Conselho do Negro reage com indignação à fala do prefeito que classificou de marola e firula o repúdio da escolha de um caucasiano para a coordenadoria de igualdade racial e mantém esperança de que a situação será revertida

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A presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Sorocaba, Kátia Campos, e Maria Teresa Ferreira, representante da sociedade civil dentro do Conselho, aceitaram meu convite e participaram na manhã de hoje na coluna O Deda Questão no Jornal da Ipanema (FM 91,1Mhz) para tratar de um assunto levantado primeiramente por mim, na rádio e depois aqui no blog, dando conta de que pela primeira vez, desde que foi criada a Coordenadoria de Igualdade Racial em 2013, está é a primeira vez que o comando dessa coordenadoria deixa de ser ocupada por uma pessoa negra. Lucimara Rocha (no governo Vitor Lippi), depois Maria de Lourdes Moraes (no governo Pannunzio) – ambas negras – ocuparam o cargo para o qual Crespo escolheu Maurício Barisson. Ambas frisaram que não há nada contra ele, mas que faz mais sentido um negro neste cargo que seja conhecedor da história e processo histórico que levou ao racismo que faz parte do inconsciente coletivo nacional.

Na quinta-feira do dia 2 de março, o prefeito, ao vivo durante o Jornal da Ipanema, em entrevista conduzida por mim, afirmou que “Barisson sofre preconceito por ser caucasiano. Colocar um negro, apenas por ser negro, é preconceito contra outras raças. […] Isso é um pensamento retrógrado. Lamento, mas repudio esse preconceito contra os caucasianos. Parem de ‘firula’, ‘marola’, pois não passa de preconceito esse tipo de discurso. É uma vergonha alguém defender cotas raciais”.

Kátia e Maria Teresa reagiram com indignação a essas colocações: “É um desrespeito. Se estamos falando de uma simples ‘marola’, não teríamos leis que garantissem a igualdade racial. Não precisaríamos da lei que coloca a história do povo negro dentro das escolas, educação básica. Não precisaríamos também da Secretaria da Igualdade Racial na esfera federal nem do Estatuto da Igualdade”, completou.

Outra fala criticada pela integrante do Conselho foi a questão das cotas raciais, tida como “vergonha” por parte de Crespo. “Ele fala que é contra elas, que são um absurdo. Elas não são isso, mas não são o ideal. São o caminho encontrado no pensamento de políticas públicas para que determinada população consiga, em pé de igualdade, emprego, educação e saúde”, expõe.

Kátia, presidente do Conselho do Negro, destaca que a Coordenadoria da Igualdade Racial, em Sorocaba, “foi uma conquista do movimento negro com o movimento social. “Somos nós, querendo ou não, que sabemos o que acontece no dia a dia. Somos parados por policiais apenas por ser negros, sofremos na questão da saúde. Temos o maior índice de jovens morrendo na sociedade”, comenta. “Estamos cansados de ter sempre um ‘branco’ falando por nós”, desabafa.

 

“É uma conquista nossa, uma situação que nós, negros, sentido essas nossas dificuldades, lutamos por esse cargo e, por isso, precisamos ter essa representatividade”, reforça.

Com a palavra novamente, Maria Teresa defende que “não houve questionamento sobre a competência do atual coordenador”. “Em nenhum momento foi falado que o Maurício não é bom. Ninguém o chamou de ‘caucasiano’. Isso foi uma palavra que parece ser chocante e aumentou essa polêmica”, sustenta.

Esperança no ar

Kátia e Maria Tereza informaram que a secretária da Igualdade e Assistência Social, Cíntia de Almeida, que escolheu Barisson para a coordenadoria, vai receber o Conselho do Negro no próximo dia 15 para uma reunião onde tratarão do tema. Elas querem ouvir e mantém a esperança de que haja uma correção na valorização dos negros na administração pública.

 

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