Morreu Emília, uma grande mulher

A morte de Emília Benedita Pires de Sanctis Urban, aos 80 anos, domingo passado, em Sorocaba, marca a passagem do fim de uma história de sucesso das pessoas que ajudaram a construir Sorocaba, essa cidade assim como a conhecemos hoje.

Deixando de lado o machismo que existe neste ditado popular, mas se apegando à cultura pela qual passou o Brasil desde o pós-guerra até o final do século 20, Emília (essa sempre foi minha percepção) é o retrato da expressão “por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”.

Historicamente, o casamento é um dos mais importantes pilares que estruturam as relações sociais na sociedade como a conhecemos. E Emília foi o esteio, nos bons e maus momentos, do seu marido, o desembargador José Humberto Urban do Tribunal de Alçada Criminal do Estado, onde prestou bons serviços por mais de trinta anos, o que lhe garantiu a absolvição no Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo da única acusação que recebeu em sua vida pública (desde que havia sido o coordenador de Atividades Jurídicas e Internas na Prefeitura de Sorocaba, em 1972, quando o prefeito era José Crespo Gonzales), a de participar da distribuição irregular de um processo dentro do tribunal. Emília sempre entendeu esse mundo dos homens de poder e soube qual o seu papel na construção da identidade do seu matrimônio.

Foi nessa época, em 1997, que tive o meu primeiro contato com dona Emília. Eu havia recém-chegado ao cargo de editor-chefe, responsável pela redação do jornal Cruzeiro do Sul, e Urban, como membro da Loja Maçônica Perseverança III, era integrante do Conselho Editorial do jornal. Semanalmente eu tinha encontros com ele dentro do jornal. Num evento conheci a Emília e desde então, uma vez a cada quinze dias pelo menos, eu a encontrava ao acaso fosse na Supermercearia São Bento ou na Padaria Real. E me era absolutamente gratificante a sua gargalhada. Ela sempre fez questão de deixar claro que gostava daquelas trombadas entre as gôndolas. Emília viveu e morreu sendo uma pessoa extremamente alegre e de bem com a vida.

Não é qualquer pessoa que chega ao cargo de desembargador, é preciso dedicação aos estudos e vocação ao conhecimento. Foram, sem dúvida, características de Urban, mas sustentadas por Emília, isso me ficou evidente com o tempo.

Para dar um exemplo de quem foi Emília, conto uma passagem que me marcou: Uma conversa que tive um dia com Urban, sobre alguma pauta, onde surgiu a expressão “em terra de cego quem tem um olho é rei”. E na prepotência da minha juventude, ao falar sobre essa expressão, num debate até que acalorado para os patamares hierárquicos em que eu me encontrava em relação ao Urban, me lembro dele ter se silenciado. E, na semana seguinte, me surpreendeu me presenteando com um livro de H.G.Wells, escritor de primeira linha da final do século 19. No livro, a obra-prima “Em Terra de Cegos…”, um conto onde ele narra uma região longínqua e quase inacessível em que todas as pessoas são cegas há 14 gerações. Não sabem o que é ver (não têm da visão nem conhecimento por contato nem conhecimento proposicional) e por isso não têm consciência de que lhes falta uma capacidade que outras pessoas possuem; ou seja: não reconhecem ter um problema. São cegas mas não sabem que são cegas. Estão também convencidas que o vale é o mundo inteiro. Quando chega um forasteiro, que lhes fala do mundo exterior e lhes tenta explicar o que é a visão, não o acolhem nada bem e ele descobre que, afinal, em terra de cegos quem tem um olho não é rei.

Uma lição essa do Urban em mim. Bem dada, aliás! E me lembro da Emília, naquela semana, sem citar o livro que foi me dado por seu marido, me dizer: o Zé gosta muito de você. Estava subentendido que ela sabia do livro. A partir desse conto, isso sem que Urban e Emília viessem a saber, apenas se consolidou em mim conceitos tão enraizados como o de que as coisas são, não apenas o que o outro denota que elas sejam.

Emília foi a mãe do João que um dia se apresentou a mim no Luckye Friends, no bairro Mangal, onde eu gostava de ir fazer a barba na navalha antes das barbearias virarem a febre que se tornaram em Sorocaba. Com seu jeito despojado, apenas no fim da conversa ele me falou: você não sabe de quem eu sou filho e então contou. Falei um pouco do seu pai e das vezes que ria com a mãe dele entre as gôndolas.

Emília foi a mãe do Zumba, José Humberto Urban Filho. Meu amigo de sofrimento e paixão nas arquibancadas do São Bento, de onde ele saiu para ser o diretor de futebol do clube. Conhecido em toda Sorocaba e fora dela por ser delegado de polícia (cargo do qual está licenciado para ocupar a vaga de secretário municipal de Políticas Públicas sobre Drogas na Prefeitura de Sorocaba), Urban é o retrato da retidão de um homem público. Quando abracei-o, na manhã de hoje, no velório da sua mãe, quis que ele sentisse as boas energias que eu emanava a ele, reconhecendo a grande mulher que havia sido Emília. A grande mulher por trás dos homens da sua vida. A grande sogra e isso ficou claro na expressão de perda de Maria Helena na cerimônia desta manhã, no cemitério Pax, onde Emília foi sepultada.

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