Autor: Djalma Luiz Benette

Ainda assim é melhor a bienal a tiro

Quando eu tinha 17 anos, e me mudei para Campinas para cursar faculdade, arrumei um emprego de vendedor na Livraria e Editora Papirus. Um dia um dos donos, seo Paulo, reuniu o gerente e alguns vendedores, entre eles eu, e fomos todos a São Paulo na Bienal do Livro daquele ano de 1985. Fiquei com um orgulho danado de mim mesmo por ter sido escolhido para ir na bienal.

Aquilo me atordou. Era muita gente. Minha experiência com multidão era o jogo do São Bento (rsss). Era o ginásio de esportes. Eu nunca tinha visto um lugar fechado tão grande. Bancas e mais bancas e estandes de livros. Brindes. Livros grátis. Folhetos e folders gratuitos. O visitante é sufocado. 

Uma semana depois, seo Paulo me chamou e disse: “Filho (sim ele usou este termo) eu não te pago para ler meus livros, eu te pago para você vendê-los”. E ele continuou: “A pessoa entra aqui para comprar um livro e você começa um debate com ele…” E prosseguiu: “Filho, e ele foi subindo o tom de voz, não quero saber se quem entra aqui vai levar o Walter Benjamin, o Jorge Amado, o Chico Xavier, Machado de Assis ou o livro da corujinha… Eu vendo isso aqui (e ele pegou um livro qualquer que estava ao alcance de sua mão e começou a chacoalhar no meu nariz) e não isso aqui (e ele começou a folhear o livro e a ler em voz alta).” Eu, timidamente, lhe perguntei: o senhor vai me demitir? “Nãoooo… vou botar você pra fazer pacote.” Também não deu certo, eu não tinha capricho para fazer embrulho bonito pra livro ruim.

Tudo isso repousava em algum canto da minha memória até o começo da tarde desta quarta-feira. Depois de ter almoçado feijoada num boteco da rua Santa Cruz na Vila Mariana, decidi ir à bienal.

Que arrependimento! 

Na avenida 23 de Maio, um infernal de um congestionamento fez o trajeto durar 54 minutos. Chegando lá, vi um estacionamento que quis me cobrar 45 reais. Fui, então, no oficial e custa 60 reais. Havia milhares de carros. O dono embolsou uma fortuna. Então não entrei e fui embora pensando que com esse dinheiro (os 60 reais do estacionamento) é possível comprar meu livro, que custa 50, ou o mais recente do meu amigo Márcio Blanco Cava. Temos a mesma editora, a Miraveja, que está na bienal com apenas 4 livros do seu catálogo (o meu não está entre eles). Na Estante Virtual, é possível comprar O Som e a Fúria de William Falkner (Palmeiras Selvagens, não dá, já aviso). Dá pra comprar Alberto Moravia (estou lendo e adorando 1934), mais atual que nunca neste Brasil fascista. Enfim, com o dinheiro do estacionamento é possível acessar o universo… Sem desperdício! 

Ahhh, falei só do estacionamento. Mas tem que pagar mais 30 pra entrar e sofrer com gente, aglomeração, poucos banheiros e nenhum bebedouro.

Eu nunca fui convidado para ir a bienal de 1985 por estar entre os importantes vendedores da Papirus para ir a Bienal, mas para ver que livro é livro independentemente de sua qualidade ou conteúdo. 

A 26ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo é, como sempre foram as bienais anteriores, apenas o “encontro das principais editoras, livrarias e distribuidoras de livros do país, que apresentam seus mais importantes lançamentos para ano”. Ponto. Nada mais. Qualquer outra coisa é papo dos noticiários que passam outra mensagem ao seu público: O importante do evento é o conhecimento, é a literatura, a pesquisa, o texto, o autor… Mentira! Só importa vender o objeto. Não que isso não seja importante. É. O autor fica com 8% do preço de capa e sonha em viver desse ofício. Sonha, pois não dá. 

