Autor: Djalma Luiz Benette

A vida reduzida numa dúzia de citações

Quando vi na prateleira o livro com a história do Jornal da Tarde (“Uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira”, de Ferdinando Casagrande) me deu uma nostalgia de um tempo que não existe mais.

Meu primeiro impulso foi: O que fala de Ulysses Alves de Souza? 

Assim como outras publicações do gênero, esta também tem um índice remissivo e com os nomes de seus personagens citados nas páginas onde eles aparecem. E meu deu orgulho danado em ver o Ulysses em quase uma dúzia de citações. 

Fui em uma a uma.

Na primeira, seu apelido, Uru. Em outra, secretário de redação. Numa a mais, sargentão; exímio treinador de focas (jovem que está entrando na profissão); parceiro que decidiu se demitir quando o chefe (no caso Mino Carta) foi tirado do comando do jornal…

Ulysses, por esses acasos da vida, aterrissou em Sorocaba. Sim, este é o termo, pois como o seu apelido, ele era um pássaro raro que soube voar como poucos. Ele veio dirigir a redação do extinto jornal Cruzeiro do Sul (o que existe hoje, infelizmente, o centenário matutino, não passa de uma caricatura do grande jornal que já foi).

Ulysses era amigo de Luthero Maynard (hoje octogenário e bastante ativo no Facebook) cujo a esposa é irmã da então esposa (hoje viúva) do então presidente da fundação mantenedora do jornal. O presidente queria um novo editor e comentou com a esposa que comentou com a irmã que comentou com o marido que indicou o amigo… e aqui Ulysses chegou. 

Era um espírito livre, um sujeito além do seu tempo e lugar. Chegou aqui quando tinha 62 anos de idade. Ele ficou impressionado com a ignorância que encontrou. Ninguém fazia ideia de quem ele era e do que havia feito. Sua contribuição para a cultura do jornal impresso e pela busca constante pela qualidade de um texto são feitos raros.

Eu tive sorte, não consigo pensar em outro fator, de ser a pessoa na redação a recepcioná-lo e a ajudar a traduzir a maçonaria, o sorocabano e seus dirigentes, pois conhecer a localidade são elementos essenciais para se fazer um jornal.

Dono de um humor refinado, Ulysses não escondia as dores das consequências de suas decisões e ações ao longo de sua vida pessoal e profissional.  Ver o gigante Ulysses resumido à dúzia de citações de um livro, citações incapazes de ao menos ser o indício de quem ele foi, me soaram ingratas e ofensivas. Ulysses merecia uma biografia só dele para que as novas gerações soubessem mais sobre a sua contribuição na construção da identidade de um profissional hoje em extinção: o jornalista.

Chega de ofensa. Momento exige complacência

Tenho me dedicado muito mais à leitura de romances ou a ver filmes e séries no streaming, nos últimos dois anos, do que ao  noticiário. Tenho me policiado, também, ao tempo que abro o Facebook e vejo o que passa na minha linha do tempo. Ao Instagram dou zero do meu tempo. O WhatsApp, sendo uma espécie de telefone escrito, é minha rede preferida, sem dúvida. 

Neste domingo, nos minutos que dediquei ao Facebook, recebi do amigo Carlos Alberto Maria, um decano do jornalismo local, o compartilhamento que ele fez da capa do jornal Folha de S.Paulo com a manchete: Brasil fica mais pobre embaixo do governo atual. E o primeiro comentário é de outro amigo Jorge Fernando Moysés Betti, cujo o pai foi vereador e o avô, por substituição, prefeito de Sorocaba, dizendo: “Folha lixo”.

Moysés Betti, que não tem parentesco algum com o ator Paulo Betti, assumidamente lulista e petista, ideologicamente sempre foi conservador e os seus valores morais se identificam com o atual presidente. Mas isso não faz de Betti um imbecil e muito menos ignorante.

Então, me pergunto, o que faz ele dar essa resposta classificando a Folha de lixo?

A primeira resposta que encontrei, depois de dedicar a tarde de domingo a essa reflexão, é: Não é uma resposta intelectual ou racional, mas puramente emocional. Sendo assim, pouco ou nada adianta explicar o que é jornalismo ou fake news como fiz numa de minhas postagens recentemente. 

