Autor: Djalma Luiz Benette

Pernas cruzadas e o legado normalizado

Sentei para tomar café no Franz do hipermercado Confiança no começo da tarde desta segunda-feira e  na mesinha da minha frente um homem, aparentemente na faixa dos 55 anos como eu, cruzou as próprias pernas. 

Parece pouco. Mas para quem carrega 30 kg a mais do que o ideal há décadas, como é meu caso, isso é admirável. Ele parece confortável. Sua mensagem é a de alguém com domínio sobre a própria vida. 

Que ilusão!

Ainda mais depois da “grande” notícia de hoje que nos faz saber que Estados Unidos e Europa entrarão em recessão econômica no final deste ano e viverão a pior crise econômica desde o pós-guerra em 2023 e que essa situação vai atingir a China e quando lá chegar vai respingar sobre a produção e emprego no Brasil.

Saber disso não me serve de nada, apenas me conforta que a culpa não é minha. Minha culpa é me manter acima do peso. Talvez seja inconsciente, algo como ter energia para um período onde a carestia trombe comigo. 

No sábado me atrevi a comentar na postagem de uma amiga, o quanto desastrosa é a defesa dela do governo atual. Ela argumentou que a experiência de viver treze anos no PT torna possível saber o que vem pela frente caso Lula ganhe e, por isso, ela prefere manter o atual governo porque os três anos e meio é um período muito pequeno para uma avaliação justa, principalmente pelos problemas causados pela pandemia.

Já tinha visto, lido e ouvido argumentos variados de defesa do atual governo, todos que se resumem no cunho ideológico da preferência, mas falta de tempo para fazer uma análise é a primeira vez. 

Voltei a me concentrar no homem de pernas cruzadas e, quando percebi, elencava mentalmente porque o atual não é opção: começa pela veemente defesa que ele faz de um assumido torturador de gente. Depois o desprezo pela vida, algo evidente nos doentes de Covid19; na luta contra a vacina até chegar no incentivo ao extermínio do povo original (índios). Então penso no aniquilamento da cultura e no desrespeito e desprezo pela educação e ciências. Me indigna a insana luta dele contra as instituições (voto eletrônico, poderes de justiça, adversários políticos…).

Então me lembrei de como é eficiente e eficaz sua máquina de destruir pessoas e reputação. Nesta manhã, enquanto eu tomava a 4° dose da vacina contra a Covid, uma senhora saiu da fila quando descobriu que a vacina era do Dória (sic), ou seja, a Coronavac. “Essa é a do governador que não gosta do presidente, não é boa. Eu quero a da Pfizer”, disse ela. A funcionária argumentou que essa vacina é boa e todos funcionários da saúde tomaram essa… “Não quero a desse (Dória) aí” ela disse e foi embora.  Se as pessoas que defendem a democracia não se indignarem, o legado do atual governo estará normalizado. E isso se resume a aniquilar quem não é igual. Esse é o combate dessa eleição.

Gente ruim não morre

O inverno chegou na última terça-feira e ninguém lhe atribuiu algum significado. Chegou como chegam os dias, qualquer um deles, sem alarde.

Estamos (a sociedade em geral) sob a nova estação do mesmo jeito que estamos submersos nos fatos que nos assombram: uma juíza incapaz de decidir sobre a gravidez de uma criança de 10 anos; um ministro preso por corrupção no “governo sem corrupção”; o Palmeiras ganhando todas; as luzes dos postes sorocabanos acesas durante o dia e apagadas à noite…

A nova estação, o novo dia, os novos fatos seguem sem capacidade de sacudir a nossa (da sociedade) inércia dicotômica iniciada em 2013 quando jovens se revoltaram com os 20 centavos de aumento na passagem de ônibus. De lá para cá se foram nove anos e nada, absolutamente nada, indignou mais ninguém. A gasolina pulou de R$ 2,38 para E$ 6,79 e seguimos (a sociedade) enchendo o tanque. Bovinamente!

Estarrecido, recebi de um amigo a postagem de outro onde o sujeito, certamente por teimosia, dizia preferir pagar R$ 10,00 no litro da gasolina a votar no PT. Fosse esse sujeito um dos acionistas da Petrobras que recebeu algum dos 24 bilhões de dividendos pagos a quem tem ação da estatal haveria algum sentido. Mas é um idiota apenas. Que teve seu bom senso corrompido nos últimos 9 anos.

