“Não Espere Muito do Fim do Mundo” é um filme da Romênia de 2023 que pode ser assistido no Mubi e, como diz o nome, trata do fim do mundo.
Ao contrário da mensagem de Hollywood, de que o mundo vai acabar com algo notável, como uma guerra, epidemia, invasão alienígena, e todo ser humano percebendo que o mundo está acabando, neste filme o mundo acaba de modo sutil.
O mundo acaba sem alarde com as pessoas trabalhando 16 e até 20 horas por dia, sem receber por horas-extras, apenas por dedicação ao empregador. Acaba sem que a pessoa se dê conta que acabou, ela e o mundo. E isso vale para um desgraçado que topa receber 500 euros para contar sua desgraça, e se aquecer no inverno, ou para um executivo que paga 2 mil euros num jantar.
É uma comédia sarcástica.
O filme narra as 16 horas de um dia de trabalho de uma produtora numa empresa de audiovisual, desde que ela acorda às 5h50, até meia-noite. Ela praticamente passa seu tempo conduzindo pelas ruas da capital Bucareste e grava para o TikTok com seu alter-ego através de um filtro de um rosto tosco masculino, em que destila toda sua raiva e ressentimento da sua condição e do seu país. É uma versão de “O Médico e o Monstro”, um Dr. Jekyl, virtual.
Mas o filme não é só isso.
O que mais me interessou no filme é o fato da narrativa estar recheada de citações da literatura desde Robert Louis Stevenson até Goethe, passando pelo poeta Ovídio do império romano. São livros que a personagem central leu, mas que seus interlocutores ignoram, inclusive a chefe da produção em que ela trabalha, Doris Goethe, tataraneta do autor de Fausto.
O fim do mundo vem pela destruição do planeta, certamente, mas vem também pela ignorância e desconhecimento de toda a produção literária da humanidade. Ética, moral e memória estão como pano de fundo na narrativa deste importante filme.
Na Bucareste comunista, que está no inconsciente do romeno, e aparece no filme em imagens coloridas, está a base do romeno mergulhado na corrupção, no capitalismo, na propriedade privada e sua selvageria refletida no trânsito, na forma como conduzem um carro (não se vê motos) e no modo como os motoristas se destratam que aparece em branco e preto no filme.
A cena que me fez apaixonar por “Não Espere Muito do Fim do Mundo”, de quase três horas de duração, é a de uma ambulante no semáforo, como as que tem no Brasil oferecendo pipoca, guardanapo, bombom…, vendendo livros usados por 5 léus cada um, algo como 6 reais e 20 centavos.
Não sei se a literatura vai evitar o fim do mundo, mas certamente torna mais agradável e divertido para quem lê, e pensa um pouco por consequência, ver os imbecis entrando pelo cano (fim do mundo) e nem mesmo perceber que fazem isso, tamanha a tacanhice de suas vidas.
O filme é do tipo de humor que eu adoro.