Depois me veio à memória algo que tenho percebido há anos, quando esse movimento rumo à extrema direita, em 2013, começou a ganhar força: De que apenas idiotas, imbecis e ignorantes acreditam como sendo verdade a enxurrada de mentiras que estão na rede. Me lembro de ter discutido com o Fernandão, que havia sido do Conselho de Leitores do extinto jornal Bom Dia, ao vivo no extinto Jornal Ipanema de rádio, sobre o atual presidente, então candidato, e xingado ele de imbecil. Algo que rompeu nossa relação de civilidade desde então. 

As respostas dos bolsonaristas são baseadas no emocional, portanto, a contestação sobre eles não terá efeito se feitas pelo racional. E o mais importante: não se deve desejar “ganhar” uma discussão com um bolsonarista. Muito menos deve se desejar envergonhá-los. Li, atribuída ao escritor Luiz Fernando Veríssimo, a afirmação: Nós temos razão, eles as armas, numa referência ao assassinato por razão política de um policial eleitor do Lula em Foz do Iguaçu. Ouso discordar, eles têm a emoção (irracionalidade).

É preciso achar um caminho de diálogo onde a razão se sobreponha à emoção de modo civilizado, sem soberba, sem caça às bruxas, sem deixar ninguém constrangido.

Mudar de opinião não é sinal de fraqueza moral, ética ou intelectual. Ao contrário. Enquanto houver postagens abordando de modo jocoso quem muda de opinião, como vi hoje a respeito do cantor Lobão, haverá radicalidade. Cada vez que um imbecil é chamado de imbecil ele reforça sua convicção de manter a sua opinião por medo de passar vergonha. Sua convicção lhe dá conforto e mudar de posição, não. Por isso é preciso um caminho para essa transição. Chega de ofensa. Momento exige complacência.

A harmonia da sociedade depende da harmonia de suas famílias

Protegido pela distância, no alto do palácio que preserva a memória, história e ação visual do Brasil, o Instituto Moreira Salles, na avenida Paulista, outrora o metro quadrado mais caro da América Latina, eu me deparo com o que mais me choca e assusta: famílias inteiras que não conseguem mais ter um local para morar.

Eu luto diariamente para chamar a atenção dos meus pares com a intenção de não permitir que eles “normalizem” a pobreza na qual estamos acentuadamente mergulhados.

Jonathan Frazen, meu autor estadunidense vivo preferido, na introdução à edição de 2002 do livro “O Homem no Terno Cinza de Flanela”, de Sloan Wilson, de 1955, defende a ideia que o livro trata do conformismo de uma sociedade e de que “a harmonia de uma sociedade depende da harmonia de cada uma de suas famílias”.

As famílias das pessoas morando no vão livre da avenida Paulista estão despedaçadas.

As famílias das pessoas que estão na calçada, no ponto de ônibus, esperando a condução que lhes levarão novamente para suas casas, ainda resistem.

Esse desequilíbrio não pode ser “normalizado”. Tem que chocar!

Como chegamos até esse ponto?

Isso pode ser entendido a partir do economista Pérsio Arida, um dos formuladores do Plano Real, e coordenador do Plano de Governo da chapa Lula/Alckmin, na entrevista que ele concedeu à jornalista Anais Fernandes, do jornal Valor Econômico, onde explicou o momento pelo qual passa o país: “Nosso primeiro compromisso tem que ser com a democracia. Estamos vivendo um retrocesso civilizatório. Ameaça às instituições, esvaziamento dos órgãos de controle, irresponsabilidade com o meio ambiente, estímulo à violência, cortes ao financiamento da ciência, o desastre das escolas fechadas durante a pandemia, a defesa da hidroxicloroquina e a demora em comprar vacinas. A política econômica desse governo é lamentável: nenhum progresso na reforma tributária ou administrativa, a economia brasileira continua fechada, a única privatização que houve foi a pior da nossa história e os furos do teto de gastos são vexaminosos”. Não dá pra aceitar o que está aí e muito menos razoável é desejar que continue.

Porque as pessoas acreditam em fake news

Esperava minha vez de ser atendido pelo meu cardiologista na tarde de ontem, terça-feira, e a sala de espera da clínica, de repente, parecia um barzinho, ou algo assim, de tantos conhecidos que estavam lá como eu, para ver se está “tudo certo”, se é possível adiar, quem sabe evitar, um mal-súbito. 

