Prefeito eleito expõe suas limitações como gestor ao dizer que “não sabia de nada” a respeito de pessoas escolhidas por ele para exercer cargos públicos

crespo

Em postagem recente, falando sobre a decisão de abrir mão do controle da informação no momento do anúncio da sua equipe de secretário, alertei para a falta de experiência do prefeito eleito José Crespo no Poder Executivo, embora seja grande sua experiência na vida pública no Poder Legislativo.

Escrevi: Muito experiente no Legislativo (foi deputado estadual por 3 vezes e vereador por 2), a falta de experiência no Executivo (que é quem faz) ficou patente ao revelar mudanças tão drásticas na administração municipal sem exercer nenhum controle sobre elas. Não convém a nenhum executivo (especialmente um prefeito) improvisar. O planejamento (que estuda e antecipa todas as etapas de uma ação, como a reforma administrativa) é essencial para o sucesso. Renato Amary em seus oito anos de prefeito foi um planejador intuitivo (tinha tudo na sua cabeça). Vitor Lippi em seus oito anos de prefeito foi um planejador de manual, reforçava isso, promovia cursos de planejamento estratégico, e tinha tudo nos seus cadernos (quem conviveu com ele sabe do quanto Lippi escrevia e escrevia a mão). Pannunzio delegou decisões de planejamento a pessoas de sua absoluta confiança e lealdade (Roberto Juliano, Toni Silveira, João Leandro e Edsom Ortega). São características de cada um e devem ser respeitadas.

Não sabe de nada

Pois bem, os fatos estão demonstrando que não é apenas sobre a informação que passa à sociedade que Crespo abriu mão de controlar. Ele também não tem controle sobre a história das pessoas que ele escolheu para exercer o cargo de confiança.

Na quinta-feira, ao vivo na coluna O Deda Questão no Jornal da Ipanema (FM 91,1Mhz), eu questionei o prefeito a respeito de inquérito policial que investiga a denúncia de dois fiscais da Prefeitura de Sorocaba que acusam Fábio Pilão, futuro secretário de Crespo, de ter ameaçado a eles de morte. Crespo disse que não sabia da ameaça e nem de que foi registrado Boletim de Ocorrência sobre o fato.

Na edição de hoje do jornal Cruzeiro do Sul, Wilson Gonçalves Júnior, o companheiro jornalista Juninho, revela que está transitado e julgado a condenação da futura secretária da Saúde, a médica Janayne Andréa Marques de Farias Maffeis, pelo Tribunal de Justiça do Estado, por improbidade administrativa, em decisão que não cabe mais recurso. Assim que o Judiciário executar a sentença, a futura secretária terá a suspensão dos direitos políticos por cinco anos. Ou seja, fica impossibilitada de ser nomeada. Crespo disse ao jornalista que não sabia de nada.

Na edição de hoje do jornal Z Norte, o colega Marcel Scinocca do Grupo Z de Comunicação, publica reportagem a respeito de um inquérito policial contra Werinton Kermes escolhido por José Crespo para ser secretário da Cultura. Kermes foi gravado de maneira escondida por ex-apresentadores da sua TV em Votorantim e é acusado de querer resolver seus problemas financeiros. E a resposta foi a mesma: o prefeito José Crespo não tinha conhecimento desses inquéritos até ser questionado pelo jornal.

Futuras revelações sobre seu secretariado

É certo que pelo menos mais dois secretários escolhidos por José Crespo serão alvo de reportagens explicando que possuem problemas na justiça ou polícia. Alexandre Hugo, que vai para a pasta de Abastecimento, foi demitido por justa causa da CPFL Piratininga de Energia Elétrica e é alvo de investigações. Mário Bastos, escolhido por Crespo para a Cidadania, é alvo de processos na justiça, acusações de assédio sexual por alunas, foi envolvido em questão com sexo com menor de idade em Guapiara.

Obviamente a imprensa vai debruçar sobre os outros nomes escolhidos por Crespo e mais problemas poderão surgir de outros secretários e claramente vão virar notícia.

Crespo precisa planejar e não improvisar

Os políticos banalizaram a expressão “não sabia” usada por Crespo para se explicar nas reportagens que a imprensa publicou nessa semana. Lula não sabia de nada do Mensalão. Vitor Lippi não sabia de nada quando três de seus secretários foram presos em operações policiais.

Se a um político é inadmissível a expressão não sabia, a um prefeito é menos ainda. Não está reservado a um prefeito eleito o direito de não saber. No caso da escolha de seus secretários, Crespo errou no processo de seleção, ou seja, errou num dos quesitos básicos de um comandante do Executivo. Escolher bem significa saber tudo a respeito daquilo que é público de quem está sendo contratado. Não é admissível que alguém coloque num cargo de confiança pago pelo erário público quem não conhece. O mínimo que se espera é que Crespo determine para que cada um dos seus escolhidos lhe informe que problemas policiais e judiciais estão enfrentando. Não dá mais para ouvir como resposta do prefeito eleito a expressão não sabia.

Ainda faltam 22 dias para que Crespo assuma. Tempo suficiente para corrigir qualquer erro e trocar nomes do seu secretariado. Tempo suficiente, também, para que ele entenda que esses nomes, apesar dos problemas, merecem o cargo. Tempo mais que suficiente para Crespo saber que não é tolerável que ele dê como resposta a expressão “não sabia”. Um prefeito tem que controlar toda a máquina. A sociedade confiou nele ao votar nele.

Ninguém que errou deve ser punido eternamente. A médica Janayne, por exemplo, em sua sentença, tem a decisão da Justiça de que ela prestou o serviço à prefeitura de Araçoiaba e não roubou o dinheiro. Ela errou no procedimento, mas não é ladra. Mas, da maneira como ela foi julgada nas redes sociais com a veiculação da sua sentença, ela certamente está pensando se vale a pena esta exposição pública.

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