Grande vazio

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Sentado na poltrona, ao lado dos muitos livros da minha estante, lendo na tela do meu celular que Victor Gloves, o piloto- astronauta da Artemis 2, que está para chegar nesta sexta-feira, 10 de abril, à Terra após a viagem à Lua, a mais longa em 50 anos, dizendo que lá em cima é perceptível o grande vazio e o “nosso” Planeta é, nas palavras dele, “um oásis, um lugar precioso, onde podemos viver juntos”, ouço o homem da igreja evangélica, a uns 200 metros de meu apartamento, berrar palavras toscas a respeito da verdade. Um extraterrestre, caso existisse, pensaria que aquele homem fala para pessoas com problemas auditivos senão qual outra justificativa para tanto berro. Mas um brasileiro qualquer domina o código daqueles berros e sabe que ele não se relaciona à surdez de sua plateia, mas ao fantasioso poder daquele homem. Ele se acha poderoso e berrando ele acha que sua plateia também vai achá-lo poderoso e de fato acha porque todo domingo sua plateia volta para a sua igreja para vê-lo e ouvi-lo berrar.

Mas ninguém ouve Glover falando do grande vazio.

É Domingo de Páscoa, dia em que Jesus Cristo, depois de ter sido crucificado e morto na última sexta-feira, ressuscita. Ele morre e renasce para salvar os humanos e a humanidade, propaga a fé do Cristianismo, fato ocorrido há 2026 anos. Os judeus, que estão no ano 5786, não apenas não acreditam nisso como dizem que quem crê em Jesus Cristo crê num forasteiro que nega a fé judaica, essa sim única, também desprezando os muçulmanos e a fé de matiz africana, sendo que cada uma despreza qualquer outra, pois a dela diz a verdade. E essa verdade não contempla o que diz Glover: Todo este vazio…

Me levanto e vou à feira comprar abóbora e sinto o calor dessa manhã cozinhar os miolos de quem também saiu à rua e o Sol fritar minha careca e meus braços. É o pior Sol da minha vida, embora não exista, ou eu não tenha, um aparelho para fazer essa comparação. Só há minha percepção e a percepção de cada um e na feira toda gente só fala disso: Que calor! Que Sol quente é esse! Todos suam. Suam às bicas. E a feirante segue sua ladainha: Só isso mesmo, freguês? Comprou tomate, vai fazer molho, leva o manjericão, tá fresquinho. Já tem cebola? O alho está em promoção, não quer aproveitar, freguês? Sinto uma espécie de raiva a cada pronuncia da palavra freguês. Não da palavra ou do que ela significa, mas da forma e da entonação com que a dona da barraca a enfatiza. Só sinto, vou embora sentindo, mas não faço nada e antes de entrar no meu carro já me esqueci dela dizendo freguês.

Me sento novamente na poltrona ao lado dos livros e o homem da igreja não berra mais. Agora só domingo que vem se o Planeta Terra, esse oásis no grande vazio, ainda estiver resistindo.