Ir ao médico e passar por uma bateria de exames é apenas uma ilusão de que há algum tipo de controle sobre nós mesmos. Ir, diariamente, à academia e hidroginástica também é. São ilusões que confortam e não nos derrubam emocionalmente.

Cumprimento um, outro, mais outro e páro ao lado de uma conhecida de 40 anos, seguramente. Falamos sobre alguns pontos que nos conectam e então ela, vendo em mim alguém que domina o tema, me perguntou: Por que você acha que as pessoas consomem e acreditam em fake news ao invés do que diz a Ciência? 

Vejam, ela não quis saber da preferência das pessoas pelas fake news ao que dizem os jornais (independentemente de sua plataforma). É um detalhe importante. 

Comecei dizendo que esse fenômeno é fruto de uma decisão de 2015 da então empresa Facebook (hoje a empresa é Metaverso e o Facebook apenas um braço dessa megaempresa) em taxar financeiramente os veículos de comunicação que usam a rede. Isso fez com que em 7 anos, neste 2022, apenas 4 de 1.000 usuários desemboquem, numa simples navegação, em algum veículo de comunicação.

O que isso significa? 

Primeiramente é preciso entender que jornalismo fala de fatos que na maioria das vezes não é o que uma pessoa quer saber. Jornalismo é o contraditório, é a provocação, é o fato checado.

O seu contrário é a fake news, ou seja, é um tema com aparência de notícia, vejam, aparência somente, dizendo o que a pessoa quer ouvir. 

Conclusão: a decisão do Facebook em 2015 fez com o algoritmo desviasse o seu usuário da informação séria (jornalismo) e o conduzisse ao que ele queria ouvir (fake news). Mas, evidentemente, sem dizer a esse usuário que o que ele está lendo tem alguma seriedade. Por isso há, só a título de exemplo, fake news cômicas como acreditar que a Terra é plana, e sérias, como dizer que vacina contra a Covid faz mal.

Mas qual o motivo de se propagar fake news? Poder. Informação é poder. Há uma indústria de criadores de fake news aglutinando pessoas dispostas a acreditar na mesma coisa e quando todos estão ajuntados se indica algo do mundo real para eles trabalharem. Isso ajuda a explicar tanta gente acreditando e se dedicando ao presidente que ainda ocupa o posto no Brasil

O assunto parou aí porque cada um foi chamado ao seu médico. Fico feliz por ter tido a chance de lhe dizer isso. No mínimo, com sutileza, sem ser agressivo, e falando a verdade, deixei uma pulga atrás da orelha dela. Como tenho dito, a escolha nesta eleição é pela democracia.

Se você me engana duas vezes, a culpa é minha

O episódio ocorrido no Hospital Estadual da Mulher Heloneida Studart, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro,  onde o médico anestesista Giovanni Quintella Bezerra, de 32 anos, foi preso em flagrante depois que funcionários da unidade o filmaram introduzindo o pênis na boca de uma paciente que estava desacordada em razão da anestesia que ele aplicou nela para um parto cesariana, indignou a todos nesta segunda-feira, quando o fato veio à tona.

Orientado ou não por sua assessoria, o presidente dessa vez ficou do lado certo e externou a indignação do brasileiro.

Sua manifestação de agora, porém, não apaga a que ele fez alguns anos atrás, quando era deputado, e afirmou que só não iria estuprar outra deputada porque ela era feia.

Falar o que o senso comum deseja de um candidato num momento extremo como esse de São João do Meriti não é suficiente para apagar a sua história. Não apaga o fato dele ser misógino. Não apaga ele atrair pessoas como este criminoso anestesista (declaradamente bozonarista) e incentivá-las à violência, ao terror, à negação do outro.

Difícil, para mim está impossível, pensar em algo que atenue o ato desse anestesista. Não consigo imaginar que castigo ele mereça para reparar o mau que ele causou (ou vinha causando pois não imagino que tenha algo isolado). O meu sentimento de dor, e o de tantos outros brasileiros, é real. Não é estratégia de marketing eleitoral e então me lembro de ter lido dias atrás um ditado americano dizendo assim: Se você me engana uma vez, a culpa é sua. Se você me engana duas vezes, a culpa é minha.

Estamos acostumados com assassinatos

O pior mal é aquele ao qual nos acostumamos…

Essa frase, atribuída ao filósofo existencialista Jean-Paul Sartre “pulou” na minha timeline do Facebook na tarde de sexta-feira e me fez sentido.

