Estou em processo de aniquilamento

Ao ver uma publicação em rede social do deputado estadual Raul Marcelo convocando interessados na aula inaugural do curso “Formação Política: para entender o Brasil”, minha memória, automaticamente, me levou a 1979, 1980, 1981 quando um curso dessa mesma natureza acontecia em Sorocaba e eu fui um dos participantes dele. Na época eu tinha meros 13 anos.

A diferença dos momentos é gritante.

Se hoje é possível uma pessoa se filiar a um partido como o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), ser eleito por ele e representar parcela da sociedade numa Câmara ou Assembléia, naquele momento, com a sociedade ainda imobilizada pela ditadura militar que havia sido decretada há 23 anos, era ousado, perigoso e estressante manifestar o desejo de frequentar um local onde se reunissem “comunistas”.

Quando eu tinha 9 anos, eu acompanhava minha mãe uma noite por semana até a Igreja de Santa Rita, onde ficavam as salas de aulas, onde ela ia estudar a Bíblia. Um frei de origem alemã, se não me engano de nome Vicente, alto, com uma expansiva careca lustrosa, mas com os cabelos acima da nuca vermelhos como fogo, de tão ruivo. Ele falava alto e com sotaque. Eu era “pequeno” para aqueles estudos, então ficava na escada de acesso à sala. Como estava sozinho, restava a mim prestar atenção ao que falavam lá dentro. Minha mãe nunca comentava comigo o teor daquelas aulas. E, pelo que me lembro, não havia nada que não fosse, de fato, ligado à Bíblia. Mas, há algo mais “comunista” do que os ensinamentos de Jesus Cristo?

Aqueles ensinamentos, de algum modo, ficaram registrados em mim.

Em 1979 (dia desses alguém postou uma foto de lá no Facebook) havia um bar numa rua bem defronte ao CHS (Conjunto Hospitalar de Sorocaba) e na sua calçada se reuniam jovens para se ver, se mostrar, ouvir, falar tudo muito similar ao que se faz hoje em dia no Facebook, porém eram encontros presenciais e não virtuais. Ali conheci o Pedro e o Capucho. Pedro era negro, tímido e metalúrgico. Capucho era branco, expansivo e sempre tinha um livro lhe acompanhando.

Me lembro o mistério que cercou o momento em que os dois me chamaram para um encontro agendado para domingo à tarde no porão da Faculdade de Medicina de Sorocaba. Cheguei cedo, silêncio total, não havia ninguém na rua e, de repente, Capucho me chamou pela fresta de uma porta: venha! Lá dentro haviam outras pessoas, todas sentadas num grande círculo formado por cadeiras. Era a aula inaugural de um curso de Formação Política. O mesmo agora livremente anunciado nas redes sociais. Claramente, uma atividade clandestina, proibida.

O comparecimento a essas discussões não implicaria em nenhum tipo de engajamento com a organização, mas havia a expectativa de que a partir do curso os participantes manifestassem o desejo de se aproximar daquele “clube” clandestino. No começo, eu era visto como um recrutado promissor. Mas eu era cheio de compromissos. Nos sábados à tarde, eu estava engajado com o Grupo de Jovens da Igreja Santa Rita e comprometer o meu domingo com um grupo de Formação Política se mostrou algo com o qual não me sentia à vontade, principalmente, porque era segredo. Eu sempre fui péssimo em guardar segredos. Prefiro não saber sobre o que eu não posso falar. Segredo exige energia e dedicação à causa a ser guardada. Eu gosto de contar as coisas, de falar, de levar adiante.

Logo fui para o Senai, quando fiz 14 anos. Lá eu não cooptava ninguém para fazer parte nem do Grupo de Jovens e muito menos para o de Formação Política, mas distribuía o jornal “Convergência Socialista” aos colegas que queriam discutir política. A maioria tinha medo do assunto. Eram adolescentes, na maioria dos casos, filhos de operários. Eles viam o Senai como uma chance de um emprego, de um salário fixo, de se aposentarem… temas que nunca fizeram parte do meu rol de preocupações (o que me causa um certo arrependimento hoje em dia, confesso). Depois de décadas num clima de confiança, nos dias atuais, voltamos a ver as pessoas se apegando ao retorno financeiro mensal do salário e, com isso, deixando de lado qualquer sonho coletivo.

O curso de Formação Política (aquele da minha adolescência e o de hoje, creio) é um debate humanista sobre quem é quem na organização social do mundo, a partir do seio familiar, da vizinhança, do bairro, da zona da cidade onde mora, da cidade, do estado, país, hemisfério, enfim, quem é cada um no mundo. Essa resposta, sempre tem conseqüências! Independentemente de sua época e das tecnologias disponíveis. E na base desse sonho está o bem-estar social de uma coletividade. Simples assim.

Eu não me tornei “comunista” por ter feito parte do curso de Formação Política ou ter sonhado em escrever para o jornal Convergência Socialista. Tampouco, o que muitas vezes ocorre às avessas, me tornei um “liberal” ou “neoliberal”. Evidentemente que não sou “fascista”. Então, o que sou? Ou, onde me enquadro? Apenas entendo ser possível a convivência das pessoas com o respeito às individualidades do outro, exercendo a empatia, sem sacrificar a individualidade em nome da causa. Mas isso se tornou a verdadeira utopia dos dias atuais, onde se vive sob o antagonismo que resume as pessoas a simples equação: se você não é de um lado, te jogam para o outro e vice-versa, sucessivamente, até você estar aniquilado. Eu me sinto exatamente assim: em processo de aniquilamento (substantivo masculino – 1. destruição ou anulação completa de; desbaratamento, dilaceração, extermínio; 2. estado ou condição de fraqueza ou desalento moral e/ou físico; abatimento, prostração, perecimento”. Darwin, quando cunhou o darwinismo, simplificou a existência: não são os fortes, os inteligentes, os maiores que sobreviverão, mas os que se adaptarem. Sigo resistindo. Seguirei resistindo. Mesmo sabendo que o fim será meu extermínio.

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