Os números dos gráficos (vale lembrar que um gráfico é da cultura, ou seja, feito por algum ser humano) estão excelentes. Pelo gráfico, nós (a sociedade) não estamos devendo nenhuma parcela do carnê; comemos 4 refeições por dia; jantamos em restaurantes; vamos viajar para onde programarmos (no Brasil ou fora) nas férias (porque somos CLT e não Eireli); e vamos dar o Sedan como entrada para nossa SUV, afinal o preço da gasolina está incorporado no orçamento doméstico.

Fora do gráfico… Ahhh, fora do gráfico…

O brasileiro é gente ruim, não morre. Vocês sabem que só gente ruim não morre, né! Se tirar essa gente do gráfico estamos (a sociedade) todos bem.

Eleição colombiana e os extremos brasileiros

Os eleitores de esquerda aqui no Brasil usaram as redes sociais para fazer uma onda de alegria com a vitória de Gustavo Petro para presidir a Colômbia. Petro, em sua juventude, foi integrante do Movimento 19 de Abril (M-19), grupo guerrilheiro que buscava impor ideias por meio das armas. Petro tem perfil similar ao de Dilma Rousseff, também guerrilheira em sua juventude.

Outro fato histórico no país é a eleição do vice-presidente ser mulher, preta e líder sindicalista, Francis Márquez, sobrenome do seu conterrâneo Gabriel Garcia um dos mais famosos escritores do mundo. 

Praticamente toda publicação dos esquerdistas brasileiros tinha um mapa com os presidentes de esquerda eleitos recentemente na América Latina. Uma espécie de contagem regressiva pela volta de Lula.

Mas a eleição de domingo na Colômbia também mexeu com os eleitores que desejam que o atual presidente brasileiro siga no cargo. Eles se aproveitaram do mesmo fato, a eleição colombiana, para fazer propagar a ideologia deles, ou seja, o medo. Eles passaram o dia de ontem alertando para o perigo que avança sobre o Brasil com a formação da Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), um neologismo com a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) ou com o Foro de São Paulo.

São provocações de lado a lado para reforçar as convicções de cada ideologia. 

Porém, primeiramente é preciso distinguir o eleitor antibolsonaro do lulista, petista e esquerdista. Esse eleitor não é do partido e não compactua da força para diminuir a histórica desigualdade social do país. É o eleitor horrorizado com o péssimo comportamento de Bolsonaro de total desrespeito à liturgia do cargo para o qual foi eleito. É o eleitor que tem náuseas só de lembrar da falta de empatia do presidente, como ocorreu recentemente com a morte de Bruno e Dom. É o eleitor que não quer saber se o presidente se chama Luiz, Geraldo, Jair, Ciro… É o brasileiro que deseja paz para tocar sua vida.

Quem usa de qualquer fato, como a eleição colombiana, vive essa obsessão do noticiário político como o entretenimento preferido dos veículos de comunicação.

Foi o eleitor desta esquerda, confessadamente descontente e desconfiado por Lula ter escolhido um vice de centro, social-democrata, neoliberal, respeitado pelo deus mercado, como Alckmin, que empanturrou  a rede social formando essa onda da contagem regressiva pela volta de Lula a partir da eleição colombiana. 

O eleitor de extremadireita, lunático, se dedicou a compartilhar um vídeo do capitão Assunção (não faço ideia de quem seja e nem quero saber) dizendo que não existe democracia no Brasil, que as instituições e imprensa estão tomadas por esquerdistas e que basta o comandante dar uma ordem que eles estarão na rua para limpar o Brasil do comunismo.

Parece piada. É cômico. É um dejà-vu. Mas eles estão aí usando a eleição colombiana do mesmo jeito que a esquerda usa, apenas com cada um puxando a sardinha, no caso argumento, para o seu lado. Infelizmente a eleição de outubro próximo se tornou uma escolha entre a sanidade democrática (representada por Lula, Ciro e Simone…) e o lunático, fascista, mentiroso. Nada será pior do que o não-governante que está aí seguir no cargo. Nada!

A guerra estética e consequentemente ética

A música “Terra” de Caetano Veloso é um divisor de minha história. Eu tinha 17 anos quando a ouvi pela primeira vez, morava em Campinas onde havia me mudado para estudar na faculdade de jornalismo, e me foi apresentada por Carlos Magno (que morreu tão jovem) assim como Stravinsky, Edgar Alan Põe, Franz Kafka, Kandinky, Paul Klee e um mundo que me completou, acalmou e deu sentido.