São dezenas de publicações que passam pela minha frente e não foi por acaso que prestei atenção nessa, especificamente. Houve um bom motivo. 

De manhã, na saleta de espera para dar o horário de entrar no recinto da piscina onde faço hidroginástica puxei conversa com a única pessoa que estava ali, uma mulher, faixa dos 40 anos, olhos puxados à japonesa e não a nenhum outro país do extremo oriente. Não sei o motivo, mas sempre acerto a nacionalidade de descendência da pessoa em questão quando me proponho a fazer essa distinção. Os japoneses, chineses, coreanos são muitos diferentes, embora o senso comum (preconceito) das pessoas diga o contrário.

Comecei perguntando se ela já havia estado no Japão e ela me disse que não, mas enfatizou que tem vontade de ir… a passeio. Seu tom de voz frisou o a passeio. O que me fez indagá-la: Não quer ir para trabalhar? (foram milhares de descendentes que foram trabalhar no Japão nos últimos 30 anos) E ela respondeu: Ahhh, é muito rígido. Lá se trabalha 12 horas por dia sete dias na semana. É bom para ganhar, economizar e voltar para gastar aqui. Quando se tem disciplina é bom, mas eu não quero isso pra minha vida, ela me disse.

Quando pensava em encerrar o assunto, já que estava dando a hora de entrar na piscina e outros sócios do clube começaram a ocupar a salinha de espera, resolvi falar da tragédia da manhã de sexta-feira (horário do Brasil) onde um homem construiu uma arma de fogo e matou com um tiro o ex-primeiro-ministro japonês que estava em campanha política para ser reeleito ao mesmo cargo. Então após alguns comentários ela disse com clareza: Esse crime é mais chocante porque lá não tem crime, não é como aqui que todo dia umas 50 pessoas são assassinadas (sic)… É mais de 50 por dia. É mais que o dobro. (O Japão tem 125 milhões de habitantes e registrou 32 mortes por armas de fogo ao longo de todo o ano de 2020, segundo o Small Arms Survey. O Brasil tem 212 milhões de habitantes e registrou 39 mil homicídios por arma de fogo em 2020, ou seja, uma média de 40 mortes por dia, segundo o Fórum de Segurança Pública.

Confesso, fiquei estupefato com a simplicidade com que ela falou isso.

Me senti ofendido. É como se ela dissesse que o Japão é civilizado e o Brasil, não.

Então entramos na aula, saímos, fiz minhas coisas e ao me deparar com essa frase de Sartre que abre esta postagem, me vi enfrentando o óbvio: Nós, brasileiros, estamos acostumados com a morte. 

Este (des)governo contribui muito para isso, mas seria injusto responsabilizá-lo totalmente por essa realidade. Ela vem de décadas e, como tantas outras coisas, fruto da falta de educação, de empatia e do abismo social e econômico em que também nos acostumamos a viver, como se fosse normal.

Ainda assim é melhor a bienal a tiro

Quando eu tinha 17 anos, e me mudei para Campinas para cursar faculdade, arrumei um emprego de vendedor na Livraria e Editora Papirus. Um dia um dos donos, seo Paulo, reuniu o gerente e alguns vendedores, entre eles eu, e fomos todos a São Paulo na Bienal do Livro daquele ano de 1985. Fiquei com um orgulho danado de mim mesmo por ter sido escolhido para ir na bienal.

Aquilo me atordou. Era muita gente. Minha experiência com multidão era o jogo do São Bento (rsss). Era o ginásio de esportes. Eu nunca tinha visto um lugar fechado tão grande. Bancas e mais bancas e estandes de livros. Brindes. Livros grátis. Folhetos e folders gratuitos. O visitante é sufocado. 

Uma semana depois, seo Paulo me chamou e disse: “Filho (sim ele usou este termo) eu não te pago para ler meus livros, eu te pago para você vendê-los”. E ele continuou: “A pessoa entra aqui para comprar um livro e você começa um debate com ele…” E prosseguiu: “Filho, e ele foi subindo o tom de voz, não quero saber se quem entra aqui vai levar o Walter Benjamin, o Jorge Amado, o Chico Xavier, Machado de Assis ou o livro da corujinha… Eu vendo isso aqui (e ele pegou um livro qualquer que estava ao alcance de sua mão e começou a chacoalhar no meu nariz) e não isso aqui (e ele começou a folhear o livro e a ler em voz alta).” Eu, timidamente, lhe perguntei: o senhor vai me demitir? “Nãoooo… vou botar você pra fazer pacote.” Também não deu certo, eu não tinha capricho para fazer embrulho bonito pra livro ruim.

