O jornal de letra azul

Ao ler a mensagem de gratidão do repórter fotográfico Epitácio Pessoa (um dos mais importantes do Brasil, o único sorocabano vencedor do Prêmio Esso, o mais cobiçado entre os jornalistas brasileiros) ao jornal Diário de Sorocaba, que neste 6 de julho completou 63 anos de história, desde que começou a circular na manhã fria de 6 de julho de 1958, me lembrei do quanto esse matutino foi decisivo para a minha vocação de ser jornalista.

Meu pai era açougueiro quando eu nasci, mas quando eu tinha 3 anos, em 1970, ele também se tornou dono de bar, no salão que fica, ainda hoje, na frente da então nossa casa na esquina das ruas Souza Moraes com Moreira Cabral, na Vila Santana. Me lembro da mesa de bilhar que havia no centro do salão, onde no final de tarde homens se divertiam bebendo, comendo os quitutes que minha mãe preparava e jogando naquela mesa. Quando o bar estava vazio, eu gostava de me deitar na mesa e lá ficava com o jornal na mão. Me chamou a atenção quando o nome do jornal, na capa, veio estampado em letra azul.

Ele fala das coisas… Como que coisas, das coisas que acontecem… Não sei como eles sabem tudo o que acontece, mas o importante é que está aqui… Essas eram respostas, possíveis, que meu pai dava para satisfazer a minha curiosidade sobre o que era aquela coisa que todo dia estava na mesa de bilhar e todo mundo que entrava no bar queria ver por primeiro. Logo descobri que queriam, mesmo era ler, não apenas ver.

Foi o Diário de Sorocaba, de cabeçalho azul, a primeira semente do que me tornei hoje. Olhando para trás, não tenho dúvida disso. A vida me levou a amar jogo de futebol e, um dia, me vi comprando a Gazeta Esportiva para recortar as fotos dos jogos e colar num caderno de desenho. Até que estava lendo livros. Até que estava escrevendo. Até que aos 16 anos tinha o sonho de escrever no jornal da Convergência Socialista, que aprendi a ler com o saudoso Capucho. Eu levava o jornal da Convergência (que era clandestino) para o Senai em 1983 para o horror dos diretores do Senai na época, José Fasiaben e Cláudio Gâmbaro. Não é bom ser comunista, meu filho – me diziam.

Eu não era comunista. Não sou comunista. Apenas gostava de jornal. Gostava, como ainda gosto, de um objeto que circule de mão em mão com idéias. Não qualquer idéia, mas como a defendida no primeiro editorial do Diário de Sorocaba pelo jornalista Vitor Cioffi de Luca, fundador do novo veículo de comunicação que surgia: “O Diário de Sorocaba terá um norte pelo qual se guiará, não se arredando um centímetro dos nossos princípios e das nossas convicções… Faremos deste jornal uma sentinela avançada na defesa dos interesses de Sorocaba, de São Paulo, do Brasil, e que o povo, indistintamente, terá aqui uma tribuna da qual poderá valer-se, a qualquer momento, para salvaguardar seus direitos por ventura ameaçados, ou protestar contra atos públicos nefastos à coletividade. Independentes, absolutamente independentes, nossa norma de trabalho terá, sob o ponto moral, por base os postulados cristãos. Politicamente manteremos equidistância dos partidos. Não temos compromisso com ninguém, quer políticos, quer econômicos… Estamos inteiramente à vontade para advogar os interesses lídimos da coletividade e para batalhar pelas grandes causas de Sorocaba. Fazemos questão de frisar que o espaço de nossas colunas está à venda dentro do setor, mas nenhum preço existe para nossa consciência”.

Vida longa ao Diário. Sucesso aos irmãos De Lucca!

Vida longa ao jornal impresso. Que novos leitores defendam uma pátria livre. Esse é o único propósito de luta para um cidadão.

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