Dramas pessoais se sobrepõem à orientação do partido e explicam porque mesmo com determinação da direção do PMDB para aprovar a Reforma Administrativa o partido, que tem seis votos, poderá dar apenas 4 pelo sim

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A votação do PMDB na eleição de outubro é considerada um fenômeno eleitoral não apenas quando se analisa o feito na Câmara de Vereadores de Sorocaba, mas em qualquer colégio eleitoral. Das 20 cadeiras, a coligação fez a metade, sendo que 5 são de integrantes apenas do partido. Com a ida de um vereador do PPS (Marinho Marte) para o cargo de secretário foi convocado um suplente (Cíntia de Almeida) que é do PMDB. Com a ida dela também para o cargo de secretária o segundo suplente (Rafael Militão) também do PMDB assumiu a vaga. Ou seja, agora são 6 vereadores do partido, portanto mais de 25% de toda a Casa Legislativa.

Esse número indica que haverá um domínio confortável das idéias do PMDB circulando dentro da Câmara, certo? Não, errado.

E mais do que a eleição para a presidência da Câmara, que acabou se fechando em torno de Rodrigo Manga (DEM), o grande exemplo de que o pensamento do partido nem sempre vai se sobressair sobre o pensamento do vereador é a votação da Reforma Administrativa proposta pelo prefeito Crespo e que será votada nesta quinta-feira em sessões extraordinárias. Renato Amary, presidente do diretório municipal da legenda, anunciou que o partido está fechado em questão pela aprovação da reforma o que, em tese, seria dizer que os 6 vereadores do partido votariam pela aprovação. Mas a prática se revela outra.

A 18 horas do início da votação, marcada para começar às 10h desta quinta-feira, um vereador já decidiu votar contrário à aprovação da reforma e outro está desde ontem esperando um parecer de seu advogado particular para ter certeza de que a votação em sessões extraordinárias e que o conteúdo do que está sendo votado estão rigorosamente dentro do que diz a legislação vigente sobre as duas questões. São dramas pessoais que se sobrepõem à orientação do partido.

Péricles de Lima

O vereador que decidiu votar contra a aprovação da Reforma Administrativa é Péricles Regis Mendonça de Lima. Ele pode ser considerado o maior fenômeno da última eleição. Foi a primeira vez que se candidatou e ele obteve mais de 9 mil votos, um número absolutamente expressivo para qualquer candidato. Péricles não gastou nem um centavo na campanha e usou apenas o seu canal nas redes sociais para se projetar. Ele faz há anos um meio de campo entre quem busca um emprego e quem busca um empregado. São votos de pessoas gratas pelo que ele fez. Ele obteve legenda para concorrer por decisão e risco de Renato Amary que atendeu a um pedido de Simone Marquetto, ex-jornalista do SBT Sorocaba eleita prefeita em Itapetininga. Simone é amiga de Péricles e de Renato. O potencial de votos de Péricles era desconhecido e se projetava que ele com sucesso chegaria a 500 votos. Ou seja, não havia instrumento para avaliar o peso da internet na decisão dos votos de mais de 9 mil pessoas que escolheram ele nas urnas. Tanto que apenas depois de eleito ele foi ter uma conversa mais pessoal e reservada com Renato Amary. Eleito sem apoio, um outsider dentro do PMDB, Péricles começou a achar estranho que haja orientação de voto. Ele queria agir como sempre agiu, por sua própria cabeça. No caso da Reforma Administrativa, ele consultou sua equipe de assessores formada por 4 jornalistas e todos alertaram que ele levaria outra porrada da imprensa se votar a favor. Mas como assim, outra? Péricles foi alvo da reportagem do jornal Cruzeiro do Sul mostrando que ele foi expulso da Polícia Militar, onde era soldado, em razão do seu comportamento. A reportagem abalou Péricles e ele se intimidou em levar outra porrada na imprensa se votar a favor da Reforma Administrativa. Esse fato, aliado ao peso que sua esposa tem em suas decisões, levou Péricles a dizer não a Renato Amary e em consequência a Reforma Administrativa. A esposa de Péricles, também jornalista, é seguidora da página de Fernanda Garcia, vereadora do PSOL e curte todas as publicações da vereadora da oposição, ou seja, indica que ao menos no que diz respeito a ideologia política o seu pensamento segue um caminho diferente do marido. No caso de votar contra a reforma, a compreensão é que a esposa teve um grande peso sobre a decisão do marido.

Hélio Brasileiro

O vereador que aguarda um parecer de seu advogado particular para ter certeza de que a votação em sessões extraordinárias e que o conteúdo do que está sendo votado estão rigorosamente dentro do que diz a legislação vigente sobre as duas questões é o médico Hélio Brasileiro. Ele está em cirurgia durante a tarde de hoje e saindo dos seus compromissos profissionais ele terá uma reunião daqui a pouco, por volta das 20h, com o seu advogado que então lhe dará o parecer legal que levará ele a decidir como votar. Como novato em seu primeiro mandato, Hélio Brasileiro é outro que sente pela primeira vez o peso de decidir pelo dever partidário ou pela consciência própria. Levando em conta o peso da orientação de Márcia Pegorelli, secretária Jurídica da Câmara, que conhece como raras pessoas a lógica legal do que a Câmara vota, e que aprova tanto a votação dos projetos em sessões extraordinárias como o conteúdo do projeto, é de se entender que Hélio Brasileiro se sentirá à vontade para votar pelo sim da reforma.

Mas, seja qual a decisão dos dois, o importante é que esses votos mostram o que nem sempre o eleitor percebe: que há a vontade pessoal do vereador e a vontade da legenda da qual ele faz parte. E por mais estranho que isso possa soar, a legislação entende que a cadeira de vereador é do partido e não do vereador. O desafio é conciliar os dois pensamentos, o pessoal e o da ideologia.

Seja como for, são 20 votos em questão e necessários 11 votos para a aprovação da Reforma. Acredito que pelo menos 15 votos serão favoráveis a aprovação do projeto.

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