Tudo isso repousava em algum canto da minha memória até o começo da tarde desta quarta-feira. Depois de ter almoçado feijoada num boteco da rua Santa Cruz na Vila Mariana, decidi ir à bienal.

Que arrependimento! 

Na avenida 23 de Maio, um infernal de um congestionamento fez o trajeto durar 54 minutos. Chegando lá, vi um estacionamento que quis me cobrar 45 reais. Fui, então, no oficial e custa 60 reais. Havia milhares de carros. O dono embolsou uma fortuna. Então não entrei e fui embora pensando que com esse dinheiro (os 60 reais do estacionamento) é possível comprar meu livro, que custa 50, ou o mais recente do meu amigo Márcio Blanco Cava. Temos a mesma editora, a Miraveja, que está na bienal com apenas 4 livros do seu catálogo (o meu não está entre eles). Na Estante Virtual, é possível comprar O Som e a Fúria de William Falkner (Palmeiras Selvagens, não dá, já aviso). Dá pra comprar Alberto Moravia (estou lendo e adorando 1934), mais atual que nunca neste Brasil fascista. Enfim, com o dinheiro do estacionamento é possível acessar o universo… Sem desperdício! 

Ahhh, falei só do estacionamento. Mas tem que pagar mais 30 pra entrar e sofrer com gente, aglomeração, poucos banheiros e nenhum bebedouro.

Eu nunca fui convidado para ir a bienal de 1985 por estar entre os importantes vendedores da Papirus para ir a Bienal, mas para ver que livro é livro independentemente de sua qualidade ou conteúdo. 

A 26ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo é, como sempre foram as bienais anteriores, apenas o “encontro das principais editoras, livrarias e distribuidoras de livros do país, que apresentam seus mais importantes lançamentos para ano”. Ponto. Nada mais. Qualquer outra coisa é papo dos noticiários que passam outra mensagem ao seu público: O importante do evento é o conhecimento, é a literatura, a pesquisa, o texto, o autor… Mentira! Só importa vender o objeto. Não que isso não seja importante. É. O autor fica com 8% do preço de capa e sonha em viver desse ofício. Sonha, pois não dá. 

A bienal nivela todos seus autores. Todos os livros são tratados como iguais.

Uma farsa!

Os livros são diferentes. Os autores… A qualidade… Não é enchendo o saco das crianças, levando elas para passar sede e fome numa bienal, que irá despertar nelas o gosto pelo  livro e o respeito pelo autor. Antes do consumidor, tem de existir um leitor. O Brasil (o mundo) precisa de leitura, leitores, e não de compradores de papel encadernados. Tá bom… eu sei que é melhor a bienal do que o clube de tiro. Mas esse assunto só existe num país que negligenciou (e não apenas está negligenciando) a formação de leitores. Isso vale tanto para o governo do sociólogo quanto para o do operário.

Rito de passagem, desejo, liberdade, segurança 

Duas adolescentes, na faixa dos 18, 19 anos, no máximo, aproveitaram a promoção de toda sexta-feira do setor de comida japonesa do supermercado Pão de Açúcar para comerem o que elas escutam que as meninas sêniores, suas colegas no escritório onde trabalham, almoçam.

O que chamou minha atenção, e a de todos à volta, foi a luta delas com os pauzinhos (hashi). Quando você se acostuma, eles viram uma pinça. Mas até se acostumar…

Depois, surpreendentemente, uma das meninas, disse que ela odeia peixe. E ninguém na casa dela come. E a mãe proibia o pai (sic) de comprar qualquer fruto do mar. Então, com os dedos, ela tirou o salmão que embrulhava a pelota de arroz. 

A outra, de repente, cuspiu o patezinho e bebeu num gole só o conteúdo de sua lata de Coca-Cola lilás (juro que nunca tinha visto uma lata dessa cor e sabor desse refrigerante). E ela disse, enfaticamente e um tanto em voz alta: Puta que pariu… essa porra tem gosto da morte. Arde tudo…

Disfarçadamente, eu ri. Eu adoro wasabi, que é uma pasta de raiz forte, e realmente queima. Mas passa rápido. E deixa um gosto na boca que eu gosto. Pensando aqui com meus botões, acho que ela definiu bem o gosto do wasabi. 