A bienal nivela todos seus autores. Todos os livros são tratados como iguais.

Uma farsa!

Os livros são diferentes. Os autores… A qualidade… Não é enchendo o saco das crianças, levando elas para passar sede e fome numa bienal, que irá despertar nelas o gosto pelo  livro e o respeito pelo autor. Antes do consumidor, tem de existir um leitor. O Brasil (o mundo) precisa de leitura, leitores, e não de compradores de papel encadernados. Tá bom… eu sei que é melhor a bienal do que o clube de tiro. Mas esse assunto só existe num país que negligenciou (e não apenas está negligenciando) a formação de leitores. Isso vale tanto para o governo do sociólogo quanto para o do operário.

Rito de passagem, desejo, liberdade, segurança 

Duas adolescentes, na faixa dos 18, 19 anos, no máximo, aproveitaram a promoção de toda sexta-feira do setor de comida japonesa do supermercado Pão de Açúcar para comerem o que elas escutam que as meninas sêniores, suas colegas no escritório onde trabalham, almoçam.

O que chamou minha atenção, e a de todos à volta, foi a luta delas com os pauzinhos (hashi). Quando você se acostuma, eles viram uma pinça. Mas até se acostumar…

Depois, surpreendentemente, uma das meninas, disse que ela odeia peixe. E ninguém na casa dela come. E a mãe proibia o pai (sic) de comprar qualquer fruto do mar. Então, com os dedos, ela tirou o salmão que embrulhava a pelota de arroz. 

A outra, de repente, cuspiu o patezinho e bebeu num gole só o conteúdo de sua lata de Coca-Cola lilás (juro que nunca tinha visto uma lata dessa cor e sabor desse refrigerante). E ela disse, enfaticamente e um tanto em voz alta: Puta que pariu… essa porra tem gosto da morte. Arde tudo…

Disfarçadamente, eu ri. Eu adoro wasabi, que é uma pasta de raiz forte, e realmente queima. Mas passa rápido. E deixa um gosto na boca que eu gosto. Pensando aqui com meus botões, acho que ela definiu bem o gosto do wasabi. 

Depois de cutucarem o gengibre (gari), nenhuma das duas comeu. E o pepino (sunomono), depois de experimentado, foi deixado de lado: É doce!

Das duas bandejas de niguiri, ueramaki, yoo… só não sobrou o arroz. 

Então fico pensando como a cultura é poderosa. Em Sorocaba, depois da moda dos restaurantes de costela, e das churrascarias, a moda da comida japonesa já dura uma década pelo menos. Há um em cada esquina… Numa conta rápida, são uns 30 restaurantes de comida japonesa.

A pizzaria, sem dúvida, ainda é a mais popular. Imbatível desde os anos 70 quando a Pizza na Pedra conquistou o nosso coração e abriu a tendência. 

Quem não resistiu aos modismos, depois de três décadas e anunciou o fim de suas atividades é a Panqueca de Irene (já estou com saudades). Outro restaurante que chega ao fim é um exclusivamente vegano. Numa cidade fundada por tropeiros, não surpreende o gosto por carne e seus derivados.

Eu estava no Senai, onde entrei com 14 anos, e passei a ter salário, na verdade, meio salário mínimo por mês, para estudar. Era o suficiente para eu comprar o que queria: Uma barraca de camping em prestação no JumboEletro, uma peça inteira de presunto (não 100gr em fatias na padaria Príncipe da rua Balthazar Fernandes) e, como as meninas do começo deste post, fui no bar sozinho. Ficava na rua Miranda Azevedo, me sentei na varanda para que quem passasse na calçada me visse lá dentro, pedi uma cerveja (no começo dos anos 80 ninguém se importava de vender para menores de idade) e uma porção de azeitonas verdes. Me senti, então, integrado naquele momento à cultura onde vinha sendo forjado, a de um macho responsável por bancar os custos e ser o provedor. Foi um carimbo no ritual de passagem para uma vida normal: Ter emprego, se diplomar, casar, ter filhos, formar família… plantar uma árvore, escrever um livro…Fim! Desde então, vivo numa luta constante entre desejos, aspirações conscientes e inconscientes, que quase nunca estão ao meu alcance. Sei apenas que esse conflito carrega minha verdade, surge no lugar de palavras que não pronuncio, me ajuda a compreender o que diz sobre mim mesmo e a viver concomitantemente com minhas aspirações de liberdade e necessidade de segurança.

