Rito de passagem, desejo, liberdade, segurança 

Duas adolescentes, na faixa dos 18, 19 anos, no máximo, aproveitaram a promoção de toda sexta-feira do setor de comida japonesa do supermercado Pão de Açúcar para comerem o que elas escutam que as meninas sêniores, suas colegas no escritório onde trabalham, almoçam.

O que chamou minha atenção, e a de todos à volta, foi a luta delas com os pauzinhos (hashi). Quando você se acostuma, eles viram uma pinça. Mas até se acostumar…

Depois, surpreendentemente, uma das meninas, disse que ela odeia peixe. E ninguém na casa dela come. E a mãe proibia o pai (sic) de comprar qualquer fruto do mar. Então, com os dedos, ela tirou o salmão que embrulhava a pelota de arroz. 

A outra, de repente, cuspiu o patezinho e bebeu num gole só o conteúdo de sua lata de Coca-Cola lilás (juro que nunca tinha visto uma lata dessa cor e sabor desse refrigerante). E ela disse, enfaticamente e um tanto em voz alta: Puta que pariu… essa porra tem gosto da morte. Arde tudo…

Disfarçadamente, eu ri. Eu adoro wasabi, que é uma pasta de raiz forte, e realmente queima. Mas passa rápido. E deixa um gosto na boca que eu gosto. Pensando aqui com meus botões, acho que ela definiu bem o gosto do wasabi. 

Depois de cutucarem o gengibre (gari), nenhuma das duas comeu. E o pepino (sunomono), depois de experimentado, foi deixado de lado: É doce!

Das duas bandejas de niguiri, ueramaki, yoo… só não sobrou o arroz. 

Então fico pensando como a cultura é poderosa. Em Sorocaba, depois da moda dos restaurantes de costela, e das churrascarias, a moda da comida japonesa já dura uma década pelo menos. Há um em cada esquina… Numa conta rápida, são uns 30 restaurantes de comida japonesa.

A pizzaria, sem dúvida, ainda é a mais popular. Imbatível desde os anos 70 quando a Pizza na Pedra conquistou o nosso coração e abriu a tendência. 

Quem não resistiu aos modismos, depois de três décadas e anunciou o fim de suas atividades é a Panqueca de Irene (já estou com saudades). Outro restaurante que chega ao fim é um exclusivamente vegano. Numa cidade fundada por tropeiros, não surpreende o gosto por carne e seus derivados.

Eu estava no Senai, onde entrei com 14 anos, e passei a ter salário, na verdade, meio salário mínimo por mês, para estudar. Era o suficiente para eu comprar o que queria: Uma barraca de camping em prestação no JumboEletro, uma peça inteira de presunto (não 100gr em fatias na padaria Príncipe da rua Balthazar Fernandes) e, como as meninas do começo deste post, fui no bar sozinho. Ficava na rua Miranda Azevedo, me sentei na varanda para que quem passasse na calçada me visse lá dentro, pedi uma cerveja (no começo dos anos 80 ninguém se importava de vender para menores de idade) e uma porção de azeitonas verdes. Me senti, então, integrado naquele momento à cultura onde vinha sendo forjado, a de um macho responsável por bancar os custos e ser o provedor. Foi um carimbo no ritual de passagem para uma vida normal: Ter emprego, se diplomar, casar, ter filhos, formar família… plantar uma árvore, escrever um livro…Fim! Desde então, vivo numa luta constante entre desejos, aspirações conscientes e inconscientes, que quase nunca estão ao meu alcance. Sei apenas que esse conflito carrega minha verdade, surge no lugar de palavras que não pronuncio, me ajuda a compreender o que diz sobre mim mesmo e a viver concomitantemente com minhas aspirações de liberdade e necessidade de segurança.

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