Serviço público não é “boquinha”

Entre os xingamentos preferidos dos leitores deste blog, dirigidos a mim quando eles não concordam com alguma das coisas que penso, escrevo e expresso, é o de falar que não terei mais “boquinha” na Prefeitura.

Evidentemente que isso fala mais sobre quem me xinga do que de mim próprio. Mesmo assim decidi ser didático uma vez que na intenção de me ofender com esses xingamentos essas pessoas atingem a todos que decidem dedicar parte da sua vida ao serviço público.

São três maneiras de ingressar no serviço público, uma definitiva e duas provisórias. A forma mais difícil de ingressar é pela escolha, na eleição, onde o mais votado assume para os cargos de prefeito e vice no Poder Executivo ou de vereador no Legislativo. É um período provisório, com data para entrar e sair. Outra forma, tão ou mais difícil do que a eleição, são os concursos públicos. Milhares de pessoas disputam dezenas de vagas e apenas os que tiveram um bom preparo no Ensino Fundamental e Médio acabam se dando melhor do que os que não tiveram uma formação tão boa. Passado o chamado estágio probatório, esse servidor tem, por lei, estabilidade no seu cargo de modo que não pode ser demitido pela vontade do patrão do momento. Por fim, a terceira maneira de ingressar no serviço público são nos cargos comissionados, ou seja, são funções de caráter político. No caso da prefeitura, é o prefeito o responsável por fazer esta escolha para seu ingresso e saída ao tempo que ele julgar necessário.

Fui servidor público comissionado (nunca prestei concurso, pois minha escolha foi a de ser jornalista) em quatro ocasiões. Na primeira, escolhido pela deputada estadual Maria Lúcia Amary, fui assessor na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Na segunda, escolhido pelo prefeito Vitor Lippi, fui secretário da Cultura da Prefeitura de Sorocaba, aliás, o primeiro escolhido para este cargo que até então não existia. Na terceira vez foi como gerente regional da CDHU (Empresa pública de habitação do Estado) numa escolha dos deputados Carlos Cézar, estadual, e Jefferson de Campos, federal. Por último, escolhido pela prefeita Jaqueline Coutinho, fui secretário de Comunicação da Prefeitura de Sorocaba.

Em todas as ocasiões a minha escolha teve como critério minha capacidade de desempenhar um papel de liderança nas repartições para a qual fui escolhido. Os donos do mandato, no momento da escolha, tiveram o discernimento de que eu seria capaz de assim desempenhar o papel esperado por eles. Creio que me saí muito bem em todas as quatro ocasiões. Mas, digo a quem ainda não teve a oportunidade de dar sua contribuição, é uma tarefa árdua. Além de toda responsabilidade executiva, de assinar pilhas de documentos diariamente, há ainda o fato de você ter sua vida particular mexida e remexida pelos adversários do político que te escolheu. Quem nunca viveu essa situação, não faz idéia do quanto esses adversários são capazes de serem maus, mentirem e atormentarem o seu cotidiano.

Vou dizer por mim, exclusivamente, mas penso que seja também o pensamento das pessoas que aceitam colaborar com o político eleito: Não é o dinheiro que me levou aos cargos. Para quem paga o salário do comissionado (o cidadão) pode até parecer que seja uma “mina de ouro”, pois evidentemente que não são funções mal remuneradas. Quem hoje em dia ganha na iniciativa privada um vencimento mensal de R$ 15 mil (salário de secretário) são bem poucos. Minha decisão de aceitar o cargo público sempre teve uma razão momentânea. Como secretário da Cultura, por exemplo, tive o sonho de dar oportunidade para jovens, muitos reféns dos traficantes de drogas, numa atividade que, com certeza, teria impacto em toda sua vida. A frente da Comunicação, minha missão era esfriar os ânimos entre o chefe do executivo (Crespo em seu mandato esticou tanto a corda que ela arrebentou duas vezes) e sua relação com qualquer ente, pois tudo vira notícia quando se trata do prefeito. Na CDHU, minha luta, era para que as habitações populares tivessem um mínimo de 50 metros por habitante da casa e não 50 metros para a família toda. Neste caso, minha passagem foi um fiasco total. Nem mesmo consegui semear a importância desta idéia entre os dirigentes.

Por isso afirmo: servidor comissionado não é “boquinha”. É missão. Tenho certeza que meus colegas secretários concordam com isso. E desejo que você, ignorante, saia do conforto do seu teclado e pare de disseminar desprestígio a quem, momentaneamente, colabora com o dirigente momentâneo do Executivo e Legislativo. Repito, eu sei que sua agressão é a mim, mas o subtexto desqualifica essa função que é tão importante para que um projeto político vencedor nas urnas saia do papel.

Na foto, a então prefeita Jaqueline e seus secretários durante reunião.

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