E viver a dor não se compara a imaginá-la

No dia 24 de maio de 2019, quando a Operação Casa de Papel da Polícia Civil de Sorocaba, que apurava desvios de dinheiro na Prefeitura de Sorocaba, cumpria mandados de busca e apreensão nas casas de então três secretários municipais e formaliza que o prefeito Crespo passava a ser investigado por aqueles crimes, Márcio Leme, advogado de defesa do então prefeito me disse sobre o desfecho de tudo: “Qualquer informação sobre isso ou qualquer outra dúvida será apenas especulação. É uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Temos que aguardar” (https://odedaquestao.com.br/operacao-casa-de-papel-entra-na-segunda-fase-entenda/).

E isso foi feito durante os últimos três anos, um mês e quatro dias: Aguardar!

Agora, a decisão do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do Ministério Público, em documento assinado em 9 de junho, mas que foi divulgado na última terça-feira, afirma: A densa massa de provas relacionadas aos crimes de organização criminosa, crimes licitatórios, corrupção e outros, que instruem a ação do caso, não restou configurada por ora, a lavagem de capitais. 

Traduzindo, não serviu para nada. Isso do ponto de vista legal. O trabalho do então delegado Marcelo Carriel, do ponto de vista político, foi exemplar.

Em sua rede social, Crespo – que além de ter perdido o mandato de prefeito, perdeu sua reputação – desabafou: “Folha 184 (processo 1503696): “Não existem os indícios noticiados nos autos contra o prefeito José Crespo”, ou seja, “as acusações eram falsas e fizeram parte da armação política para derrubá-lo e tomar indevidamente o poder em Sorocaba”.

É o que sobra. Desabafo!

Infelizmente, nada que vier a acontecer agora vai apagar tudo o que os acusados viveram, sofreram e perderam. E ninguém se importa com isso. Porque se importar, necessariamente, fará com quem cada um olhe pra si mesmo e diga de que forma participou, contribuiu ou colaborou para a dor deles. E ninguém quer isso. Dizer que o problema é do outro, e eu não fiz nada, é mentiroso, mas o mais simples.

A verdade é que essa decisão da justiça não faz nada voltar atrás. Os investigados foram condenados na investigação e a pena foi terem sido cancelados.

E isso não se refere a somente a Crespo que foi eleito com mais de 125 mil votos e na eleição seguinte teve míseros 500 votos. Diz respeito a quem caminhou com Crespo e não consegue, por causa disso, arrumar um simples emprego, pois quando vêem quem é preferem contratar outro. Diz respeito a quem viu a família ruir e os “amigos” se afastarem.

Ouvi de um dos acusados, que foi conduzido à delegacia, que irá processar o Estado por danos morais para tentar ganhar algum dinheiro. 

Ouvi que estudam uma forma de acionar o delegado Carriel na justiça, alegando uso político da polícia.

Pouco importa, pois nada disso vai reparar a dor que apenas quem a viveu pode dimensioná-la. E viver a dor não se compara a imaginá-la.

Gordo não é confiável!

Rafael Nadal evitou uma zebra em sua estreia em Wimbledon 2022 e venceu o jovem argentino Francisco Cerúndolo depois de mais de 3 horas e meia de partida na última terça-feira.

Tênis parece um jogo físico, e o é evidentemente, mas é muito mais metal, estratégico e psicológico.

