“A Máquina de fazer Espanhóis”, que teve sua primeira publicação em Portugal em 2011 e no Brasil em 2013 pela extinta Cosac Naify, é um romance de Walter Hugo Mãe sobre a ditadura de Salazar contada a partir do olhar de António Silva, um barbeiro de 84 anos, entre o instante que ele perde a esposa, Laura, com quem foi casado por 48 anos, sua chegada do asilo Feliz Idade, e sua vivência dentro deste espaço opressor, organizado, regrado e com a conduta sendo definida por quem manda no alto comando desta instituição. Como o país naquele período, aliás.
Portugal era, então, “um mar imenso de famílias de aparências, todas numa lavagem cerebral social que lhe punha o mundo diante dos olhos sublinhado a lápis azul, para melhor vermos o que queriam que apreciássemos” (as glórias de Salazar)… “parecíamos um grande cenário de legos” … “nos punham de boca fechada porque o ditador achava que sabia tudo por nós” (páginas 132 e 133).
Estes são alguns exemplos das reminiscências de António que percorrem toda a narrativa e se juntam a outras, inclusive para explicar o título do romance, pois Portugal, na visão de António se limitou a ser um país onde os maridos levavam as esposas grávidas para fora para que os filhos nascessem em outros países europeus, especialmente na França, onde estão atualmente mais de 5 milhões de portugueses, e Espanha, afim de que tivessem mais oportunidades de se ganhar um salário melhor, se comer melhor e se viver com mais conforto.
António, num dos momentos mais emocionantes e triste de toda sua narrativa, se lembra do orgulho de si ao ter corrido risco e abrigar em sua barbearia um jovem da perseguição da polícia política, protegendo-o e isso faz António sentir-se parte da Resistência ao ambiente de toda ditadura, porém nove anos depois, António lembra de cumprir seu papel de bom cidadão ao ter entregue ao regime o jovem. Somos todos fascistas, dizia António aos seus colegas de asilo, incluindo “a igreja, instituição pançuda que se deixou confortavelmente sentada ao lado do ditador”.
Para explicar a ditadura, António diz: “Salazar foi como uma visita que recebemos em casa de bom grado, que começou por nos ajudar, mas que depois não quis mais ir embora e que nos fez sentir visita sua, até que nos tirou das mãos tudo quanto pôde e nos apreciou amaciados pela exaustão.” (Página 175).
Ao final de toda a reflexão sobre período tão perturbador da história portuguesa, António se redime: “arrependia-me do fascismo e de ter sido cordeiro tão perto da consciência, sabendo tão bem o que era o melhor valor, mas sempre o ignorando, preferindo a segurança das hipocrisias instaladas” (Página 248).
Em paralelo a sua dor pela ditadura, António fala de outro elemento determinante da identidade nacional portuguesa: a poesia e, em especial, Fernando Pessoa. Entre os moradores do Feliz Idade está Esteves, que teria inspirado Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa mais famosos, autor do poema A Tabacaria: “Não sou nada./ Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…”
Há também ao longo da narrativa uma ode ao amor. António se lembra tanto de Laura que faz dela quase uma personagem viva na história. Há o amor nas cartas que ele decide a escrever a Marta, moradora que ansia por receber uma correspondência que nunca chega, se passando pelo marido sumido dela.
Há sua mágoa da filha, Elisa, que o colocou no asilo, e também de seus netos, que se vestiam com “roupa de domingo” quando iam visitá-lo fazendo o sentir ainda mais alguém fora da família e não de dentro. Há a mágoa do filho Ricardo que um dia foi lecionar na Grécia e nunca mais voltou, nem para o enterro da mãe, nem para ver o pai, nem para lhe escrever ou telefonar.
Há a mágoa das mortes, uma a uma, no Feliz Idade, que permite a António constatar: “Nosso inimigo é o corpo… ser velho é viver contra o corpo” (página 126) ou, ainda, quando afirma “afeiçoarmos-nos à morte, é como se fôssemos cortejando a confiança dessa desconhecida, para nos encantarmos, quem sabe” (página 102).
Há muito sobre amizade no livro, há, ainda, sobre sexo na terceira idade, há sobre a progressiva anulação da memória até levar cada um ao Ponto Peixe a partir do qual o destino de cada indivíduo é irrelevante. A memória de um peixinho de aquário dura 3 segundos. Passado este tempo ele não se lembra de mais nada. É isso que permite a ele viver naquele minúsculo espaço, pois a cada 3 segundos tudo é novo.
Acompanhamos António até seu Ponto Peixe.
“A Máquina de fazer Espanhóis” é um livro construído tijolo a tijolo até se tornar uma parede sólida, alta, deixando o leitor lá em cima sem escada ou andaime para poder descer. Uma vez lido, o livro leva o leitor a construir caminhos para descer a sua própria consciência e entender-se consigo próprio quanto ao seu comportamento familiar, amoroso e, essencialmente, social onde prevalecem extremismos que nos convocam a termos posicionamento firme sobre o que queremos para quem está vindo. Ou o que sobrará do mundo que conhecemos para quem está nascendo e vai nascer.


