã de hoje no Jornal da Ipanema (FM 91,1Mhz). Após o tradicional bom dia e sejam bem-vindo, Paulo Roberto Júnior, que ancorava o noticiário naquele momento, abriu a entrevista com a pergunta mais simples que poderia haver: prefeito, que avaliação o senhor faz do seu governo até agora?

Aqui vale abrir parênteses e falar sobre o poder de uma pergunta simples. O seu grande mérito é deixar em aberto ao entrevistado o tom que ele deseja dar para a conversa. Revela, portanto, o que o entrevistado (no caso o prefeito) deseja que seu público identifique nele, ou seja, a sua marca. E essa marca pode ser verdadeira, ou seja, corresponder diretamente com os fatos a ela relacionados, ou apenas um desejo de que o que o prefeito diz ao longo do tempo se transforme em fatos. Ou seja, a imagem é construída cotidianamente, meticulosamente pensada, estrategicamente comunicada. Esse mecanismo acontece independentemente da vontade do entrevistado (no geral um homem público eleito pelo voto ou que ocupa cargo de importância na vida da sociedade). Se ele controla esse processo, cria (sim, cria) e molda (sim, modela) o modo como a sociedade o compreende. O exemplo positivo do momento é João Dória que controla os processos que fazem parcela expressiva da sociedade identificarem nele a inovação, modernidade e qualquer outro adjetivo positivo de um homem na vida pública. Um dos exemplos negativos do momento é Lula, que sem o controle dos processos de difusão não consegue impedir adjetivos que fazem parcela expressiva da sociedade olharem a ele e identificarem-no como o que há de mais nefasto na vida pública brasileira.

Fechados os parênteses, volto à entrevista de Crespo e o que ele escolheu para responder a pergunta de Paulo Roberto Júnior: estamos trabalhando, fazendo muita coisa, apesar do rombo financeiro que encontrei na prefeitura, do descontrole de gastos, dos desmandos, dos crimes de responsabilidade e desfiou o mesmo rosário de críticas ao rombo de R$ 281 milhões que ele encontrou na prefeitura. Tinha na ponta da língua dados por secretaria, valores, empenhos não deixados para pagamentos de hospitais. Mais uma vez deixou evidente a mensagem: olhem como sei tudo que entendo que encontrei de errado na prefeitura. Parece dizer, atenção ouvintes, está uma droga as finanças por isso sou obrigado a subir o preço da passagem de ônibus, sou obrigado a não dar aumento de salário a funcionário, sou obrigado a ser mau. Tudo isso por culpa do Pannunzio e toca ele “elogiar” a pessoa de quem ele foi parceiro durante décadas.

Nesse momento não aguentei, subi o tom, ele rebateu num tom mais alto e por fim conseguimos recolocar a entrevista num patamar de civilidade de maneira. O papel do jornalista é justamente o de colocar (ou ao menos tentar) os fatos junto ao discurso. E quis saber do prefeito que “muita coisa ele fez”, como afirmou, se está tudo tão ruim, como ele repetidamente vem afirmando desde que tomou posse. Para isso, deixando claro que se sabe na ponta da língua dos problemas, mas não sabe das ações, o prefeito precisou ser socorrido pelo secretário de Comunicações Eloy de Oliveira, que o acompanhava dentro do estúdio, e recebeu uma lista que passou a elencar e a seguir reproduzo:

– Reforma da Policlínica

– Retorno atendimento adulto e infantil UPH Zona Norte

– Ampliação horário atendimento UBS

– Anúncio reforma 14 unidades de saúde

– Mutirão especialidades policlínica

– Recuperação asfáltica Parque São Bento II

– Bolsas para residências em saúde

– Ampliação equipes de tapa buracos

– Ampliação equipes de zeladoria e roçagem de áreas públicas

– Recuperação estradas rurais

– Iniciadas obras da “Casa do Turista”

– Retomadas obras do piscinão da Washington Luiz

– Operação “Cidade Bonita”

– Revitalização da Zona Azul na área central

– Financiamento para a maior ETE da cidade

– “Fale com o prefeito” todas as sextas-feiras

– Ampliação abastecimento de Água no Jardim Maria dos Prazeres

– Repasse de verbas para a Coreso

– TAC para liberação de chaves dos residenciais Carandá e Altos do Ipanema

– Ampliação de serviços na Casa do Cidadão

– 1.040 vagas para novos cursos na Uniten

– Arrastão Cultural

– Repasse de verbas para entidades sociais

– Descentralização e ampliação do Cerem

– Operação “Centro Legal”, de segurança

– Contato para futuras parcerias com China e Coréia do Sul

– Fundo Social de Solidariedade atuante

– Criação da Associação de Transgêneros de Sorocaba

– Arrastão e fiscalização da merenda escolar

Portanto, não que os problemas financeiros não sejam graves (sendo responsabilidade do prefeito anterior ou da péssima situação econômica e financeira do Brasil), mas o fato é que Crespo (e todos os outros candidatos a prefeito de Sorocaba que ficaram pelo caminho ao longo da eleição) sabia de que não teria vida fácil. Entre as 5 possibilidades, o sorocabano escolheu Crespo para assumir o comando. E caberá à imprensa sempre lembrá-lo disso contradizendo-o, associando fatos ao seu discurso, mostrando-lhe um lado diferente do que está expondo. Mesmo que isso eleve os ânimos por alguns momentos. Mesmo que insista no caos, os fatos demonstram que não é bem assim e a Prefeitura de Sorocaba consegue devolver em serviços ao cidadão pelos impostos que ele paga religiosamente.

FOTO: Momento em que o prefeito recebe das mãos de Eloy a lista do que a prefeitura fez nos 73 primeiros dias de mandato

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