Em uma partida de tênis são 12 juízes divididos em juiz de cadeira, juiz de rede, juízes de linha lateral e central, juízes de serviço e juízes de saque.

Ainda no primeiro game do primeiro set, a TV deu um closet em Cerúndolo quando o jogo estava parado e quem apareceu em segundo plano foi um juiz de linha. Sua aparência é antagônica ao tênis ou qualquer outro esporte: era um gordo mórbido. Não era gordo apenas, mas muito gordo. 

Para estar trabalhando em Wimbledon, um dos mais tradicionais e importantes torneios do mundo, seguramente esse árbitro tem qualidade incontestável.

Não pude evitar de me lembrar de um episódio, ocorrido há uns 15 anos, quando o ex-prefeito Renato Amary foi eleito deputado federal e formava a sua equipe de trabalho. Ele escolheu quem seria próximo a ele e delegou a essas pessoas próximas a contratação do restante da equipe. Depois de analisar vários currículos um desses assessores escolheu uma pessoa e outra assessora vetou o nome sob o argumento de não ser confiável. Então o assessor questionou: como você sabe, você nem o conhece. E a assessora retrucou: ele é gordo. E gordo não é confiável. 

Quando eu estava no jornal Bom Dia, que era em rede, ouvia histórias dos bastidores dos principais veículos do Brasil e soube de demissões no Estadão, Folha, Abril pela razão da pessoa ser gorda. Recentemente, com o advento das redes sociais, os gordos demitidos denunciam o motivo. Há casos notórios, dois ou três deles na TV Vanguarda cujo o dono é Boni, o todo poderoso do início da rede Globo.

Fico pensando se os ingleses são diferentes pela presença do gordo mórbido como juiz no jogo que vi nesta terça-feira. Ou se há uma história por trás, tipo o juiz de linha ter entrado na justiça e ter ganho o direito de exercer seu trabalho. Pois de todas as histórias do Brasil, essas que relatei, incluindo a do ex-deputado sorocabano, há a negação de que o gordo é rejeitado por ser gordo. Sempre se arruma uma desculpa social e juridicamente aceita. Nunca lhe dizem: não te quero porque você é gordo. O preconceito é dissimulado.

Os números mostram que gordo não quer ser gordo, raríssimas são as exceções. Prova disso é que entre 2011 e 2018 o número de cirurgias bariátricas no Brasil aumentou em 85% e houve uma explosão de clínicas que buscam clientes para auxiliar a eles no emagrecimento. Seja qual for o caminho escolhido, há a necessidade de um acompanhamento profissional para o lado emocional de cada gordo, pois quase sempre a comida (em excesso e de qualidade duvidosa) é a compensação de alguma carência. O padrão de beleza (magro) e a busca por ser aceito socialmente torturam desde a década de 90 quem não resiste a abundância de comida processada, vendida em embalagem, com abundância de sódio, de muito sabor (fast food) que estão muito longe do que se chama comida de verdade.

Pernas cruzadas e o legado normalizado

Sentei para tomar café no Franz do hipermercado Confiança no começo da tarde desta segunda-feira e  na mesinha da minha frente um homem, aparentemente na faixa dos 55 anos como eu, cruzou as próprias pernas. 

Parece pouco. Mas para quem carrega 30 kg a mais do que o ideal há décadas, como é meu caso, isso é admirável. Ele parece confortável. Sua mensagem é a de alguém com domínio sobre a própria vida. 

Que ilusão!

Ainda mais depois da “grande” notícia de hoje que nos faz saber que Estados Unidos e Europa entrarão em recessão econômica no final deste ano e viverão a pior crise econômica desde o pós-guerra em 2023 e que essa situação vai atingir a China e quando lá chegar vai respingar sobre a produção e emprego no Brasil.

Saber disso não me serve de nada, apenas me conforta que a culpa não é minha. Minha culpa é me manter acima do peso. Talvez seja inconsciente, algo como ter energia para um período onde a carestia trombe comigo. 