Dias atrás, uma amiga da vida, amiga do passado e futuro, me contou ter lido uma postagem de um psicanalista cujo o paciente, esquizofrênico, se acalmava ao ouvir  “Terra”. A letra é importante, obviamente, mas a melodia, o ritmo e estrutura da canção é o que me toca.

Me lembro disso tudo ao ver a capa da Veja Rio com os oitentões que tanto amo: Milton Nascimento é um capítulo à parte em minha vida, uma fonte de energia, de que existir faz sentido.  Paulinho da Viola me mostrou que o samba é um requinte sedutor como um fim de tarde vendo o Sol se deitar atrás da montanha. Gil, frenético, numa entrevista coletiva no ginásio do Guarani, onde ele se apresentaria à noite, pegou minha coxa com energia e perante todos me inquiriu: você não acha? Eu fiquei aturdido. Não prestava atenção. Apenas desfrutava estar tão perto de quem eu tanto admirava. Caetano, que veio a Sorocaba pela última vez em 1989 ou 1990, e fui lá eu entrevistá-lo sozinho no camarim do Recreativo, tirei foto dele apenas de cueca, deu liga nossa conversa até que chegou Zé Desidério e Kiko Pagliato para conversarem com ele e me retirei. Daquele dia em diante, toda vez que Caetano se apresentava em Campinas ou São Paulo, eu ia lhe dar um oi e ele mandava eu entrar. Numa dessas topei com Paulo Leminsky que andava atrás de Caetano insistentemente. Caetano tentava evitar. Não sei o que ele quer, disse Caetano. Eu também não sabia naquele momento. Depois vi que queria o impossível, que é ver a obra na pessoa. O artista é uma pessoa “normal” que faz coisas geniais, sua obra. 

E lembrando deles todos e da qualidade do que fizeram me pergunto o que aconteceu com as novas gerações que se distanciaram da qualidade dessa música. No começo da noite de sexta-feira passada, voltando de Itapetininga, no pedágio de Araçoiaba, a moça que cobrava o bilhete ouvia num volume exagerado uma dessas porcarias feitas por Gustavo Lima, Marília Mendonça ou qualquer um que o valha.

O momento que o Brasil vive, essa foi minha conclusão passando o pedágio, é fruto dessa estética. O primeiro golpe é sempre o estético, pois na sua esteira vem o ético. Ambos são indissociáveis. E a prova de que o Brasil perdeu essa guerra não é só a existência de Bolsonaro (e seu Ryder, calça de ginástica e pote de margarina…), mas a força do agronegócio que aniquila o meio ambiente (e patrocina essa música), a maioria de jovens corrompidos esteticamente (pelo sertanejo universitário) e o cansaço (de tudo) da minha geração.

Bruno, Dom, Tim…

Quando o jornalista Tim Lopes morreu, fato ocorrido bem antes do advento da Internet, ao ser descoberto numa das favelas dos morros cariocas, me lembro de ter escrito algo sobre o fato dele saber o risco que corria.

Os noticiários da época disseram que Tim Lopes foi morto por traficantes. História que eu nunca acreditei. O que ele poderia dizer que já não fosse de conhecimento público, ou seja, no morro há traficantes e drogas. Sempre achei que ele descobriu algo que seria chocante, tipo a polícia protegendo os traficantes (o que apareceu anos depois nos filmes do José Padilha), alguma figura pública ligada ao financiamento do tráfico, outras apenas consumidoras… Enfim. Alguma novidade. 

Essa sana de contar é o que pulsa no jornalista. É mais forte que ele essa vontade, é necessidade de se expressar.

O indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, agora com as mortes confirmadas, tinham esse sentimento arrebatador de nos contar o que eles haviam descoberto numa das regiões mais inóspitas da Amazônia. (Aliás, selva, índio, primitivo… são os temas que os europeus legitimam como sendo “permitido” de serem abordados pelo Brasil. Se não se fala desses temas, não se está falando da identidade brasileira. Falar de qualquer outro tema é negar a si e se apropriar de algo do colonizador).

Bruno e Dom foram imprudentes ou irresponsáveis? Não. Mas ousados, sim. Eles poderiam ter mantido distância para se resguardarem. Dom, pelo que leio das pessoas próximas a ele, tinha “o sonho de salvar a Amazônia”. É ousadia, mas prepotência também. E isso não é culpá-los. É dizer o óbvio. 