Depois de cutucarem o gengibre (gari), nenhuma das duas comeu. E o pepino (sunomono), depois de experimentado, foi deixado de lado: É doce!

Das duas bandejas de niguiri, ueramaki, yoo… só não sobrou o arroz. 

Então fico pensando como a cultura é poderosa. Em Sorocaba, depois da moda dos restaurantes de costela, e das churrascarias, a moda da comida japonesa já dura uma década pelo menos. Há um em cada esquina… Numa conta rápida, são uns 30 restaurantes de comida japonesa.

A pizzaria, sem dúvida, ainda é a mais popular. Imbatível desde os anos 70 quando a Pizza na Pedra conquistou o nosso coração e abriu a tendência. 

Quem não resistiu aos modismos, depois de três décadas e anunciou o fim de suas atividades é a Panqueca de Irene (já estou com saudades). Outro restaurante que chega ao fim é um exclusivamente vegano. Numa cidade fundada por tropeiros, não surpreende o gosto por carne e seus derivados.

Eu estava no Senai, onde entrei com 14 anos, e passei a ter salário, na verdade, meio salário mínimo por mês, para estudar. Era o suficiente para eu comprar o que queria: Uma barraca de camping em prestação no JumboEletro, uma peça inteira de presunto (não 100gr em fatias na padaria Príncipe da rua Balthazar Fernandes) e, como as meninas do começo deste post, fui no bar sozinho. Ficava na rua Miranda Azevedo, me sentei na varanda para que quem passasse na calçada me visse lá dentro, pedi uma cerveja (no começo dos anos 80 ninguém se importava de vender para menores de idade) e uma porção de azeitonas verdes. Me senti, então, integrado naquele momento à cultura onde vinha sendo forjado, a de um macho responsável por bancar os custos e ser o provedor. Foi um carimbo no ritual de passagem para uma vida normal: Ter emprego, se diplomar, casar, ter filhos, formar família… plantar uma árvore, escrever um livro…Fim! Desde então, vivo numa luta constante entre desejos, aspirações conscientes e inconscientes, que quase nunca estão ao meu alcance. Sei apenas que esse conflito carrega minha verdade, surge no lugar de palavras que não pronuncio, me ajuda a compreender o que diz sobre mim mesmo e a viver concomitantemente com minhas aspirações de liberdade e necessidade de segurança.

E viver a dor não se compara a imaginá-la

No dia 24 de maio de 2019, quando a Operação Casa de Papel da Polícia Civil de Sorocaba, que apurava desvios de dinheiro na Prefeitura de Sorocaba, cumpria mandados de busca e apreensão nas casas de então três secretários municipais e formaliza que o prefeito Crespo passava a ser investigado por aqueles crimes, Márcio Leme, advogado de defesa do então prefeito me disse sobre o desfecho de tudo: “Qualquer informação sobre isso ou qualquer outra dúvida será apenas especulação. É uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Temos que aguardar” (https://odedaquestao.com.br/operacao-casa-de-papel-entra-na-segunda-fase-entenda/).

E isso foi feito durante os últimos três anos, um mês e quatro dias: Aguardar!

Agora, a decisão do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do Ministério Público, em documento assinado em 9 de junho, mas que foi divulgado na última terça-feira, afirma: A densa massa de provas relacionadas aos crimes de organização criminosa, crimes licitatórios, corrupção e outros, que instruem a ação do caso, não restou configurada por ora, a lavagem de capitais. 

Traduzindo, não serviu para nada. Isso do ponto de vista legal. O trabalho do então delegado Marcelo Carriel, do ponto de vista político, foi exemplar.

Em sua rede social, Crespo – que além de ter perdido o mandato de prefeito, perdeu sua reputação – desabafou: “Folha 184 (processo 1503696): “Não existem os indícios noticiados nos autos contra o prefeito José Crespo”, ou seja, “as acusações eram falsas e fizeram parte da armação política para derrubá-lo e tomar indevidamente o poder em Sorocaba”.

É o que sobra. Desabafo!

Infelizmente, nada que vier a acontecer agora vai apagar tudo o que os acusados viveram, sofreram e perderam. E ninguém se importa com isso. Porque se importar, necessariamente, fará com quem cada um olhe pra si mesmo e diga de que forma participou, contribuiu ou colaborou para a dor deles. E ninguém quer isso. Dizer que o problema é do outro, e eu não fiz nada, é mentiroso, mas o mais simples.