No sábado me atrevi a comentar na postagem de uma amiga, o quanto desastrosa é a defesa dela do governo atual. Ela argumentou que a experiência de viver treze anos no PT torna possível saber o que vem pela frente caso Lula ganhe e, por isso, ela prefere manter o atual governo porque os três anos e meio é um período muito pequeno para uma avaliação justa, principalmente pelos problemas causados pela pandemia.

Já tinha visto, lido e ouvido argumentos variados de defesa do atual governo, todos que se resumem no cunho ideológico da preferência, mas falta de tempo para fazer uma análise é a primeira vez. 

Voltei a me concentrar no homem de pernas cruzadas e, quando percebi, elencava mentalmente porque o atual não é opção: começa pela veemente defesa que ele faz de um assumido torturador de gente. Depois o desprezo pela vida, algo evidente nos doentes de Covid19; na luta contra a vacina até chegar no incentivo ao extermínio do povo original (índios). Então penso no aniquilamento da cultura e no desrespeito e desprezo pela educação e ciências. Me indigna a insana luta dele contra as instituições (voto eletrônico, poderes de justiça, adversários políticos…).

Então me lembrei de como é eficiente e eficaz sua máquina de destruir pessoas e reputação. Nesta manhã, enquanto eu tomava a 4° dose da vacina contra a Covid, uma senhora saiu da fila quando descobriu que a vacina era do Dória (sic), ou seja, a Coronavac. “Essa é a do governador que não gosta do presidente, não é boa. Eu quero a da Pfizer”, disse ela. A funcionária argumentou que essa vacina é boa e todos funcionários da saúde tomaram essa… “Não quero a desse (Dória) aí” ela disse e foi embora.  Se as pessoas que defendem a democracia não se indignarem, o legado do atual governo estará normalizado. E isso se resume a aniquilar quem não é igual. Esse é o combate dessa eleição.

Gente ruim não morre

O inverno chegou na última terça-feira e ninguém lhe atribuiu algum significado. Chegou como chegam os dias, qualquer um deles, sem alarde.

Estamos (a sociedade em geral) sob a nova estação do mesmo jeito que estamos submersos nos fatos que nos assombram: uma juíza incapaz de decidir sobre a gravidez de uma criança de 10 anos; um ministro preso por corrupção no “governo sem corrupção”; o Palmeiras ganhando todas; as luzes dos postes sorocabanos acesas durante o dia e apagadas à noite…

A nova estação, o novo dia, os novos fatos seguem sem capacidade de sacudir a nossa (da sociedade) inércia dicotômica iniciada em 2013 quando jovens se revoltaram com os 20 centavos de aumento na passagem de ônibus. De lá para cá se foram nove anos e nada, absolutamente nada, indignou mais ninguém. A gasolina pulou de R$ 2,38 para E$ 6,79 e seguimos (a sociedade) enchendo o tanque. Bovinamente!

Estarrecido, recebi de um amigo a postagem de outro onde o sujeito, certamente por teimosia, dizia preferir pagar R$ 10,00 no litro da gasolina a votar no PT. Fosse esse sujeito um dos acionistas da Petrobras que recebeu algum dos 24 bilhões de dividendos pagos a quem tem ação da estatal haveria algum sentido. Mas é um idiota apenas. Que teve seu bom senso corrompido nos últimos 9 anos.

Os números dos gráficos (vale lembrar que um gráfico é da cultura, ou seja, feito por algum ser humano) estão excelentes. Pelo gráfico, nós (a sociedade) não estamos devendo nenhuma parcela do carnê; comemos 4 refeições por dia; jantamos em restaurantes; vamos viajar para onde programarmos (no Brasil ou fora) nas férias (porque somos CLT e não Eireli); e vamos dar o Sedan como entrada para nossa SUV, afinal o preço da gasolina está incorporado no orçamento doméstico.