Em Sorocaba, o que não é exclusividade daqui, mas de qualquer cidade média ou grande, a polícia sabe da existência de ruas onde é proibido circular sem autorização do crime organizado. Quem manda é o traficante. Não entra carteiro, não entra entregar de jornal, não entra Mercado Livre… a não ser com autorização. 

Tim Lopes virou “herói” quando morreu, emprestou seu nome a prêmio de Direitos Humanos… E hoje ninguém mais sabe quem ele foi, o que fez e porque foi executado. 

Que a pressão internacional evite que o mesmo ocorra com Bruno e Dom. Que as urnas dêem a Bolsonaro a resposta adequada para a ofensa que ele fez aos dois, responsabilizando-os pelo ocorrido, negando a sua própria responsabilidade por suas ações e discursos incentivadores do crime organizado na Amazônia. Bolsonaro não pode ser apontado como o mandante desses crimes, mas como o responsável, pode sim. Não há dúvidas disso. Assim como o consumidor das drogas traficadas nos morros cariocas é o responsável pela morte de Tim. Assim como quem compra seu baseado para simples recreação, de modo inofensivo, também é o responsável pelo poder do crime organizado.

Olá… tudo bem?

Eu tenho o hábito de frequentar algumas padarias como a Real, Panicenter, Simus, Santa Rosália e de brincar, sempre que a circunstância permite, com a pessoa do caixa, geralmente mulheres jovens. 

Isso cria uma ilusória intimidade, mas que permite eu saber que “ontem” o filho de uma delas tinha 2 anos e hoje já completou 8, como minha neta.

Uma dessas caixas que, por algum sinal trocado, eu achei que fosse filha do dono e ela gargalhou explicando que não era, embora achasse que seria uma boa ser, me repetiu seu mantra agora há pouco: Oi…tudo bem?

Então eu lhe disse… Bom… tirando o fato de hoje ser dia 15 e eu estar pagando esse cafezinho com o cheque especial… Tirando uma dor de estômago que apareceu no dia 27 de maio e me persegue desde então…Tirando o fato de só ouvir não nas portas que bato atrás de um emprego. Tirando…

Então ela me interrompeu e imperativa me disse: Moço… e pelo olhar ela conduziu o meu para ver a fila que se formava. E ela soltou a gargalhada, uma de suas boas características, para depois me dizer: A gente pergunta se está tudo bem, mas na verdade não quer saber não… 

Eu ri e lhe disse: Agora que eu ia falar do cinismo desse país que busca por um indianista sumido na Amazônia só porque junto dele havia um gringo, senão seria mais um… Agora que ia falar da contradição do Paulo Guedes que se diz do liberalismo econômico, mas cria uma confusão tributária para, talvez, baixar 1 real no preço da gasolina na bomba, o que vai frustrar quem precisa usar o carro… Agora que eu ia falar que precisou vir um vereador de São Paulo para resgatar o cachorro judiado num condomínio de Sorocaba… Agora…

Moço, moço, moço… amanhã a gente conversa mais. E ela me dispensou. Eu segui meu caminho “curtindo” minha vida de princeso, neologismo criado pela minha filha por eu lhe contar como foi meu dia: Hoje foi hidroginástica, amanhã de musculação… Levar neta na escola. Ir no açougue, peixaria, mercado… Fazer almoço e lavar louça… Dar comida pro cachorro e gatos…Dirigir… Ler, escrever, pensar…

Tartaruga em cima do poste

Fiz parte do primeiro grupo de pessoas da organização de fundação do, hoje extinto, jornal Bom Dia, o primeiro jornal impresso nascido depois do advento da Internet e também o primeiro impresso em rede do Brasil. 

Entre as inovações trazidas, o Bom Dia instituiu o Conselho de Leitores, ou seja, selecionou entre as pessoas eu liam o jornal e que se inscreveram para a seleção de pertencer ao conselho um grupo para sugerir pautas, avaliar as publicações, entrevistar personalidades… O olhar do leitor pesava na forma como cada editor-chefe conduzia a sua equipe. Eu fui o editor de Sorocaba. 

Dias atrás, numa postagem, uma ex-integrante do Conselho de Leitores quis saber o que eu faço hoje em dia. Falei que este blog e assessoria. Então ela emendou alguma coisa do tipo então você não trabalha mais…kkkkk. 

A verdade é que para quem não é da área, sempre é um tanto mais difícil explicar o trabalho do jornalista. 

