O seu último grande evento social

Arany Marchetti morreu hoje aos 72 anos e deixa a marca de ser um dos principais empreendedores sorocabanos, daqueles que nasceram pobres e construíram sua riqueza. Me lembro dele, quando eu ainda era criança, e o supermercado Beira Rio (então da sua família) do Jardim Maria do Carmo ter aberto filial na rua Aparecida, na Vila Santana, onde eu morava.

Quando ele começou a ficar milionário e ganhar fama ao criar a Ossel (Organização Sorocabana Seol Empreendimentos de Luto Ltda) – empresa funerária que revolucionou e popularizou a forma de fazer velórios em Sorocaba – desbancando o monopólio da Ofebas (dirigida pela Maçonaria ainda hoje), Arany me tratava com carinho e uma intimidade que, de fato, não havia motivo para existir entre nós.

Isso acabou quando o jornal BOM DIA, quando eu era o editor-responsável, numa série de reportagem sobre a Máfia de Branco no Conjunto Hospitalar de Sorocaba publicou em sua capa a foto do seu médico particular sendo preso. Aquela edição trouxe o médico saindo algemado de sua casa, vestido de pijamas. Apesar de eu ser editor, não tive nada a ver com aquela capa e edição. Foi num dia em que o BOM DIA recebia o novo diretor geral da rede e implantava um novo conceito de capas. Quem levou a fama por aquela publicação, de todo modo, fui eu. Arany protegia quem ele gostava e achava inadmissível que algum dos seus protegidos pudesse ser atingido.

Arany nunca mais me perdoou por aquela capa de jornal. Nunca mais anunciou seus produtos ou de suas empresas nos locais onde eu trabalhava. E quando nos cruzávamos em eventos ou locais públicos, sempre tratava de me dar um cumprimento protocolar, nada mais do entusiasmo daquelas pessoas que eram da Vila Santana.

Arany era endeusado por parcela da sociedade sorocabana, mas ele sabia que havia um acerto de contas a ser feito com o seu passado. E fiquei feliz em saber que ele teve tempo em fazer isso. Dia desses encontrei sua ex-esposa, que foi minha secretária quando eu era editor do jornal Cruzeiro do Sul, na escola de balé onde minha neta faz aula de dança e ela me contou que um caminho de paz estava sendo trilhado. O que é bom para todos.

Polêmico, Arany também teve muitos desafetos desde que criou a Ossel em 1987, com a ajuda da Câmara de Vereadores que mudou a legislação que garantia o monopólio dos serviços funerários.

Arany fez da morte um negócio. Ele não inventou a roda, mas adaptou-a Sorocaba. Pegou o que vemos nos filmes dos Estados Unidos e implementou aqui. Profissionalizou o velório, criou uma empresa onde as pessoas pagam parcelas mensais para na hora da morte ter direito ao velório e de seus parentes cobertos pela empresa. Ele trouxe o marketing ao enterro e isso assustou no começo. Depois isso ficou tão comum que até caixão com time do coração ele começou a vender: “O falecimento de uma pessoa não pode causar mais transtornos que o próprio sentimento de perda já proporciona”, afirma na página da empresa.

Há dois anos, Arany recebeu amigos e familiares para brindar em grande estilo seus 70 anos de idade, numa noite digna de superprodução que mereceu a cobertura do mais badalado canal de celebridades e festas da TV brasileira, o Programa Amaury Jr.

O Esporte Clube São Bento, time que sempre foi apoiado por Arany e qual ele era torcedor, divulgou Nota Oficial, em que decreta luto oficial pelo falecimento de seu torcedor e apoiador. Na partida contra o Cuiabá, nesta sexta-feira (8), será observado um minuto de silêncio em homenagem a Arany.

“Trabalhando com o conceito de que o funeral é o último grande evento social de uma pessoa e que, assim como qualquer outro rito de passagem deve ser marcante, a Ossel inovou também nas homenagens, possibilitando na cerimônia uma chuva de pétalas de flores. É mais uma forma de demonstrar carinho e agradecer tudo o que aquela pessoa representou para a família e os amigos”, explica Cesar, seu filho, no portal da empresa.

O sucesso de Arany é inspirador!

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