Fora do gráfico… Ahhh, fora do gráfico…

O brasileiro é gente ruim, não morre. Vocês sabem que só gente ruim não morre, né! Se tirar essa gente do gráfico estamos (a sociedade) todos bem.

Eleição colombiana e os extremos brasileiros

Os eleitores de esquerda aqui no Brasil usaram as redes sociais para fazer uma onda de alegria com a vitória de Gustavo Petro para presidir a Colômbia. Petro, em sua juventude, foi integrante do Movimento 19 de Abril (M-19), grupo guerrilheiro que buscava impor ideias por meio das armas. Petro tem perfil similar ao de Dilma Rousseff, também guerrilheira em sua juventude.

Outro fato histórico no país é a eleição do vice-presidente ser mulher, preta e líder sindicalista, Francis Márquez, sobrenome do seu conterrâneo Gabriel Garcia um dos mais famosos escritores do mundo. 

Praticamente toda publicação dos esquerdistas brasileiros tinha um mapa com os presidentes de esquerda eleitos recentemente na América Latina. Uma espécie de contagem regressiva pela volta de Lula.

Mas a eleição de domingo na Colômbia também mexeu com os eleitores que desejam que o atual presidente brasileiro siga no cargo. Eles se aproveitaram do mesmo fato, a eleição colombiana, para fazer propagar a ideologia deles, ou seja, o medo. Eles passaram o dia de ontem alertando para o perigo que avança sobre o Brasil com a formação da Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), um neologismo com a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) ou com o Foro de São Paulo.

São provocações de lado a lado para reforçar as convicções de cada ideologia. 

Porém, primeiramente é preciso distinguir o eleitor antibolsonaro do lulista, petista e esquerdista. Esse eleitor não é do partido e não compactua da força para diminuir a histórica desigualdade social do país. É o eleitor horrorizado com o péssimo comportamento de Bolsonaro de total desrespeito à liturgia do cargo para o qual foi eleito. É o eleitor que tem náuseas só de lembrar da falta de empatia do presidente, como ocorreu recentemente com a morte de Bruno e Dom. É o eleitor que não quer saber se o presidente se chama Luiz, Geraldo, Jair, Ciro… É o brasileiro que deseja paz para tocar sua vida.

Quem usa de qualquer fato, como a eleição colombiana, vive essa obsessão do noticiário político como o entretenimento preferido dos veículos de comunicação.

Foi o eleitor desta esquerda, confessadamente descontente e desconfiado por Lula ter escolhido um vice de centro, social-democrata, neoliberal, respeitado pelo deus mercado, como Alckmin, que empanturrou  a rede social formando essa onda da contagem regressiva pela volta de Lula a partir da eleição colombiana. 

O eleitor de extremadireita, lunático, se dedicou a compartilhar um vídeo do capitão Assunção (não faço ideia de quem seja e nem quero saber) dizendo que não existe democracia no Brasil, que as instituições e imprensa estão tomadas por esquerdistas e que basta o comandante dar uma ordem que eles estarão na rua para limpar o Brasil do comunismo.

Parece piada. É cômico. É um dejà-vu. Mas eles estão aí usando a eleição colombiana do mesmo jeito que a esquerda usa, apenas com cada um puxando a sardinha, no caso argumento, para o seu lado. Infelizmente a eleição de outubro próximo se tornou uma escolha entre a sanidade democrática (representada por Lula, Ciro e Simone…) e o lunático, fascista, mentiroso. Nada será pior do que o não-governante que está aí seguir no cargo. Nada!

A guerra estética e consequentemente ética

A música “Terra” de Caetano Veloso é um divisor de minha história. Eu tinha 17 anos quando a ouvi pela primeira vez, morava em Campinas onde havia me mudado para estudar na faculdade de jornalismo, e me foi apresentada por Carlos Magno (que morreu tão jovem) assim como Stravinsky, Edgar Alan Põe, Franz Kafka, Kandinky, Paul Klee e um mundo que me completou, acalmou e deu sentido.

