Sorocaba é linda. Não estrague essa condição

Na manhã de domingo, quando eu estava sentado no Delta Café lendo “Rosario Tijeras” do autor colombiano Jorge Franco, tive minha atenção dividida entre as histórias da jovem morena nascida em meio ao mundo do crime de Medelín e a presença de três mulheres que entraram no recinto.

Meu “esporte” preferido é prestar atenção nas conversas dos outros. Ouvir um trecho do que dizem, pessoas estranhas a mim de preferência, e imaginar o restante. Imaginar o texto, contexto e subtexto de cada acontecimento.

Depois de pedirem 2 cariocas e 3 águas sem gás, as três mulheres conversavam entre si e usavam um tom de voz baixo até que uma delas, a única de frente pra mim, atendeu o telefone três vezes. Na primeira para dizer que não poderia ir a um local para o qual havia sido convidada; depois para dizer que era o marido de fulana que gostava de bacalhau e não a fulana e, por fim, desta vez com mais atenção, explicou que estava viajando, não chegaria em tempo e, após perguntada, ter dado de resposta: Sorocaba… Sorocaba é linda. O clima é como de Niterói. O curso está ótimo (não sei se era aluna ou professora e nem que curso se tratava). Você deveria pegar a Kelly e vir conhecer. Tem um parque aqui onde caminhamos hoje (Parque Campolim) maravilhoso…

Independentemente do que imaginei, o que me chamou a atenção foi o fato daquela mulher, na casa entre 48 e 58 anos de idade, afirmar com a espontaneidade com que ela se expressou o quanto Sorocaba é linda.

A identidade de cada pessoa é formada pelo que nós pensamos de nós, pelo que os outros pensam de nós e pelo que nós achamos que o outro pensam sobre nós. Essa complexa relação de abdução, percepção e compreensão é o que forma o Eu de cada um de nós.

Ouvir que Sorocaba é linda de uma carioca é uma ajuda e tanto para que cada um de nós valorize a cidade onde vive. É uma questão de autoestima. Me fez bem saber que aos olhos de nossos visitantes a cidade onde nasci e vivo seja linda.

É compromisso de cada um de nós preservar essa beleza. Tarefa dura. Ainda mais quando você toma conhecimento que no mesmo horário, em outro canto de Sorocaba, no Parque das Águas, no domingo passado pela manhã, um avô se indigna ao passear com a neta pelo local e ver um pai ensinando o filho de 10 anos a manusear uma arma de pressão a ar, que dispara chumbinho, contra as aves que habitam o local.

Que pai ensina o filho, criança, a usar uma arma (mesmo que dispare chumbinho que machuca e não mata)! Certamente (isso é apenas suposição) ele, como o presidente, prefere fuzil a feijão.

Sorocaba é linda, mas há quem deseje enfeiá-la com seu exemplo, sua péssima educação. Vamos resistir!

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