Sorocaba na origem de “O Continente”

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Cheguei, ao acaso, no livro “O Continente”, o primeiro volume da trilogia que forma “O Tempo e o Vento” de Érico Veríssimo um dos melhores e mais premiados autores brasileiros que viveu e produziu na primeira metade do século 20.

Eu estava numa pequena feira de troca de livros e “O Continente” era o único livro adulto disponível entre as dezenas de fantasias do tipo Harry Potter e Senhor dos Anéis, uma febre que domina o gosto dos adolescentes e nem tão-adolescentes há mais de vinte anos.

Que surpresa maravilhosa “O Continente”, de diferentes pontos de vista: A primeira a limpeza, clareza e elegância da narrativa de Érico Veríssimo. Lê-lo é quase como se visse um filme. A segunda, a estrutura que ele escolheu para contar a história do livro, onde os fatos são apresentados e depois contextualizados, onde as personagens se colocam e depois os entendemos na árvore genealógica de sua história. Por fim, descobrir (nunca havia lido nada a respeito, o que não significa que não tenha sido abordado) que toda a saga de “O Continente” que envolve a formação histórica, geográfica e social do que hoje conhecemos por Rio Grande do Sul, mas que originalmente os portugueses chamavam de “Continente do Rio Grande”, nasceu em Sorocaba.

No livro, antes da narrativa, nos paratextos, há a árvore genealógica das famílias Terra e Cambará, eixos centrais do livro. Essa árvore genealógica vai ganhando sentido na medida que se avança na leitura e chega-se ao capítulo dedicado a Ana Terra, seguramente uma das personagens mais importantes da literatura nacional. 

Na página 103, sofrendo da saudade de onde veio e da carência da vida onde está, ela se pergunta: “Para que lado fica Sorocaba?” E os olhos da moça se voltavam para o Norte, nos conta o narrador.

Na página 106, na beira do rio, onde lavava roupa, Ana Terra cantava, “eram cantigas que aprendera ainda em Sorocaba”.

Na página 119, a música que saia da flauta de Pedro Missioneiro, “se parecia com as que Ana costumava ouvir na igreja de Sorocaba”.

Na página 121, ouvindo a história que livra Jesus das ordens do rei dos judeus que ordena a matança das crianças, “Ana escutava sem erguer os olhos do prato de comida da mesa. No seu espírito o deserto era verde e ondulado como os campos nos arredores da estância e os rostos da Virgem Maria e do Menino Jesus pareciam-se com os das imagens que ela vira na Matriz de Sorocaba”.

Na página 123, é a vez de Maneco, pai de Ana, falar de Sorocaba: “Pensou no pai, Juca Terra, que passara metade da vida a viajar entre São Paulo e Rio Grande de São Pedro, sempre às voltas com tropas de mula que vendia na Feira de Muares de Sorocaba.”

Na página 145, já mãe, Ana Terra canta para seu filho, Pedro Terra, “velhas cantigas que aprendera quando menina em Sorocaba, cantigas que julgava esquecidas, mas que agora lhe brotavam milagrosamente na memória”.

Na página 162, quando se vê só para acabar de criar seu filho, sabemos que a sorte andava sempre virada contra Ana Terra e que agora ela estava decidida a mudar isso: “Ficara louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir morar no Continente. Vezes sem conta havia chorado de tristeza e de saudades de Sorocaba naqueles cafundós…”

Na página 185, Ana Terra já está em sua casa nova, a fictícia Santa Fé, local onde ela chegou ainda em sua formação. Local onde os “tropeiros que vinham de Sorocaba comprar mulas nas redondezas gostavam e iam ficando ali.”

A saga de Ana Terra chega ao fim e entendemos sua importância como mãe e avó nos personagens marcantes da história que constituiu o Rio Grande do Sul. Uma dessas passagens é a Revolução Farroupilha que entre as causas uma delas se relaciona com Sorocaba como se lê na página 342, a última citação de Sorocaba no livro: “Até as tropas de mula que os criadores rio-grandenses vendiam para os tropeiros de Sorocaba e outros lugares fora do Continente estavam sujeitas a um imposto que era cobrado não no lugar de origem do negócio mas sim no mercado onde os muares eram vendidos, de sorte que que quem ia se beneficiar com a arrecadação eram outras províncias e nunca o Rio Grande.”

É uma história de capitães e coronéis. É uma história de combate aos argentinos que queriam ocupar o Rio Grande. É uma história das Missões jesuítas que converteram os índios guaranis. É uma história de luta. É um retrato do racismo que dominou o século 19 e considerava qualquer pessoa preta inferior a ponto de não vê-la como ser humano. É uma história do homem como o protagonista conquistador, mas da mulher como base da organização social e da força de perseverança de um povo. Ana Terra é uma mulher brilhante, ética e corajosa, assim como Bibiana, sua neta.

A moldura do livro é a luta, a conquista e a personalidade de um povo fundador do Rio Grande do Sul e a narrativa nos apresenta quem é esse povo no contexto de suas vidas a partir de um sobrado, o símbolo de poder, na praça de Santa Fé. Uma história onde o dominado termina por ser a elite detentora da terra e explica muito do que é o Rio Grande do Sul de hoje e seu lugar no Brasil. De passagem, como se anunciando o que estava por vir, Érico Veríssimo nos apresenta a chegada dos primeiros colonos alemães e todo estranhamento que causam.

Um livro que todo brasileiro deveria ler. Adorei.