Dias atrás, uma amiga da vida, amiga do passado e futuro, me contou ter lido uma postagem de um psicanalista cujo o paciente, esquizofrênico, se acalmava ao ouvir  “Terra”. A letra é importante, obviamente, mas a melodia, o ritmo e estrutura da canção é o que me toca.

Me lembro disso tudo ao ver a capa da Veja Rio com os oitentões que tanto amo: Milton Nascimento é um capítulo à parte em minha vida, uma fonte de energia, de que existir faz sentido.  Paulinho da Viola me mostrou que o samba é um requinte sedutor como um fim de tarde vendo o Sol se deitar atrás da montanha. Gil, frenético, numa entrevista coletiva no ginásio do Guarani, onde ele se apresentaria à noite, pegou minha coxa com energia e perante todos me inquiriu: você não acha? Eu fiquei aturdido. Não prestava atenção. Apenas desfrutava estar tão perto de quem eu tanto admirava. Caetano, que veio a Sorocaba pela última vez em 1989 ou 1990, e fui lá eu entrevistá-lo sozinho no camarim do Recreativo, tirei foto dele apenas de cueca, deu liga nossa conversa até que chegou Zé Desidério e Kiko Pagliato para conversarem com ele e me retirei. Daquele dia em diante, toda vez que Caetano se apresentava em Campinas ou São Paulo, eu ia lhe dar um oi e ele mandava eu entrar. Numa dessas topei com Paulo Leminsky que andava atrás de Caetano insistentemente. Caetano tentava evitar. Não sei o que ele quer, disse Caetano. Eu também não sabia naquele momento. Depois vi que queria o impossível, que é ver a obra na pessoa. O artista é uma pessoa “normal” que faz coisas geniais, sua obra. 

E lembrando deles todos e da qualidade do que fizeram me pergunto o que aconteceu com as novas gerações que se distanciaram da qualidade dessa música. No começo da noite de sexta-feira passada, voltando de Itapetininga, no pedágio de Araçoiaba, a moça que cobrava o bilhete ouvia num volume exagerado uma dessas porcarias feitas por Gustavo Lima, Marília Mendonça ou qualquer um que o valha.

O momento que o Brasil vive, essa foi minha conclusão passando o pedágio, é fruto dessa estética. O primeiro golpe é sempre o estético, pois na sua esteira vem o ético. Ambos são indissociáveis. E a prova de que o Brasil perdeu essa guerra não é só a existência de Bolsonaro (e seu Ryder, calça de ginástica e pote de margarina…), mas a força do agronegócio que aniquila o meio ambiente (e patrocina essa música), a maioria de jovens corrompidos esteticamente (pelo sertanejo universitário) e o cansaço (de tudo) da minha geração.

Bruno, Dom, Tim…

Quando o jornalista Tim Lopes morreu, fato ocorrido bem antes do advento da Internet, ao ser descoberto numa das favelas dos morros cariocas, me lembro de ter escrito algo sobre o fato dele saber o risco que corria.

Os noticiários da época disseram que Tim Lopes foi morto por traficantes. História que eu nunca acreditei. O que ele poderia dizer que já não fosse de conhecimento público, ou seja, no morro há traficantes e drogas. Sempre achei que ele descobriu algo que seria chocante, tipo a polícia protegendo os traficantes (o que apareceu anos depois nos filmes do José Padilha), alguma figura pública ligada ao financiamento do tráfico, outras apenas consumidoras… Enfim. Alguma novidade. 

Essa sana de contar é o que pulsa no jornalista. É mais forte que ele essa vontade, é necessidade de se expressar.

O indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, agora com as mortes confirmadas, tinham esse sentimento arrebatador de nos contar o que eles haviam descoberto numa das regiões mais inóspitas da Amazônia. (Aliás, selva, índio, primitivo… são os temas que os europeus legitimam como sendo “permitido” de serem abordados pelo Brasil. Se não se fala desses temas, não se está falando da identidade brasileira. Falar de qualquer outro tema é negar a si e se apropriar de algo do colonizador).

