Mulher Barbada 

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Eu estava no ponto de ônibus e uns trinta passos de distância uma mulher na faixa entre 35 e 45 anos, roliça (se estivéssemos na Idade Média ela seria o exemplo de beleza feminina), vestindo uma blusa tomara que caia e jeans e calçando uma sandália de salto médio, carregando uma bolsa no ombro esquerdo, caminhava por esburacada calçada como se estivesse numa lisa passarela de desfile de moda. Seus longos e crespos cabelos se ondulavam para trás com o vento da manhã da quarta-feira, primeiro dia útil depois do feriado da terça. Nos lábios, um batom vermelho. Havia naquela mulher o que se pode chamar de feminilidade. 

Então a mulher passou por nós, sim, eu e um outro homem aparentando a mesma idade que eu acompanhávamos os passos dela. E quando ela passou, esse homem se virou para mim e disse: Soltaram a Mulher Barbada e, num hiato segundos depois, o homem e eu, simultaneamente, caímos na gargalhada. Era uma espécie de piada interna onde apenas quem sabe detalhes de uma situação, dominando o mesmo código, sentem a graça do comentário. 

O fato é que essa mulher que acompanhamos o seu caminhar tinha uma vasta e cerrada barba. O que fazia se pensar que era um homem travestido de mulher ou, o que achei mais provável, uma mulher com barba em razão de algum distúrbio hormonal ou qualquer outra ação da natureza.

E Mulher Barbada, há 50 anos, era uma das principais atrações dos circos mambembes que percorriam as cidades atrás de seu público. A Mulher Barbada era uma mulher de maiô prateado e salto alto, no geral bonita, bem maquiada, que ficava num palco, muda, e um locutor, oculto aos olhos do público, anunciava que aquele belo rosto em segundos ganharia barba. E a música alta conduzia o espetáculo e o narrador hipnotizava cada garoto atento e num jogo de espelho e projeção de luzes a mágica acontecia e por segundos víamos barba na mulher. Em seguida, a mulher novamente aparecia com seu rosto liso com um pêssego.

Então, passadas cinco décadas, no acaso da espera pelo Cometa que me transpotaria de São Paulo a Sorocaba, a Mulher Barbada cruza meu caminho, cheia de charme, gingado e sua barba cerrada. Não faria sucesso algum nos dias de hoje caso ainda houvesse circo como aqueles. A contradição mulher com barba, há cinquenta anos, era atração de circo. Hoje não há contradição alguma nisso. Aliás, há uma infinidade de sentimentos sobre como cada um se sente e isso é da natureza humana não sendo algo estranho ou extraordinário que mereça ser atração de circo. Hoje as pessoas são o que são, heterossexual ou LGBTQIAPN+, sigla que representa a diversidade de orientações sexuais, identidades de gênero e características sexuais, englobando lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexo, assexuais, pansexuais e não binários, com o “+” indicando inclusão contínua. O objetivo é garantir reconhecimento, visibilidade e direitos, combatendo a lgbtfobia e promovendo a igualdade. Ou seja, situação que não existia há meio século e por isso havia a atração Mulher Barbada.

Dias depois desse episódio, no cruzamento das avenidas Santa Cruz e General Carneiro (“herói ” na Guerra do Paraguai), uma mulher viciada em álcool e drogas, aparentemente sem tomar banho há meses, ou anos, me pede 5 centavos. Olho para ela, antes de negar o cobre, e vejo um ralo cavanhaque de fios compridos que, seguramente, está sendo cultivado há bons anos.