Me lembrei disso diante da gafe de Eliane Cantanhêde, colunista do jornal O Estado de S.Paulo e da GloboNews TV, ao achar que o presidente estava falando um inglês razoável em evento da Cúpula das Américas. Era a voz do intérprete. O que seria para ser apenas gozação despertou a lembrança do preconceito dela em relação a Lula que não fez faculdade e não falava um português correto. Cantanhêde era, não sei se ainda é, casada com um tucano de alta plumagem quando defendia o PSDB com escancarados ataques a Lula.

Você, leitor, deve estar se perguntando como se une o fato agora acontecido com Cantanhêde e minhas lembranças. Bem, se une pela fábula da “Tartaruga em cima do poste”. Como sabemos, a aerodinâmica da tartaruga impede que ela suba num poste o que significa que se ela está lá é porque alguém a colocou. Cantanhede foi colocada onde está por cumprir seu papel de defender alguns atacando outros. Ela é confiável. 

Eu? Bem eu sigo por aqui mesmo… no chão. Sempre que houve possibilidade eu subi pelas minhas habilidades e fui tirado de onde estava por falta de outras.  O leitor, ouvinte, telespectador, internauta…, com raras exceções, se dá conta disso. No geral, eles acham que as Cantanhêdes da vida são mesmo boas.

Incoerentes, incompetentes e perdidos

Com a aprovação de novo regulamento, o cidadão que pagou Plano de Saúde por trinta anos ou mais, se vier a ser diagnosticado com uma doença (ou um novo tratamento) que não está em uma lista da ANS (Agência Nacional de Saúde) ficará sem atendimento pois o operador do plano ficou desobrigado de atender a essa necessidade.

Essa decisão deixa explícito que a lógica dos planos não é a saúde, ou seja, o ser humano, mas o mesmo lucro de qualquer outra relação comercial existente entre o empreendedor e o consumidor. 

A mesma lógica foi aplicada nos últimos dias na questão da habitação, onde os bancos passam a ter possibilidade de tirar de seu cliente a sua única moradia caso ele não seja capaz de manter em dia as prestações. 

Do ponto de vista Liberal, que é a política do ministro Paulo Guedes, que tanto encanta os mais ricos, são decisões calcadas na coerência do governo em questão. 

Isso levanta a questão: impor uma política econômica Liberal tornará o Brasil um país Liberal, de Estado mínimo?

Essa questão é como a charada sobre quem veio primeiro se o Ovo ou a Galinha. 

Numa sociedade mais igual, da verdadeira meritocracia, de onde todos os cidadãos partem do mesmo ponto e mesmas condições, ser Liberal é aceitável. 

Mas numa sociedade onde a herança da propriedade e a dificuldade de acesso ao conhecimento são base de sua formação, medidas de uma política econômica Liberal, como a dos bancos e planos de saúde, é um escárnio. 

Não se torna uma sociedade Liberal matando muitos e beneficiando poucos como ocorre no Brasil de Bolsonaro, onde número de pessoas famintas cresceu 73% e o de bilionários, 48%.  Agora, igualmente inadmissível é incoerência do presidente ao pedir que empresários tenham o mínimo de lucro e o ministro Guedes falar em congelamento de preços (como Funaro pensou no governo Sarney) num ambiente progressivamente Liberal. Mostra que além de incompetência estão perdidos.

As escolhas que fazemos 

Recebi em 1988, depois de quatro cursando jornalismo, o diploma de bacharel e para minha surpresa fui um dos selecionados de minha turma para fazer o Curso Abril, acho que era sua sexta edição, em janeiro de 1989.

Almir Gajardoni foi o tutor do meu núcleo e no final de tarde de uma sexta-feira ele me chamou de canto e disse que queria me apresentar algumas pessoas.

Então, quando estávamos postados diante do dono da então poderosa Editora Abril, Victor Civita, Tomaz S. Corrêa, o executivo poderoso, e de José Roberto Guzzo, então o comandante da maior revista da América Latina, Gajardoni me apontou e lhes disse: aqui está um típico repórter de Veja. Sim, ele usou essa preposição. 

