Promotor sorocabano acusado de censurar edição do Cruzeiro do Sul é alvo de investigação da Corregedoria do Ministério Público em processo que corre em segredo de justiça

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Farto Neto e a manchete do jornal que o Sindicato dos Jornalistas afirma que ele ditou para ser publicada na edição do dia seguinte ao da greve geral

A Corregedoria do Ministério Público do Estado de São Paulo está investigando o promotor de Justiça da Vara da Infância e Juventude de Sorocaba, Antônio Domingues Farto Neto, acusado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo de censurar e editar a manchete da edição do jornal Cruzeiro do Sul um dia após ocorrer a greve geral convocada pelas centrais sindicais em todo o país em 28 de abril.

Embora tenha agido na condição de membro do Conselho Consultivo da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), entidade mantenedora do Cruzeiro do Sul, a denúncia feita pelo Sindicato dos Jornalistas não faz essa diferenciação e ainda afirma que ele agrediu verbalmente os profissionais da casa, afirmando que o êxito da greve geral era responsabilidade da cobertura que o Cruzeiro do Sul vinha fazendo.

A acusação ainda afirma que Farto Neto precisava “limpar o desserviço feito” e criar uma “agenda positiva”, valorizando o trabalho da Polícia Militar de São Paulo e da Guarda Civil Municipal de Sorocaba. A decisão tomada, então, foi de que Farto Neto definiria as fontes a serem entrevistadas e a manchete do dia seguinte, que ficou sendo “Paralisação prejudica o trabalhador sorocabano”.

Processo em segredo de justiça

Tenho a confirmação de que investigação contra o promotor Farto Neto, pela Corregedoria do MP, está em segredo de justiça. Essa é uma prática, prevista em lei, onde a situação em que se mantém sob sigilo processos judiciais ou investigações policiais que geralmente são públicos e o segredo ocorre quando há risco de expor informações privadas do réu ou do investigado e quando o processo contêm documentos sigilosos, como escutas telefônicas e extratos bancários.

Portanto, não se sabe o objeto da Corregedoria, mas as hipóteses são: ele agiu como promotor ou como diretor? Ele exerceu assédio moral contra os jornalistas ou não? Ele censurou o apurado pelos jornalistas ou não? O que o promotor fez, não na condição de promotor, mas de diretor, fere a ética do MP? Enfim, apenas quando o processo deixar de ser segredo (ou alguém com acesso vazar) é que se saberá o teor da investigação. Mas é fato que a Corregedoria do MP investiga o promotor sorocabano.

O que diz Farto Neto

Quando do ocorrido, e da minha manifestação na coluna O Deda Questão no Jornal Ipanema (FM 91.1Mhz) e neste blog, Farto Neto me disse que “deliberações estratégicas de Conselho Superior ou de Conselho de Administração de qualquer empresa séria, como é o caso de nosso centenário jornal, não podem nem devem ser discutidas fora do âmbito interno”.

Hoje, quando informei que faria a postagem sobre o processo que ele enfrenta na Corregedoria do MP, ele me agradeceu por lhe dar a oportunidade de falar, mas que irá se “manifestar após a conclusão da Corregedoria do MP”.

O que diz o presidente da FUA

Nota oficial do sindicato dos Jornalistas, deixa evidente que o atual presidente do jornal, José Augusto Marinho Mauad, o Gugo, não compactua com a interferência de Farto Neto na edição referida do Cruzeiro do Sul e que se tratou de fato isolado e de responsabilidade de Farto Neto e dos diretores que o acompanhavam naquele dia: Segundo informaram os jornalistas (ao Sindicato dos Jornalista), o presidente José Augusto afirmou que a ação praticada destoa dos princípios defendidos pela diretoria da FUA, mantenedora do jornal Cruzeiro do Sul, e consistiu num “fato excepcional”. Garantiu que isso não mais se repetirá e afirmou que compreende a sensação da equipe. Gugo afirmou também que o assunto será tratado na esfera administrativa e com base no que dispõe o estatuto que rege a Fundação. O presidente orientou a todos para que trabalhem “de cabeça erguida”, acreditando que não serão mais alvo de investidas como a praticada no dia da Greve Geral.

O que dizem os jornalistas

Leia a íntegra do Manifesto de Repúdio que os jornalistas do Cruzeiro do Sul entregaram à diretoria do jornal:

“A Redação do jornal Cruzeiro do Sul lamenta os fatos ocorridos no dia 28 de abril de 2017, quando pessoas nitidamente comprometidas com uma visão unilateral dos acontecimentos intervieram nos trabalhos deste setor, de forma prepotente e truculenta, manipulando a edição e prejudicando a imparcialidade que é uma premissa fundamental do bom jornalismo, num claro exemplo de assédio moral em uma instituição que prima pela legalidade. Ações como essa, assim como qualquer atitude no sentido de colocar o jornal a serviço de partidos, grupos de interesse ou ideologias, são um atentado contra a liberdade de imprensa e o direito dos leitores de serem informados com profissionalismo e isenção. Mais que isso, representam um retrocesso abominável nos esforços para conquistar a confiança dos leitores, indispensável para a sobrevivência deste órgão de imprensa.

Assim sendo, a Redação do jornal Cruzeiro do Sul reafirma seu apoio à linha de independência editorial, coerentemente defendida pelo Conselho de Administração da Fundação Ubaldino do Amaral, na pessoa de seu presidente José Augusto Marinho Mauad, e repudia com veemência qualquer tentativa de apropriação político-ideológica do Jornalismo desta casa.

Reiteramos nosso compromisso com a informação responsável, plural, ética e isenta, condicionada apenas ao interesse coletivo e subordinada, unicamente, ao bom senso e à ética que devem permear o relacionamento com os leitores. A credibilidade é o maior patrimônio de um jornal, e não pode ser usurpada em nome de objetivos políticos e econômicos, preconceitos sociais ou de classe, simpatias ideológicas ou quaisquer outros interesses que venham desvirtuar a honestidade do serviço jornalístico.

Estaremos atentos para lutar pela liberdade de informação e pelo direito da sociedade de ser bem informada, sem pressões indevidas e manipulações que nos afastem da verdade.

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