Bruno e Dom foram imprudentes ou irresponsáveis? Não. Mas ousados, sim. Eles poderiam ter mantido distância para se resguardarem. Dom, pelo que leio das pessoas próximas a ele, tinha “o sonho de salvar a Amazônia”. É ousadia, mas prepotência também. E isso não é culpá-los. É dizer o óbvio. 

Em Sorocaba, o que não é exclusividade daqui, mas de qualquer cidade média ou grande, a polícia sabe da existência de ruas onde é proibido circular sem autorização do crime organizado. Quem manda é o traficante. Não entra carteiro, não entra entregar de jornal, não entra Mercado Livre… a não ser com autorização. 

Tim Lopes virou “herói” quando morreu, emprestou seu nome a prêmio de Direitos Humanos… E hoje ninguém mais sabe quem ele foi, o que fez e porque foi executado. 

Que a pressão internacional evite que o mesmo ocorra com Bruno e Dom. Que as urnas dêem a Bolsonaro a resposta adequada para a ofensa que ele fez aos dois, responsabilizando-os pelo ocorrido, negando a sua própria responsabilidade por suas ações e discursos incentivadores do crime organizado na Amazônia. Bolsonaro não pode ser apontado como o mandante desses crimes, mas como o responsável, pode sim. Não há dúvidas disso. Assim como o consumidor das drogas traficadas nos morros cariocas é o responsável pela morte de Tim. Assim como quem compra seu baseado para simples recreação, de modo inofensivo, também é o responsável pelo poder do crime organizado.

Olá… tudo bem?

Eu tenho o hábito de frequentar algumas padarias como a Real, Panicenter, Simus, Santa Rosália e de brincar, sempre que a circunstância permite, com a pessoa do caixa, geralmente mulheres jovens. 

Isso cria uma ilusória intimidade, mas que permite eu saber que “ontem” o filho de uma delas tinha 2 anos e hoje já completou 8, como minha neta.

Uma dessas caixas que, por algum sinal trocado, eu achei que fosse filha do dono e ela gargalhou explicando que não era, embora achasse que seria uma boa ser, me repetiu seu mantra agora há pouco: Oi…tudo bem?

Então eu lhe disse… Bom… tirando o fato de hoje ser dia 15 e eu estar pagando esse cafezinho com o cheque especial… Tirando uma dor de estômago que apareceu no dia 27 de maio e me persegue desde então…Tirando o fato de só ouvir não nas portas que bato atrás de um emprego. Tirando…

Então ela me interrompeu e imperativa me disse: Moço… e pelo olhar ela conduziu o meu para ver a fila que se formava. E ela soltou a gargalhada, uma de suas boas características, para depois me dizer: A gente pergunta se está tudo bem, mas na verdade não quer saber não… 

Eu ri e lhe disse: Agora que eu ia falar do cinismo desse país que busca por um indianista sumido na Amazônia só porque junto dele havia um gringo, senão seria mais um… Agora que ia falar da contradição do Paulo Guedes que se diz do liberalismo econômico, mas cria uma confusão tributária para, talvez, baixar 1 real no preço da gasolina na bomba, o que vai frustrar quem precisa usar o carro… Agora que eu ia falar que precisou vir um vereador de São Paulo para resgatar o cachorro judiado num condomínio de Sorocaba… Agora…

Moço, moço, moço… amanhã a gente conversa mais. E ela me dispensou. Eu segui meu caminho “curtindo” minha vida de princeso, neologismo criado pela minha filha por eu lhe contar como foi meu dia: Hoje foi hidroginástica, amanhã de musculação… Levar neta na escola. Ir no açougue, peixaria, mercado… Fazer almoço e lavar louça… Dar comida pro cachorro e gatos…Dirigir… Ler, escrever, pensar…