“Quem sabe o presidente possa nos dizer o que aconteceu com meu pai?”

A declaração do presidente Jair Bolsonaro, dada na tarde de segunda-feira, 29 de julho, que Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, foi morto pelos correligionários que combatiam a ditadura a fim de evitar o vazamento de informações confidenciais, chocou o país. Bom, chocou ao menos as pessoas que ainda prezam pelo bom senso.

“Eles resolveram sumir com o pai do Santa Cruz. Não foram os militares que mataram ele não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo que acontece,” disse o presidente.

O presidente da OAB reagiu e disse que as declarações de Bolsonaro demonstram “crueldade e falta de empatia”.

A Anistia Internacional divulgou uma nota de repúdio aos comentários do presidente.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), chamou essa fala de inaceitável: “Não posso silenciar diante desse fato. Sou filho de um deputado federal cassado pelo golpe de 1964 e vivi o exílio com meu pai, que perdeu quase tudo na vida em 10 anos de exílio pela ditadura militar”.

Caso emocionante

Mas foi a declaração de Marcelo Adifa (foto), poeta, escritor, jornalista, que me tocou mais. Não tenho o hábito de “passear” pelo Facebook, mas me chamou a atenção esse depoimento.

Não posso chamar Adifa de amigo, pois o conheci dentro do estúdio da rádio Ipanema (FM 91,1Mhz), quando ele acompanhava um secretário municipal em uma entrevista na coluna O Deda Questão. Depois disso, trocamos algumas mensagens e fiquei muito feliz em ver que temos a literatura como interesse em comum. Ele, e apenas mais uma pessoa de Sorocaba, por exemplo, é amigo no Facebook dos escritores Joca Reiners Terron e Bruno Brum, de quem eu também sou. Um dia, Adifa foi de uma gentileza e generosidade sem tamanho quando comentou uma postagem que fiz sobre a luta de boxe. Ele compartilhou uma experiência sua e de Maguila.

Por isso tudo, ler o depoimento de Adifa, sofrido, sobre o que a Ditadura Militar lhe provocou e o quanto essa fala, besta, do presidente, mexeu em feridas que se pensava, estavam cicatrizadas.

Leia a íntegra

Por Marcelo Adifa

Ontem às 05:50 ·

Pai era uma pessoa amargurada, triste das oportunidades que perdeu. Não falava de si ou do passado. Não contou exatamente como ficou com queimaduras nas pernas após ser levado para esclarecer ‘algumas coisas’ em uma delegacia de Santos nos anos 60 e sumir por alguns meses das vistas de todos. Inclusive da própria delegacia em que deveria estar. Reapareceu depois que um tal Rubens Paiva cobrou favores de amigos. Nunca conseguimos agradecê-lo adequadamente; sumiu também e não foram poucos os amigos a procurá-lo. Este devia incomodar muito. Ao contrário de pai ele não voltou meses depois.

Com as pernas queimadas Pai parou de jogar futebol – e era sua profissão. Jogava bem, chegou a ser reserva de Rei, depois decaiu para bater bola em terrão no interior e minguar como operário têxtil quando as propostas com a bola lhe faltaram. Mas nem falava de nada.

Descobrimos seu passado em fotos e jornais, sua ficha no DOPS sem nunca ter roubado banco ou pegado em metralhadora ou pensado em guerrilha. Tinham espalhado que ele levara um pacote a pedido de um amigo em uma excursão do seu time para o México. De boato em sopapo, nada sabemos. O amigo ajudava outros que apanharam e conseguiram sair do Brasil. Fez isso até 76 quando uma casa em que estava foi crivada de balas na Lapa.

Pai morreu já faz tempo, jovem até, mergulhado em rancores, dívidas e vícios. Na família falam que o irmão o envenenou. Não duvido. Já não falava com nenhum dos filhos, nem fui ao velório. Lembrança das surras que tomei sem saber razão. Da arma no rosto em uma vez que fui defender a Mãe. Mas ele não dizia nada.

De Pai falavam que nem sempre fora assim. Que foi mudando a partir daqueles meses em que sumiu. Quem sabe o presidente que tudo acha saber possa nos dizer o que aconteceu com ele? De quando algo que não conhecemos mudou as nossas vidas.

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