O que podemos aprender com a morte de Acca

Morreu na manhã de domingo Wanderlei Acca, ex-secretário da Educação da Prefeitura de Sorocaba na gestão de Jaqueline Coutinho entre 2019 e 2020. Amigos, colegas de trabalho, alunos externaram sua comoção nas redes sociais pela perda tão precoce, aos 68 anos, deste educador que marcou sua vida na história do ensino sorocabano.

Mas me chamou a atenção o comentário de um parceiro de Acca: “Se ele tivesse ficado quietinho, ele estaria bem. Aquele problema com os livros, os R$ 29 milhões, abalou ele. Ele passou este ano inteiro de 2021 fazendo tratamento para amenizar o câncer, mas não teve jeito. A metástase levou ele”.

O problema dos livros é o seguinte: Por lei, uma gestão deve gastar por cada ano de mandato 25% do orçamento geral do município com a Educação e em novembro de 2020 “sobravam” mais de R$ 1 milhão o que geraria um processo por improbidade administrativa aos gestores (prefeita e secretário). A ideia inicial foi a Prefeitura comprar o prédio do Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), autarquia municipal. Logo deixado de lado. Vingou a compra de 1 milhão de exemplares de livros para serem distribuídos entre os mais de 80 mil alunos da rede municipal.

O problema parecia resolvido até que o prefeito eleito, Rodrigo Manga, entendeu que esta compra não era necessária: “A gestão pública anterior gastou cerca de R$ 29 milhões na compra de mais de um milhão de livros, aquisição que segue sendo investigada pela Corregedoria Geral do Município. Além de nos atentarmos sobre o que nossas crianças estão tendo acesso, a atual Administração está investigando o recurso público de acordo com as reais necessidades da Educação. Pois, com os gastos sem critério com esses exemplares, poderíamos ter reformado, feito manutenção e construído novas creches, sanando a fila de vagas das crianças por muitos anos, para citar apenas alguns exemplos”.

A Corregedoria concluiu sua investigação, mas ainda não divulgou o resultado dela.

Do total de 1 milhão de exemplares comprados, 1.586 exemplares eram dos exemplares “No meu corpo mando eu”, que foram substituídos por “O Pequeno Príncipe”, pela compreensão de que o conteúdo do referido livro era inadequado aos alunos. Uma Comissão Técnica de Análise avaliou os livros, comissão essa formada por servidores da Secretaria da Educação, eleitos por seus pares, tais como supervisores de Ensino e professores, bem como membros da Comissão Mista e do Conselho Municipal de Educação de Sorocaba. São profissionais com formação na área educacional, como mestrado e doutorado em Educação, e com experiência profissional na área literária, inclusive um membro da Academia Sorocabana de Letras, divulgou a prefeitura.

A alegria de Acca por ter enfrentado resistências internas na própria secretária, e até na Prefeitura, e ter conseguido concluir o processo do concurso público que preencheu as vagas necessárias para as escolas funcionarem a contento neste ano não foram maior do que a dor dele ao sentir a compra dos livros feitas por ele sendo questionadas.

Essa realidade diz muito sobre nós. Tem razão esse parceiro de Acca ao pensar que se ele tivesse ficado quietinho (ou seja, não ter sido secretário) seu emocional não teria afetado o seu físico? Ninguém tem essa resposta. Acca, até no seu último momento, vai nos fazendo pensar, como um bom professor faz.

Tive a chance de conviver com Acca enquanto fui secretário de Comunicação nesta mesma gestão. Fui testemunha da sua seriedade e sensibilidade com os alunos, especialmente quando a pandemia obrigou que as escolas fossem fechadas, deixando os alunos em casa. Ele, então, levantou uma questão chocante: são pelo menos 10 mil de nossas crianças que vão às aulas para comer, não apenas para aprender. Elas não têm comida em casa, se não comerem na escola, não comem nada. E, tecnicamente, atendendo o que diz a lei, mesmo sem irem à escola essas crianças seguiram recebendo a merenda diária na pandemia.

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