Saí dali abençoado. E não deu outra, na segunda-feira seguinte me ligaram (não existia celular ou redes sociais) pedindo que eu me apresentasse no dia 10 de fevereiro. Eu disse que não podia. A moça, surpresa, quis saber o motivo. Eu disse que iria me casar. Ahhh, ela respondeu, ok. Então estou mudando a data sua apresentação para o final de fevereiro. E eu respondi: não posso. Ela, brava e indignada: porque não dessa vez? Eu vou viajar. Ahhh, lua de mel! Eu expliquei: não. Vou morar fora do país. Um tempo depois, o telefone tocou novamente. Era a chefe do RH da Veja. Eu disse que não queria o emprego e ela disse que eu não sabia o que estava fazendo, pois todo mundo queria trabalhar na revista. Insistiu para eu pensar bem. Enfim, me casei, viajei em março, voltei em outubro, votei apenas no 2° turno e comecei em dezembro daquele ano no jornalismo no Cruzeiro do Sul, onde por dez anos, a cada ano, eu fui promovido de cargo até ser o editor-chefe por seis anos…

Me lembrei disso tudo ao receber de um amigo bolsonarista um texto de ontem de JR Guzzo. Ele fala das maravilhas de nossa economia. Num trecho ele escreveu assim: “(…) Há nove meses seguidos o país tem superávit fiscal, gastando menos no que arrecada – apesar de todas as despesas com o combate à Covid, verbas extras para a saúde dos estados, 500 milhões de doses de vacina e o auxílio emergencial em dinheiro para os cidadãos, hoje no valor de R$ 400 por mês e oficializado com o nome de Auxílio Brasil. A inflação de maio foi de 0,4% – cerca de metade do que previam todos os economistas, analistas de banco e os especialistas do mercado”.

E desfila uma série de elogios ao atual presidente e ministro. Uma defesa do paraíso no qual o Brasil está mergulhado. É tão bom nosso momento que o texto do Guzzo virou instrumento de convencimento político desse meu amigo.

Só há um probleminha, que tenho apontado aqui: os números desse país maravilhoso não batem com a realidade de quem vive de salário. A conta não está fechando.  Guzzo já era ficcionista na Veja quando eu engatinhava para a profissão. O que me faz crer que Gajardoni se enganou ao meu respeito. Certamente eu teria sido demitido da “escola Guzzo”. Eu escrevo sim ficção, mas nunca ninguém leu. O meu ofício de repórter, editor e, ultimamente, blogueiro é lidar com a verdade. Como já disse aqui, há sim quem está com a vida em prosperidade. Mas um momento bom, um governo bom, não pode ser apenas para alguns. Os mais necessitados não podem ser tratados pelo viés de planilhas e gráficos, mas com gasolina, gás de cozinha, alimentação, livros, cultura… dentro do seu orçamento. E isso não está acontecendo.

Oxi… claro que não!

A oposição ao prefeito Rodrigo Manga tem cavocado o muro de proteção em torno dele com o objetivo de achar um buraquinho onde enfiar o dedo para provocar o início do seu abrupto rompimento.

A mais recente tentativa teve o seguinte enunciado: “Só estou perguntando, se eu chamasse para um sorteio 12.000 pessoas e fizesse o sorteio de 35 prêmios, mas não falasse a data de entrega… do que eu seria chamado?” É uma alusão ao programa habitacional do prefeito, carro-chefe da sua propaganda eleitoral durante a campanha, onde havia a promessa de moradias gratuitas aos mais necessitados, que depois de eleito recebeu o nome de Casa Nova Sorocaba.

Imagino que cada um de vocês, caros leitores, já imaginaram uma resposta para a provocação. E todos de algum modo acertaram.

Então fui conferir se teve algum efeito essa ação. E minha parada foi um papo com a Lê, mãe do Arthur de 9 anos, separada do marido, que trabalha como caixa de padaria, que decidiu votar em Manga porque ele lhe prometeu a sua casa própria. O modo como ela fala, e sempre falou, sempre me deixou, e ainda me deixa, a impressão que ele havia lhe prometido algo pessoalmente, mas não ocorreu isso. Esperei minha vez na fila para passar com ela. Minha pergunta foi: Você já se decepcionou com o seu prefeito? E ela irritada, talvez indignada, certamente com o meu tom, me respondeu: Oxi…claro que não! Por que estaria? E eu lhe disse: Já foram mais de 500 dias do governo e sua casa ainda não foi lhe  entregue. Ela, já com a voz calma que lhe é habitual, me disse então: Calma, ele está trabalhando. Ele tem quatro anos para começar a entregar.  Fui embora com a certeza que segue intacto o muro de proteção contra Manga, ou seja, ele tem aprovação popular o que significa, num português bem claro, que seguirá tendo paz na Câmara de Vereadores.