Aos poucos, o sorocabano vai conhecendo o que pensa o prefeito de Sorocaba a respeito de temas fundamentais na vida de uma cidade. Um conhecimento que não ficou claro no processo eleitoral: sua ideologia liberal e a de fazer privatizações

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Alana Damasceno, do Portal Ipanema (http://jornalipanema.com.br/ultimas), minha colega de trabalho, transformou em notícias importantes para o sorocabano alguns dos temas da minha entrevista com o prefeito Crespo na manhã de hoje no Jornal da Ipanema (FM 91,1Mhz). Feita ao vivo, por telefone, da sala do prefeito no 6º andar do Palácio dos Tropeiros, foquei na entrevista temas presentes na vida do sorocabano como o reajuste da tarifa das passagens de ônibus e a ausência de creches em tempo integral para quase 1000 crianças de 0 a 2 anos.

Outros temas, como a escolha de um causasiano para a coordenadoria de Igualdade Racial, posto sempre ocupado por um negro (leia postagem a seguir), seu projeto de BRT (que ele promete colocar em funcionamento até 2020), o improvisado Carnaval (que recebeu mais elogios do que críticas de quem aproveitou a folia) e medidas drásticas, palavras do próprio prefeito, para equilibrar os gastos com o orçamento onde ele criou o super Cotim (no governo Pannunzio havia o Cotim – Comitê de Otimização de Custos – formado por 3 secretarias), que obviamente terá outro nome, formado por ele, a vice-prefeita e 22 secretários para enxugar os gastos em quase 300 milhões neste ano; as mudanças na gestão das UPHs da zonas Norte e Oeste que serão terceirizadas como já são no Éden e zona Leste; a carga horária de trabalho dos médicos; o foco maior nos atendimentos de prevenção nas UBSs…enfim, tudo isso, fez parte da conversa de hoje pela manhã.

Aos poucos, com o passar dos dias, vou dissecar o que está por trás de cada resposta do prefeito. Aquilo que de imediato, quando alguém pergunta e outro responde, nem sempre fica aparente.

Começo, hoje, colocando o foco no que entendo que surgiu de mais importante nas respostas do prefeito quando tratei do tema creche (educação infantil) e o aumento no preço da tarifa da passagem de ônibus. Temas, aliás, que também chamaram a atenção da colega Alana Damasceno que escreveu dois artigos: “Crespo diz ‘não ter como evitar’ reajuste do passe de ônibus; novos valores já estão em vigor” e o outro “Crespo sugere terceirizar ‘pedaços’ da área de Educação Municipal”.

Em que pese as justificativas que sustentam a necessidade que o prefeito vê nesses seus dois atos, como a inflação e os insumos dos ônibus que ficaram acima do teto da inflação oficial; ou no caso da educação, o quanto novas 150 auxiliares de educação (que atenderiam a necessidade das creches para abrigar as 1000 crianças que estão fora da sala de aula) vão impactar no limite prudencial do pagamento da Folha de Pagamento da Prefeitura, o que mais chama a atenção é o modelo de que a privatização é a solução para aquilo onde o Estado não dá conta de resolver.

Quando o prefeito diz ‘não ter como evitar’ reajuste da tarifa do passe de ônibus, ele está dizendo que para evitar esse reajuste o caixa da prefeitura, ou seja, o cidadão que paga os seus impostos, teria de subsidiar essa passagem. Portanto, o prefeito teria sim como evitar o aumento, mas para isso teria de gastar mais dinheiro subsidiando o transporte. Na sua resposta, quando detalha o seu pensamento, Crespo deixa evidente que vê como um erro o subsídio dado pelas gestões do PSDB ao longo dos últimos 20 anos, o período em que o partido comandou a cidade. Para Crespo, a passagem paga o sistema (insumos dos ônibus) e a prefeitura deveria, somente, ajudar no pagamento dos salários dos motoristas. Ou seja, ele revela sua visão de que não cabe ao Estado subsidiar o transporte coletivo. É uma visão de mundo legítima. Pena que ela não apareceu na campanha eleitoral com tanta transparência. Certamente é um discussão importante antes de o eleitor decidir o voto.

O mesmo raciocínio privatacionista de Crespo fica evidente na maneira como ele pretende resolver a questão da educação infantil: contratando vagas em instituições particulares. Ou seja, o prefeito abre mão de que o Estado (no caso o governo municipal) tenha o controle sobre a linha pedagógica da escola contratada. Dependendo de como for a escolha dessas instituições é bem provável que se contrate vagas em escolas quem nem mesmo uma linha pedagógica definida tenha. Escola para crianças de 0 a 6 anos não é para resolver os problemas dos pais que não tem com quem deixar esses seus filhos. Escola para crianças de 0 a 6 anos é a chance de dar a essa criança a possibilidade dela ter sucesso quando ingressar no ensino fundamental e aprender o que ali é ensinado. Creche tem sim estratégia educacional e comprovadamente é fundamental para o aprendizado de uma criança que ingressa no mundo do aprendizado.

Alguém poderá até chamar de sanha privatacionista essas decisões de Crespo. Eu, porém, entendo que se trata de ideologia. Poucos dão bola para o fato do prefeito ser do DEM (Democratas), de centro-direita, único partido conservador e liberal no Brasil. Crespo deixou de lado isso na campanha. Mas seus adversários também. Pouco ou nada se disse a respeito do que significa o DEM no espectro político brasileiro. Situação contrária ao PSOL, adversário de Crespo no 2º turno, que quando deu sinais que poderia vencer recebeu uma saraivada de críticas das camadas mais conservadoras da sociedade sorocabana chamando de ameaça à democracia uma eleição do então candidato Raul Marcelo. Jogaram pesado. E deu certo, Crespo venceu. Mas venceu sem nunca ter explicitado que uma vez prefeito implantaria sua ideologia no comando da prefeitura como a de não subsidiar a tarifa de ônibus (nem mesmo a de domingo que pulou de R$ 1,50 para R$ 2,50) ou provocar a terceirização na educação, mesmo que no momento seja apenas uma parte dela. Ou totalizar a terceirização do atendimento de urgências e emergências nas Unidades Pré-Hospitalares.

FOTO: Feita ao vivo, por telefone, da sala do prefeito no 6º andar do Palácio dos Tropeiros, entrevista foi ao ar das 7h40 às 8h20 na manhã de hoje

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