A verdade é que essa decisão da justiça não faz nada voltar atrás. Os investigados foram condenados na investigação e a pena foi terem sido cancelados.

E isso não se refere a somente a Crespo que foi eleito com mais de 125 mil votos e na eleição seguinte teve míseros 500 votos. Diz respeito a quem caminhou com Crespo e não consegue, por causa disso, arrumar um simples emprego, pois quando vêem quem é preferem contratar outro. Diz respeito a quem viu a família ruir e os “amigos” se afastarem.

Ouvi de um dos acusados, que foi conduzido à delegacia, que irá processar o Estado por danos morais para tentar ganhar algum dinheiro. 

Ouvi que estudam uma forma de acionar o delegado Carriel na justiça, alegando uso político da polícia.

Pouco importa, pois nada disso vai reparar a dor que apenas quem a viveu pode dimensioná-la. E viver a dor não se compara a imaginá-la.

Gordo não é confiável!

Rafael Nadal evitou uma zebra em sua estreia em Wimbledon 2022 e venceu o jovem argentino Francisco Cerúndolo depois de mais de 3 horas e meia de partida na última terça-feira.

Tênis parece um jogo físico, e o é evidentemente, mas é muito mais metal, estratégico e psicológico.

Em uma partida de tênis são 12 juízes divididos em juiz de cadeira, juiz de rede, juízes de linha lateral e central, juízes de serviço e juízes de saque.

Ainda no primeiro game do primeiro set, a TV deu um closet em Cerúndolo quando o jogo estava parado e quem apareceu em segundo plano foi um juiz de linha. Sua aparência é antagônica ao tênis ou qualquer outro esporte: era um gordo mórbido. Não era gordo apenas, mas muito gordo. 

Para estar trabalhando em Wimbledon, um dos mais tradicionais e importantes torneios do mundo, seguramente esse árbitro tem qualidade incontestável.

Não pude evitar de me lembrar de um episódio, ocorrido há uns 15 anos, quando o ex-prefeito Renato Amary foi eleito deputado federal e formava a sua equipe de trabalho. Ele escolheu quem seria próximo a ele e delegou a essas pessoas próximas a contratação do restante da equipe. Depois de analisar vários currículos um desses assessores escolheu uma pessoa e outra assessora vetou o nome sob o argumento de não ser confiável. Então o assessor questionou: como você sabe, você nem o conhece. E a assessora retrucou: ele é gordo. E gordo não é confiável. 

Quando eu estava no jornal Bom Dia, que era em rede, ouvia histórias dos bastidores dos principais veículos do Brasil e soube de demissões no Estadão, Folha, Abril pela razão da pessoa ser gorda. Recentemente, com o advento das redes sociais, os gordos demitidos denunciam o motivo. Há casos notórios, dois ou três deles na TV Vanguarda cujo o dono é Boni, o todo poderoso do início da rede Globo.

Fico pensando se os ingleses são diferentes pela presença do gordo mórbido como juiz no jogo que vi nesta terça-feira. Ou se há uma história por trás, tipo o juiz de linha ter entrado na justiça e ter ganho o direito de exercer seu trabalho. Pois de todas as histórias do Brasil, essas que relatei, incluindo a do ex-deputado sorocabano, há a negação de que o gordo é rejeitado por ser gordo. Sempre se arruma uma desculpa social e juridicamente aceita. Nunca lhe dizem: não te quero porque você é gordo. O preconceito é dissimulado.

Os números mostram que gordo não quer ser gordo, raríssimas são as exceções. Prova disso é que entre 2011 e 2018 o número de cirurgias bariátricas no Brasil aumentou em 85% e houve uma explosão de clínicas que buscam clientes para auxiliar a eles no emagrecimento. Seja qual for o caminho escolhido, há a necessidade de um acompanhamento profissional para o lado emocional de cada gordo, pois quase sempre a comida (em excesso e de qualidade duvidosa) é a compensação de alguma carência. O padrão de beleza (magro) e a busca por ser aceito socialmente torturam desde a década de 90 quem não resiste a abundância de comida processada, vendida em embalagem, com abundância de sódio, de muito sabor (fast food) que estão muito longe do que se chama comida de verdade.