O Engano; O Processo

Josef K. trabalhava num banco, era ótimo funcionário, pois tinha responsabilidade, desempenhava sua função com dedicação e entusiasmo. Um dia ele acorda e é informado que precisa ser conduzido para depor no comando da polícia. Muitas pessoas não sabiam o motivo da sua detenção, nem mesmo Josef K. sabia, os policiais que o levaram não apontaram as razões para a sua detenção. Apenas com o desenrolar da trama, que beira da metafísica, surreal, mistério e loucura, o leitor se familiariza com a história. Mas o medo, o tempo, a não-comunicação, a solidão são  cimentados, como tijolo sobre tijolo numa parede, a cada parágrafo da obra.

Este é meu resumo do livro O Processo que se passa entre as décadas de 10 e 20 e do século 20, uma das obras-primas de Franz Kafka, autor da Tchecoslováquia.

Agora, caro leitor, vamos para o dia 30 de maio de 2018. Às 6h01. Bairro Jardim Europa, Sorocaba-SP.

Amorim trabalhava no Sindicato dos Comerciários de Sorocaba, era considerado um excelente gestor, pois sob seu comando a entidade que tinha o tamanho de um fusquinha quando ele assumiu, em 1985, se tornou um potente caminhão truck, de 8 eixos, 30 anos depois. Esse excelente trabalho o levou a ser membro da diretoria da entidade em âmbito estadual e nacional. Fez dele dirigente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), entidade que se equivale à CUT (Central Única dos Trabalhadores). Nomes fortes do sindicalismo nacional, como Paulinho da Força, deputado federal e ex-ministro do presidente Collor, faziam parte dos contatos do nosso Amorim. E numa investigação a respeito desses nomes graúdos da política nacional, os investigadores se depararam com o nome Amorim.

Na manhã fria daquele ano, a esposa de Amorim acordou assustada com um carro fazendo manobras na vazia rua. Parou de observar quando o carro estacionou do outro lado da rua defronte a casa e foi acordar o marido. Amorim, ainda sonolento, foi observar e viu se tratar de um camburão da Polícia Federal. Fechou a cortina da sala, voltou para a cama e sossegou a mulher. É a polícia, alguém da vizinhança deve estar encrencado. Não havia mergulhado no sono novamente quando a campainha tocou. A mulher chamou o marido e ele de pijama decidiu trocar de rouba antes de abrir a porta. Ao fazê-lo, levou xingo dos 5 soldados que estavam na sua porta. Uma mulher e quatro homens. Por que demorou para atender? Estava escondendo alguma coisa? A voz imperativa desestruturou Amorim e a esposa. Após perguntar do que se tratava, recebeu um papel com a ordem judicial para vasculharem sua casa. Foram seis horas e meia olhando tudo, papel por papel, do sótão ao porão. Não respondiam nada e quando falavam não se dirigiam a Amorim. Exceto uma vez, um dos soldados, o mais afoito, imperativamente gritou: cadê o dinheiro? Os vizinhos comentavam entre si a prisão do Amorim. A notícia correu e foi noticiada em todos os veículos de Sorocaba. Amorim foi levado para dentro do camburão que chegou na sua rua às 5h30. Primeiramente na sede local da Polícia Federal. Depois na sede paulista da PF, em São Paulo. Ao chegar, teve que ficar nu. Sua cela, tinha um beliche de cimento. Quando ele entrou, o primeiro som das batidas do ferro da grade amargurou Amorim. O segundo som, o do cadeado enorme, de 20 cm, sendo fechado produziu um barulho parecido com um clec e esse estremeceu o coração de Amorim. Ele que havia lido o livro e assistido ao filme Carandiru sentiu medo. Um medo diferente de todos o que já havia sentido. O medo da humilhação, da injustiça, da revolta de não saber do que estava sendo acusado. Sua pressão subiu. Sua diabetes disparou e quando ele pediu o remédio, 22h, o soldado disse que ele estava livre e poderia cuidar de sua vida. Amorim, que é professor na rede estadual de ensino, sentiu o que lhe havia acontecido quando uma aluna foi até ele, quando ele escrevia na lousa, ergueu sua calça, viu sua perna e exclamou para a sala de aula cair na gargalhada: ué, não está de tornozeleira professor! Quando o correio lhe comunicou seu desligamento do Sindicato dos Empregados no Comércio, da Federação dos Comerciários, da União Geral dos Trabalhadores, Amorim viu sua renda despencar. Teve que vender o carro e outros bens para pagar suas despesas. Sua agenda, sempre cheia, ficou vazia de uma dia para o outro. Sua carreira política (ele havia sido candidato com mais de 2 mil votos quando se candidatou a vereador) murchava. Sua chance de ser secretário municipal, quando uma liderança de seu partido se tornou prefeita, foi para o ralo quando ele teve de entrar naquele camburão.

Este é meu resumo do que aconteceu no dia 30 de maio de 2018, e suas consequências, na vida de Ruy Queiroz de Amorim. Um pernambucano pobre que migrou para São Paulo nos anos 70, trabalhou no Grupo Tamacavi do Grupo Sílvio Santos e foi designado para erguer a regional do grupo em Sorocaba na década de 1980. Ele foi preso sem saber o motivo. Tempos depois a Polícia Federal reconheceu que prendeu o Amorim errado. O sindicalista suspeito de crime de corrupção era também Amorim, mas não Ruy, com y. A operação da Polícia Federal chamada de “Registro Espúrio” prendeu pessoa errada.

Nesta semana, saiu a sentença da 4ª Vara Federal de Sorocaba, reconhecendo que houve dano moral em razão da prisão sem motivo, estipulada a ser pago pela União para ele no valor de R$ 100 mil. A sentença afirma que o Amorim inocente “se viu humilhado perante a família, os vizinhos, os alunos e colegas de trabalho, tal como exposto na exordial, em abalo à honradez de sua imagem. Os funcionários o obrigaram a tirar a roupa e o encaminharam a uma cela, desprovida de qualquer conforto, com apenas um vaso sanitário, beliches de ferro e capa de cimento. Sua pressão arterial subiu”, detalhou o juiz. “Saliente-se, por oportuno, que a prisão cautelar do autor foi prontamente revogada no mesmo dia, e não consta ter recebido quaisquer maus-tratos. Assim, e sopesando as circunstâncias do presente caso, entendo que a quantia de R$100.000,00 (cem mil reais) atende satisfatoriamente aos requisitos elencados acima e repara razoavelmente o prejuízo sofrido pelo autor, além de coibir práticas semelhantes”.

Ruy Amorim tem buscado a imprensa para que divulgue sua inocência. No programa O Deda Questão de ontem, quinta-feira, dia 17 de junho, conversei com ele durante 45 minutos. Em pelo menos dois momentos Ruy chorou de emoção. Para ver esta entrevista, clique: https://www.youtube.com/watch?v=o2QdhlxRc7E

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