Exonerações de 10 apaniguados de vereadores é suficiente para indicar que cargos foram criados na Reforma Administrativa também para uso político. Como havia adiantado, após revés em votação prefeito acabaria com o tempo de ser bonzinho

MarioBastos

Escrevi dias atrás que o prefeito Crespo tinha viajado a Brasília sabendo da decisão dos vereadores de não aprovarem a criação de 40 cargos de livre escolha para quem tem apenas o ensino médio. E disse também o seguinte: A ordem é clara, se o projeto não passar, uma nova etapa de relacionamento com a Câmara será inaugurada. Acabou o tempo de ser bonzinho. Isso foi ouvido em alto e bom som saindo da boca do prefeito. Não por mim, obviamente, mas por pessoa bastante próxima dele.

Pois não é que isso aconteceu.

Na última sexta-feira, ocorreram demissões de Assessores Nível 3, salário de R$ 9 mil. Questionei a Prefeitura sobre o motivo de 40 assessores terem perdido o emprego e essas demissões terem sido publicadas no átrio da prefeitura. A informação oficial que recebi é a de que “as exonerações ocorreram porque os contratados não corresponderam às expectativas das chefias imediatas. Mas elas não foram publicadas no átrio e nem são 40. Foram 10 e serão publicadas no Jornal do Município da próxima sexta. Já estão disponíveis no portal transparência.”

Mas, a verdade, aquela que está nos bastidores é clara: as demissões foram represálias ao comportamento dos vereadores e poderão chegar a 40 ou mais. As retaliações não param ai. Outras medidas serão tomadas e a relação ficará difícil.

Dio mio! Exonerações dos indicados por vereadores é suficiente para indicar que os cargos criados na Reforma Administrativa eram também para uso político. Ou seja, parceiro do prefeito ganha cargo para indicar a apaniguados e os mantém enquanto votar de acordo com as ordens do prefeito. Votou contrário, como a criação dos referidos 40 cargos de ensino médio, será punido com as demissões dos amigos dos vereadores. Absurdo total.

Um caso que não ouvi falar, mas meu colega do Portal Ipanema, jornalista Gustavo Ferrari, sim, tanto que ele participou como meu convidado da coluna O Deda Questão de hoje no Jornal Ipanema (FM 91,1Mhz) dá conta que uma advogada, indicada pelo vereador João Donizeti (PSDB), foi demitida da Secretaria da Cidadania e Participação Popular, pelo titular da pasta Mário Bastos, num clima de comoção. Emocionado, e até  chorando, Mário Bastos, relatou Gustavo Ferrari, demitiu a indicada por João Donizeti enaltecendo sua competência, mas dizendo que cumpria sua exoneração por ordem superior pelo fato de seu padrinho (vereador João Donizeti) ter contrariado a vontade do prefeito na votação da criação dos 40 cargos.

Mário Bastos, a palavra é sua. João Donizeti, a palavra é sua. Que meu colega Gustavo Ferrari tenha se enganado pois nunca vi nada tão absurdo em mais de 30 anos como jornalista. Nunca vi nenhuma troca de favores tão escancarada.

Prato cheio ao MP

As dez exonerações já feitas, e as mais de 40 possíveis como ouvi, são o argumento que faltava para o promotor de justiça, Orlando Bastos Filho, levar adianta o inquérito preventivo como autorizado pelo Conselho Superior do MP como, aliás, também com exclusividade adiantei aqui dias atrás de que estava em curso. As demissões deixam patente que muitos cargos foram ocupados por indicação de vereadores e que, ao ser contrariado, o prefeito não se conteve em punir o vereador.

A verdade é que se entendi que o promotor Orlando Bastos fez ameaça aos vereadores com seu inquérito preventivo, ele o fez por escrito, formalmente, num inquérito público sujeito a recurso e a críticas, como eu as fiz. Algo com claro interesse público. Nada, portanto, comparado com essa retaliação velada aos vereadores que partiu do prefeito Crespo. Abominável essa atitude do prefeito. Certamente ele será alvo de ação, assim como os demitidos. Alguém, diante de um problema que é enfrentar uma ação do Ministério Público, vai dar com a língua nos dentes. É inacreditável estar presenciando, de maneira tão transparente, o uso de cargos em troca de apoio político. Que o prefeito tenha bons argumentos para explicar isso tudo, afinal não estamos falando de chamar aliados para os cargos, mas de demissões que punem os vereadores que contrariaram a vontade do prefeito.

Para completar as pérolas dessa relação non sense do prefeito e os vereadores, vale a pena ouvir o que disse na sessão da Câmara de quinta-feira da semana passada Fausto Peres (PTN), membro de um dos 13 partidos da coligação que elegeu Crespo prefeito em 2016: colaboramos para colocar vocês ai… as pessoas tinham o fio do bigode para sustentar os acordos…. ai ninguém assume a palavra dada. Não citou nome, mas é evidente que falava ao prefeito e sua equipe e desabafava sobre as demissões de indicados seus. Há, portanto, muito a ser dito por Fausto ao promotor.

FOTO: Na Secretaria da Cidadania e Participação Popular, o titular da pasta Mário Bastos, num clima de comoção e até  chorando (relatou-me o jornalista Gustavo Ferrari) demitiu a funcionária indicada por João Donizeti enaltecendo sua competência, mas dizendo que cumpria sua exoneração por ordem superior pelo fato de seu padrinho (vereador João Donizeti) ter contrariado a vontade do prefeito na votação da criação dos 40 cargos

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