Raça de apresentadora vira notícia

No dia 16 de fevereiro de 2019, a jornalista Maria Júlia Coutinho Portes – ou Maju Coutinho, como ficou conhecida na TV – estreou como âncora do Jornal Nacional, na Rede Globo de Televisão e esse fato foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, gerando comemorações e dúvidas: foi ela mesma a primeira negra a apresentar o jornal de mais tradição e audiência da TV brasileira?

As fotos espalhadas nas redes sociais de que Glória Maria e Zileide Silva já teriam apresentado o JN é mentirosa, uma vez que nenhuma das duas foram âncoras daquele telejornal.

De 1969, quando estreou, até 1992, quando a campineira Valéria Monteiro se tornou a primeira mulher a apresentar o Jornal Nacional, apenas homens foram apresentadores. Esse dado, por si, explica o conceito de que jornalismo era “coisa de homem” no país.

E de lá para cá, passados, 27 anos, é a primeira vez que uma negra apresenta o JN. Heraldo Pereira foi o primeiro negro a ser o apresentador. Ou seja, até o dia 16 de fevereiro de 2019, quando Maju Coutinho dividiu a apresentação do JN com Rodrigo Bocardi, havia o conceito de que jornalismo não era “coisa de mulher negra”.

Para refletir sobre essa repercussão em torno da Maju no JN, conversei com Maria Teresa Ferreira da entidade sorocabana Unegro (União de Negros e Negras pela Igualdade).

O Deda Questão: É justificada toda essa repercussão em torno da Maju apresentar o Jornal Nacional por ser negra? O talento dela não fica escondido nessa repercussão?

Maria Teresa Ferreira da Unegro: A falta de entendimento sobre as questões raciais ficam expressas quando precisamos justificar porque o país inteiro se mobilizou em comentários quando uma jornalista negra assume a bancada do jornal mais tradicional da televisão brasileira.

Vamos lá, vivemos num país onde a sociedade está estruturada pelo racismo, mas o que significa isso?

Significa dizer que aos negros – desde a sua dita “libertação” – não foi dada a oportunidade de participar construção da identidade social brasileira, isso quer dizer que o inconsciente coletivo coloca os negros em lugares subalternos como herança da escravidão.

O legado escravocrata traz diferentes consequências para homens e mulheres. Quando falamos à respeito da ascensão de mulheres, precisamos considerar que essas têm diferentes experiências entre si, o que as faz experimentar opressões e preconceitos diferentes.

As mulheres negras, desde a escravidão dos Estados Unidos, vêm desafiando essas experiências do sujeito mulher determinado pela sociedade,  por exemplo, quando as mulheres brancas lutavam pelo direito ao voto, as mulheres negras lutavam para ser consideradas pessoas.

No Brasil não tivemos uma realidade diferente do ponto de vista da dificuldade das conquistas; dando um salto histórico, no Brasil, somete em 1985 emerge a organização atual de mulheres negras como expressão coletiva, no intuito de viabilizar espaços de fala e atuação para que timidamente se possa expor que elas, as mulheres negras tem pontos de partida diferentes, especificidades que precisam ser priorizadas.

Estamos falando da PEC das domésticas que demorou mais de dez anos para ser votada e aprovada. Estamos falando que os direitos das mulheres negras ainda estão longe de serem consolidados, uma vez que o racismo e o machismo seguem operando como gramáticas sociais.

No momento em que o Brasil atravessa uma grave crise política, com o desmantelamento de políticas públicas duramente conquistadas, as mulheres negras têm levado para toda a sociedade questões que as afetam diretamente e que querem ver enfrentadas por todas as pessoas que acreditam em um novo projeto de nação e lutam pela consolidação da democracia.

Se talento fosse porta de entrada para o mercado de trabalho, para o mundo das artes ou qualquer outro espaço de visibilidade certamente teríamos outros tantos negros na academia, nos tribunais, atendendo nos hospitais e em todas as áreas de serviço. Ter talento em país racista não garante ascensão e muito menos representatividade.

Nesse momento, mais que talento, Maju reforça os passos de mulheres como Lélia Gonzales, Conceição Evaristo, Zezé Mota, Sueli Carneiro entre tantas outras.

O talento da jornalista Maria Júlia Coutinho advém dos seus esforços de estudo e capacitação, contudo eles também são a materialização e fortalecimento das lutas e bandeiras empunhadas pelas mulheres negras que contam uma historia de violência e opressão.

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